terça-feira, 24 de novembro de 2015

Advantageous

“Advantageous” (2015) dirigido por Jennifer Phang é um filme melancólico que passeia por muitas questões existenciais. Em uma cidade no futuro próximo onde a opulência ofusca dificuldades econômicas, Gwen e sua filha, Jules, fazem tudo o que podem para manter a alegria, apesar de toda a instabilidade em volta do seu mundo.
Gwen (Jacqueline Kim – também roteirista) é mãe de Jules (Samantha Kim), uma menina de 13 anos muito inteligente. As duas tentam sobreviver em um mundo extremamente luxuoso e tecnológico. Somos apresentados a um futuro clean, mas mascarado, telefonemas e conferências são feitos através de hologramas e a estética nunca esteve tão em alta. Gwen trabalha em uma empresa que prima pela beleza e que antes de tudo ataca o psicológico das pessoas. Gwen já não representa mais o conceito da empresa, está envelhecida e não se encaixa nos padrões atuais. E, portanto o futuro de sua filha está em risco ao perder esse emprego. Interessante o conteúdo do longa, ainda mais por ter sido feito por mulheres, a visão em torno das pressões, seja elas estéticas ou morais. Gwen é mãe solteira, precisa trabalhar duro e lidar com o meio que diz que não há espaço pra ela, Jules é sua vida e é capaz de tudo para dar um futuro garantido a sua filha.
O futuro retratado não está muito longe de nossa atualidade, cada vez mais os trabalhos estão sendo automatizados e restrito a padrões, deixando muitas pessoas desempregadas e à margem. Invisíveis, a sociedade os engole com sua riqueza e tecnologia. Gwen acaba se sujeitando a um novo método, ainda em fase de experimentação, algo que a mudará completamente. Imensamente triste observar o quão dispostas as pessoas estão a se submeter a qualquer custo pela sobrevivência.
“Advantageous” pode parecer complicado de início, mas é uma crítica muito clara ao futuro que estamos a caminho. Um futuro em que seu valor será medido por características exteriores e que será possível apagar seu eu para poder ser outro. Os diálogos são lindos e reflexivos, o ritmo é lento, mas atrai a atenção, seu clima melancólico e angustiante exige que pensemos o meio em que vivemos, e as atuações coroam esse drama existencial. É um filme claro, apesar das metáforas. Uma bela surpresa, e para quem curte ficção científica é um exemplar diferenciado e sensível.

Em vários momentos Jules questiona porque e pra quê existe, a questão da reprodução é colocada em pauta sutilmente. Os seres humanos se baseiam em sentimentos egoístas em relação ao assunto, "eu quero porque cuidará de mim", "porque eu desejo ser melhor", "isso irá mudar minha vida", mas não se dão conta que se está colocando um ser humano no mundo que sentirá por si só as coisas. Engravidar é uma falsa obrigação moral para a mulher, desde criança cuidamos de bonecas e entendemos isso como instintivo, quando na verdade não é. Para mim é um crime colocar um ser neste planeta cada vez mais desigual, violento e repleto de ignorância. O filme entra nesta questão social, mas como já disse sutilmente, Gwen ama tanto sua filha e teme tanto por seu futuro que se submete a algo que não melhorará, mas piorará a situação da menina. O filme pode ser encarado de forma depressiva e até pessimista, mas serve para levantar questões que a todo o tempo somos confrontados, especialmente às mulheres. 
“Advantageous” é silencioso e incrível ao passar amplamente pontos tão significativos. Ao encarar esse futuro que o filme nos oferece vemos como num espelho nossa atualidade. Tudo que merece valor é subjugado. A pobreza é invisível enquanto os meios de comunicação exaltam padrões criando assim infelicidade e insatisfação. A sociedade acaba doente e o mundo se torna trágico. É um filme independente muito bem realizado que suscita discussões importantes. 

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