sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Riviera Não é Aqui (Bienvenue Chez les Ch'tis)

"A Riviera Não é Aqui" (2008) é uma das comédias francesas mais aclamadas, e não é à toa já que o tom usado é deveras muito engraçado. Só que a graça do filme deve ser ainda maior para quem é francês. "Bienvenue Chez les Ch'tis" título original faz referência ao sotaque da população que vive mais ao norte da França, eis a palavra abreviada Ch'tis do título. O sotaque é recheado de chiados e gírias, praticamente um novo idioma para os franceses que habitam o sul. Uma boa dica é assistir o filme dublado, assim podemos dar muitas risadas, pois não faz sentido a nós o original, já que não conhecemos a região e suas esquisitices. Não sou muito fã de filme dublado, prefiro legendado, mas dou crédito aos dubladores, é uma profissão não muito reconhecida e os filmes de comédia tendem a ser bons. E este é um deles.
A história é a seguinte: o diretor de uma agência de correios em Salon-de-Provence (no sul da França), Philippe Abrams (Kad Merad), sonha em ser transferido para a bela Riviera Francesa, para agradar a sua esposa, Julie, de natureza depressiva. Para vencer os concorrentes que também almejam a transferência, o personagem articula uma fraude que resulta em consequências desastrosas. A punição do funcionário fraudulento é ser transferido para Bergues, uma pequena cidade no norte do país. Para o casal, essa nova realidade é um pesadelo, pela iminência de partir em direção a uma região fria e encontrar uma população de hábitos e linguajar completamente diferentes dos seus.
Já na chegada as confusões começam, na primeira noite na casa do carteiro Antoine Bailleul (Danny Boom, também diretor), responsável por aguardar Philippe na cidade, o constrangimento diante os hábitos alimentares a que tem que se submeter para se socializar, e sobretudo, a graça com o peculiar dialeto chamado "Ch'ti". Mas com o tempo o vilarejo se torna agradável aos seus olhos antes preconceituosos. O sentimento de outrora que não deixava ele ficar, agora não permite que ele parta. Assim ele vai ter que resolver um grave problema, pois a sua mulher pensa que ele está odiando o lugar, mas a verdade é que está amando a solicitude do povo. Na sua cabeça o lugar era o pior do mundo, frio de congelar a alma, comidas estranhas, idioma ininteligível. E agora como dizer a mulher o contrário? E o pior, ele não quer mais ir embora.

O choque cultural é algo que sempre dá certo dentro do cinema, mesmo que esse seja de regiões tornou-se um grande elemento para o sucesso. O tom de comédia ajuda e nos faz simpatizar com os habitantes que eram vítimas de preconceito por parte dos franceses, digamos da "cidade grande", onde se evidencia apenas o status social. Mas quando nosso protagonista se vê diante de pessoas simples, que se importam umas com as outras, e que o desejo de vida é outra, isso acaba mexendo com ele, a pensar no que realmente importa. Barreiras são ultrapassadas, e o que é um sotaque em meio a tanto carinho e amor?
As interpretações são exageradas e caricatas, chegando ao histérico, mas logo os ânimos se acalmam. As piadas são ótimas, principalmente as que vem com o sotaque, imagino o quão engraçado é para os franceses. E deve ser por isso o motivo do sucesso estrondoso na época (2008), uma das maiores bilheterias no país.

É uma boa opção de comédia fora dos padrões. Junta-se o útil ao agradável se ainda por cima amar o cinema francês, somos brindados com ótimas paisagens, e um retrato pouco conhecido, já que os franceses sempre são tão elegantes e cheios de charme. Aqui eles são estridentes e bem maluquinhos.
Como já dito, assistir o filme dublado não faz mal, pois o sotaque ganha um ótimo tom, por exemplo, o S acaba ganhando som de X, foras as gírias engraçadíssimas, "hã, biloute?!"
"A Riviera Não é Aqui" é uma sátira muito divertida que mostra o quanto somos preconceituosos, julgando-se melhor por morar num lugar que dizem ser superior que o outro. Grande engano!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão (San Qiang Pai An Jing Qi)

