sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Loveless (Nelyubov)

"Loveless" (2017) dirigido pelo russo Andrei Zvyagintsev (Elena - 2011, Leviatã - 2014) é um filme sombrio que retrata as consequências de se viver em desamor, essa ausência de afeto está tanto dentro do seio familiar, como na sociedade que apequena o ser humano tornando-o preocupado e obcecado com regras e dinheiro. Zvyagintsev filma o desencanto que envolve a sociedade russa, o ambiente é um grande personagem também, o frio congelante que devasta os bosques é o reflexo da languidez e indiferença humana, o apuro da câmera ao atravessar esses lugares destruídos logo no início é um prenúncio de que algo muito ruim irá acontecer, e assim se dá e o vácuo que se instaura machuca o espectador.
Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente. Zhenya é amarga e infeliz, se arrepende de ter se casado e ter tido o filho, Boris é ausente e não há qualquer sinal de afeição pelo filho, as brigas entre eles são constantes e pesadas e o garoto ouve as duras palavras de desprezo, o vemos sempre absorto e fechado, até que um dia resolve fugir de casa. A cena dele chorando enquanto os pais brigam é dilacerante e gera um sentimento de desesperança, aliás, Zvyagintsev é um diretor que sempre está envolto nessa questão, seus filmes são duros e pessimistas, reais e humanos, não há floreios ao expor as dores.
A preocupação de Boris é o seu trabalho, como está se divorciando faz de tudo para garanti-lo, já que seu chefe dá valor a esta convencionalidade, então ele engravida a sua namorada para não colocar sua posição em risco, o casamento é apenas um meio para estar dentro das regras hipócritas da empresa, da religião e livre de qualquer apontamento na sociedade. Zhenya também está namorando, dessa vez acredita que pode vivenciar a felicidade, mesmo que o namorado seja apático pode garantir um status e lhe dar tudo o que quer, esse relacionamento permite que esqueça sua vida, a maior parte do tempo ela está compartilhando fotos nas redes sociais, uma grande forma de escapismo dos dias atuais. Já Alyosha fica à mercê da vida, o descaso dos pais é imenso e chega a um ponto de não aguentar mais e ir embora, o modo que a mãe reage ao sumiço, inclusive demora a percebê-lo, é alheio, sente-se perdida, recorre a Boris que a escuta friamente, e então recorre a polícia que a ouve também com frieza, chama a atenção mesmo quando o chefe de um grupo de resgate voluntário faz as perguntas para começar a busca e Zhenya não sabe responder claramente. Ela não conhece o próprio filho.

O filme não está interessado em dar pistas ou um desfecho ao desaparecimento de Alyosha, o que importa é a demonstração dos valores corrompidos, o individualismo, o vazio, a brutalidade que vem da indiferença. E o principal aqui, não há redenção, por mais desespero e arrependimento que esses pais sentiram, não há nenhuma transformação. Os personagens estão perdidos em si mesmos, se apoiando em convenções, regras e falsas alegrias, afogados na banalidade do cotidiano esquecendo-se  do palpável, nada de bom pode surgir disso, resta apenas disseminar o desamor que brota.

Profundamente cortante, uma obra que retrata o ser humano sob uma ótica peculiar, corajosa e sem julgamentos, as sombras, as frustrações, os ressentimentos, os olhares dispersos e esvaziados, as lágrimas que escorrem escondidas enquanto sorrisos explodem diante da tela do celular, a complexidade dos sentimentos, a criança em prantos sentindo todo o peso da vida em seus ombros, a culpa jogada em cima do mais fraco, a falta de consciência e a sociedade que esmaga; o leviatã.
"Loveless" pesará de um jeito diferente a cada espectador, o seu poder de reflexão é agudo, mas imensamente necessário. 

2 comentários:

  1. Está na minha lista para conferir, assim como "Leviatã".

    Abraço

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  2. Excelente texto sobre um grande filme. É uma obra brutal, adulta, indispensável.

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