terça-feira, 26 de julho de 2016

Olmo e a Gaivota

"Olmo e a Gaivota" (2015) dirigido por Petra Costa (Elena - 2012) e codirigido pela dinamarquesa Lea Glob é um filme metalinguístico de extrema sensibilidade que desmistifica toda a aura mágica em torno da gravidez, acompanhamos a trajetória da protagonista desde a descoberta até o nascimento de seu bebê, os medos, as angústias, as fragilidades, a solidão e as limitações são exploradas de maneira realística, apesar de que os atores Olivia Corsini, que está grávida mesmo, e Serge Nicolai nos confunda em muitos momentos, pois eles são atores de teatro na verdade e aceitaram documentar esse período da vida deles, então não sabemos em qual parte entra a ficção.
O casal se prepara para interpretar a peça "A Gaivota", de Tchekhov que breve sairá em turnê, mas tudo muda quando Olivia descobre estar grávida e que não conseguirá trabalhar por conta de ser uma gravidez de risco, ela precisa repousar e fazer o mínimo de esforço possível. Acontece que Olivia é uma mulher que ama o que faz e durante a fase de recolhimento surge pensamentos dos mais variados sobre esse momento. Ela se vê entediada e sozinha, Serge continua com a sua rotina e não compartilha de fato com os sentimentos vividos por ela. Olivia diz que o presente é dos dois, mas quem carrega é ela, a falta de percepção do homem diante essa realidade, que aliás concretamente não muda nada, são sensações distintas e muitos diálogos exemplificam isso. Em uma cena Serge pergunta para Olivia o que fez no dia, ela explica, talvez as orelhas, o fígado, pois consumiu toda minha energia. É um retrato bem interessante da gravidez, sem floreios ou hipocrisias. Não é agradável ver seu corpo se modificar, se dar conta de que um ser cresce dentro de você e te consome. As dores, as angústias e as limitações impostas. "Sinto que há um Alien dentro de mim, que se nutre de mim e me impõe as regras."
O fato é que esse filme não pende para isso é o certo, ou isso é errado, engravidar ou não engravidar, mas simplesmente mostra o lado real que muitas mulheres não pensam, seja por influências, idealizações ou tradições. 

"Serge sempre diz: 'Não se preocupe porque um filho nos dará muita força'. Sinto culpa porque tenho a impressão de torná-lo a solução para minha incapacidade de solidão. Tenho medo da agressividade que me habita. Do tigre e do dragão dentro de mim. Podem ser os hormônios, mas neste momento, eu os vejo."

"Olmo e a Gaivota" é poesia minimalista que te deixa refletindo sobre a existência e a constante busca pela felicidade e liberdade. Olivia lida com as limitações impostas pela gravidez, o criar raízes (Olmo), que a faz se afastar do teatro, o seu grande amor, e que lhe daria a liberdade (Gaivota) para voar para onde bem quisesse. O filme é feito de camadas múltiplas, uma maneira belíssima de refletir a vida e o como vivemos, somos nós mesmos vivendo de acordo com nossos pensamentos e desejos, ou deixamo-nos levar pelo mesmo caminho de tantos por medo e insegurança devido papéis que a sociedade determina?
Petra Costa compõe uma obra instigante e corajosa, não é fácil colocar em pauta um assunto tradicionalmente fincado na mente das pessoas, a maternidade em dado momento surge como um peso na vida da mulher, chega uma idade em que perguntas do tipo: "e quando você vai engravidar?", "seu relógio biológico não despertou ainda?", são uma constante. Como se fosse uma obrigação e de que a mulher nasceu apenas para gerar. Desconstruir esse pensamento é necessário, porque muitas mulheres se arrependem da maternidade, mas por receio e culpa mentem para si mesmas. Faltava esse olhar sobre a gravidez que, claro, tem as suas belezas, a mulher se redescobre, mas o não falar das coisas ruins deixa a mulher só, tendo que lidar com as angústias sozinha, não há mal nenhum em se lamentar e se sentir esgotada e com inúmeros sentimentos negativos. 

"Olmo e a Gaivota" é uma experiência sensorial original e imprescindível que nos traz lucidez, portanto, para as mulheres que desejam ser mães, para aquelas que já são e para as que não desejam a maternidade, assistam. Aos homens também, pois é uma forma mais real de se entender o que acontece nesse processo biológico.
A sinceridade do longa é linda e mostra que não é fácil lidar com a gravidez, e que a atenção voltada para ela é superficial e fantasiosa. A maternidade simboliza realização para muitas mulheres, há a máxima de que se torna mais completa quando vive-se a experiência, porém é preciso repensar sobre, e principalmente, eliminar a mentalidade clichê e os mitos sobre o tal "instinto materno", de que a mulher nasceu para ser mãe.
O fato é que existe os instantes ruins na gravidez, é um momento delicado e de readaptação a si mesma e a nova vida, as mulheres não precisam se sentir culpadas por isso, falem e exponham esse lado, é um passo para a reflexão e a lucidez.

Um comentário:

  1. Não conhecia o filme e concordo plenamente com sua posição.

    A maternidade é algo idealizado pela sociedade como o grande momento da vida da mulher, quase sempre escondendo as dificuldades de uma gravidez e a enorme responsabilidade que é cuidar de uma criança.

    Toda mulher tem o direito de decidir se quer ou não ser mãe, é uma escolha pessoal.

    Bjos

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