Remake é coisa de americano, quando falta criatividade lá vão eles copiar filmes asiáticos, latinos e europeus, mas dessa vez quem se rendeu a uma refilmagem foi a China com o diretor Zhang Yimou, conhecido por filmes épicos de grande beleza. Já de primeira vista o que chama a atenção é o título "Uma Arma, uma Mulher e uma Loja de Macarrão" que nada se assemelha ao original, "Gosto de Sangue", primeiro longa dos cultuados irmãos Coen.
Na história o velho Sr. Wang é o proprietário de uma loja de macarrão no árido deserto da província de Gansu, na China. Sua esposa, que mantém um caso com Li, empregado tímido e amedrontado da loja compra uma arma de um mercador persa com o intuito de matar o tirano marido. Mas Wang é um homem perspicaz e ao saber da traição da esposa com seu funcionário faz um trato com o chefe de polícia Zhang, para que este elimine o casal de adúlteros, porém Zhang tem seus próprios planos. Planejando arrombar o cofre de Wang localizado no gabinete deste, Zhang volta noite após noite com novas maneiras de abrir o cadeado que tranca o cofre. Enquanto isso outros dois funcionários do restaurante tem a mesma ideia. A esposa de Wang e seu amante atrapalhado Li, na verdade, não foram mortos pelo chefe de polícia e retornam ao estabelecimento. A partir daí a confusão está armada, com cada personagem tirando suas próprias conclusões sobre o que aconteceu com os outros personagens da história. O resultado disso tudo é muito engraçado, o uso das cores fortes contrasta com o cenário do deserto. Todas as cenas do original estão lá, porém com uma dose extra de ironia e humor.
O início do filme é sensacional e já dá a prévia do que está por vir, o teor sombrio de "Gosto de Sangue" se desfaz ante as cenas hilárias, mas sem deixar de serem trágicas ao mesmo nível. No começo no restaurante, a mulher recebe a visita de um excêntrico persa que está de passagem para vender alguns objetos. Se trata de uma arma de fogo, artefato ainda inédito para a China desse tempo remoto. Os demais funcionários da loja, incluindo o amante da protagonista ficam pasmos diante a eficiência daquela arma que provoca morte tão rápida, e não imaginam que aquele instrumento vai guiar todo o curso da trama em uma série de engraçadas reviravoltas. As interpretações nos lembram histórias em quadrinhos, todos os personagens são exagerados e coloridos demais. O que torna tudo tão abstrato. A cena mais impressionante e que fica gravada na memória é a da preparação da massa do macarrão. A habilidade com que jogam a massa para lá e para cá acaba por se tornar uma espécie de dança em frente aos nossos olhos.

"Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão" é bizarro, mas nos mostra que a mesma história pode ser contada de várias maneiras, mesmo que não se altere nada nela. Zhang Yimou nos coloca diante a um filme muito original. O cenário no meio do nada torna tudo muito interessante, os personagens esquisitos e abobalhados dão o tom perfeito. Para quem já viu "Gosto de Sangue" aqui não vai encontrar o clima sombrio e a tensão tão marcada.
O filme só confirma a magnanimidade do diretor que sempre nos presenteia com visuais deslumbrantes e originalidade em suas histórias.

Só para lembrar alguns dos filmes de Zhang Yimou "Herói" (2002), "O Clã das Adagas Voadoras" (2004), "A Maldição da Flor Dourada" (2006), "Flores do Oriente" (2011). Com o longa "Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão" (2009), só reafirma seu estilo de uma estética sempre apurada retratando a sociedade chinesa. A versão espadachim foi super elogiada e bem aceita, inclusive pelos irmãos Coen, donos da história original.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Pura (Till Det Som Är Vackert)

"Pura" (2009) é um filme sueco recheado de críticas a uma sociedade alienada que vive assistindo programas inúteis de TV, e retrata uma classe intelectual que certamente despreza aqueles que não nasceram no meio cultural. Há muitas citações filosóficas e o filme todo é envolvido pela música clássica. A protagonista Katarina se depara ao acaso com Mozart no Youtube e desde então não consegue ouvir outra coisa, sua vida muda, suas visões, é como se um mar de possibilidades surgissem ali bem na sua frente. A cultura é o meio para a mudança, Katarina podia ser considerada uma menina que vivia sem expectativas, seu namorado não pensava em outra coisa a não ser sentar no sofá e assistir TV, e sua mãe uma alcoólatra, realmente sua vida não era nada agradável. Essa realidade começou a atormentá-la desde que se deparou com a música clássica e a nutrir uma certa obsessão em frequentar a Sala de Concertos. Tanto que conseguiu um emprego lá, Katarina descobre no maestro Adam uma oportunidade de ingressar neste universo, algo que jamais tinha imaginado para si. No entanto, toda a sedução de suas novas vivências também lhe traz uma série de dificuldades.
É um drama pouco conhecido fora da Suécia. Por lá foi laureado em importantes festivais e alavancou a carreira da atriz Alicia Vikander, intérprete de Katarina, que despontou para o mundo e ganhou Hollywood. Impressionante e maduro, o longa de estreia de Lisa Langseth é baseado em uma peça de sua autoria, encenada em 2004 no Teatro Real Dramático de Estocolmo, que tinha como protagonista Noomi Rapace - que ganhou notoriedade com o papel de Lisbeth Salander em "Os Homens que não Amavam as Mulheres".
O maestro Adam percebe que Katarina tem apreço pela música, sua fascinação é muito evidente, e ele começa a se interessar por ela, mas apenas sexualmente. Ele a envolve no meio da cultura, lhe ensina as artimanhas da música, cita Kierkegaard, o poeta Gunnar Ekelöf e explica sobre o maestro austríaco Herbert Von Karajan, empresta livros e sempre repete que "a coragem é a única medida da vida". A jovem de 20 anos retribui ao se entregar para Adam de corpo e alma sem medo algum. Ele é casado e com um filho pequeno, na certa ela devia estar muito encantada para não perceber que era apenas uma aventura diante ao seu deslumbramento. Quando ele enjoa, Katarina entra em pânico por conta do desprezo. Completamente perdida, com a mãe no hospital e já sem namorado, pois ele descobriu sua traição, não tem nem mais emprego, o maestro fez a despedirem do local que ela mais amava estar. Katarina quando confrontada sempre reagia de forma agressiva, e essa atitude é crucial em determinada parte do filme.

Os atores são fascinantes. Samuel Fröler representa o típico intelectual que despreza aquele que não nasceu no meio e quer conhecer a cultura, em dado momento ele diz a Katarina: "Se não consegue lidar com sua realidade, não se meta com a filosofia". Ainda a humilha dizendo que ela faz parte da grande maioria que não pensa. Há uma crítica sobre a música moderna dizendo que expressa nada além de sexo, como a de Snoop Dogg, citado como um show de strip-tease. A estreante Alicia Vikander entende perfeitamente a complexidade de sua personagem, ela passa pela revolta, doçura, amargura e entendimento.
Se desejar algo é preciso algum esforço, e por mais que o filme seja um retrato triste de uma pessoa sem oportunidades, quando ela descobre algo de que gosta muito, lá no seu íntimo, não vê impedimentos, não vê obstáculos, simplesmente vai lá e busca, mas para alcançar é preciso cair algumas vezes, pois nada é dado de graça, é necessário luta, para aquele que vem do nada e se envereda por um caminho regado a arte e a cultura é mais complicado, é preciso provar seu valor e sua determinação.
Esse filme me lembra a importância de inserir a cultura desde cedo, ensinar a ler, a escutar música de qualidade, aprender a tocar algum instrumento, aprender a gostar de teatro, cinema, filosofia, enfim... Abre nossos horizontes, nossas percepções e nos dá a capacidade de sentir diversas emoções. Katarina percebeu isso quando se deparou com Mozart no Youtube e sentiu algo diferente do que estava acostumada.

O filme lida com algumas questões éticas, mas também nos mostra que para gostar de algo dito erudito, não necessariamente precisa-se ser do meio. Gosto quando passam o que sabem pra frente ao invés de guardar para si, e apenas ser taxado de intelectual e parecer melhor que os outros. Conhecimento é para ser compartilhado.
"Pura" serve para questionar a nossa realidade e o que ela traz de bom a nós, e reflete muito bem a máxima, que a coragem é realmente a única que nos leva adiante, e sobretudo, ousar, como citado: "Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se." (Kierkegaard)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Pecados Íntimos (Little Children)

Todos têm seus pequenos segredos, mas quando estes são expostos podem acarretar grandes desastres, para nós mesmos e para os outros que nunca imaginavam que o guardávamos. Um dos mais comuns é a infelicidade no casamento, depois de muito tempo juntos, parece inevitável o desgaste, mas a maioria das pessoas optam por continuar, sem ao menos tocar no assunto, olham-se nos olhos e escondem seus verdadeiros anseios e sentimentos. E quando surge a possibilidade de traição, parece normal, uma forma de descontar toda a angústia numa paixão, numa relação sexual ardente e por aí vai. Talvez as pessoas apenas poderiam conversar e chegar num acordo e decidir qual o melhor para cada um, só que o ser humano é egoísta e sempre espera do outro, e assim afim de se satisfazer começa uma teia de mentiras que só tende a crescer. "Pecados Íntimos", título nacional muito bem colocado, trata disso, desses deslizes, retrata seres humanos infantilizados tomando atitudes de crianças diante a vida, colocando apenas seu ego a frente de qualquer coisa. Sabe a criança que faz birra para ter um brinquedo, um doce desejado? As atitudes dos adultos deste longa se assemelham a isso, e engraçado que as crianças do filme é o oposto. Ou seja, quem são as crianças na verdade?
A história tem lugar num pacato subúrbio dos Estados Unidos, somos apresentados, por meio de um narrador a vida de Sarah (Kate Winslet) e da sua filha Lucy, aos dramas de Brad (Patrick Wilson) e do seu filho Aaron. Olhamos pelas janelas, silenciosamente, e deparamo-nos com problemas conjugais, com pequenos conflitos, com banalidades do quotidiano. A comunidade está assustada com a recente libertação de Ronnie (Jackie Earle Haley), um adolescente na pele de um adulto, acusado de pedofilia. Mesmo proibido de se aproximar das crianças em locais públicos, os pais não concordam em ter ao lado um ser que representa uma ameaça real aos seus filhos. Um ponto do filme que acerta em cheio, o pedófilo é uma pessoa que tem um distúrbio sexual, talvez pelo modo que foi criado pela mãe, feito uma criança, julga-se criança também, suas atitudes demonstram isso, sempre infantilizadas. Mas quando sua vida muda fica evidenciado o quão humano ele é, com sofrimento e dor como qualquer outra pessoa que julgamos "normal".
No início simpatizamos com o casal formado ao acaso. Sarah e Brad, alegres, bonitos e cheios de paixão. Brad é um garotão que mente a sua mulher que vai estudar na biblioteca, mas na verdade apenas fica olhando os jovens andarem de skate. Sustentado pela esposa, não dá a mínima para isso, olha com maior prazer seu filho Aaron, cujo leva todos os dias na área de lazer da comunidade, onde é conhecido por "o rei da formatura" pelas outras mulheres que se desmancham diante a sua beleza. Mas é Sarah que é julgada nem tão bonita e nem tão interessante pelo próprio Brad, que consegue se aproximar, e esse é o começo para um pecado que será compartilhado. O marido de Sarah é obcecado por pornografia na internet, quando o pega no flagra é o pontapé inicial para não sentir remorso ao ficar com Brad. Eles usam os filhos para se encontrarem, seja no parque ou na piscina, e as coisas vão ficando cada vez mais íntimas. As cenas de sexo são intensas, retrata uma tórrida paixão. Mas o ingrediente principal faltou ali, a maturidade para vivenciar algo que estava sendo interpretado como amor.

O filme aborda o quotidiano da vida da classe média alta que vive de aparências, que para os outros parece perfeito, a eles próprios é o inferno. Sarah e Brad decidem fugir, mesmo que pareça loucura, pois os dois não têm estabilidade financeira nenhuma sozinhos, Sarah leva a filha Lucy até o parque onde combinaram e espera por Brad, este que arruma as malas, dá um beijo no filho e sai às escondidas. Só que no meio do caminho encontra com os skatistas dos quais sempre olhara, e de repente se vê envolvido e decide se aventurar lá, simplesmente esquece o prometido. Sarah impaciente se depara com o pedófilo no parque chorando muito e condoída vai até lá perguntar o que se passa. Sentimos pena daquele ser tão fragilizado, talvez seja a única pessoa da qual tenhamos tal sentimento. Jackie Earle Haley faz de seu personagem uma grande incógnita, um monstro e uma criança ao mesmo tempo. Podemos ter várias visões dos personagens, a trama paralela do pedófilo é perfeitamente costurada as outras, e ainda há o narrador em off que dá um tom cínico que cabe à história.

Em uma cena Sarah comenta sobre o livro Madame Bovary, de Flaubert. Para ela, as ações adúlteras da protagonista, até então vistas como reprováveis, são agora, entendidas como reações naturais de uma mulher insatisfeita com os rumos de sua vida. Presa a um casamento infeliz, Emma Bovary tinha o pleno direito de encontrar a alegria e realização pessoal por outros meios, ainda que isso significasse a traição ao seu companheiro.
Retratando nada mais que a realidade, "Pecados Íntimos" chega a causar um certo desconforto a quem o assiste, principalmente pelo seu final. Somos irresponsáveis, egocêntricos na maior parte do tempo, agimos como se não fôssemos afetar o outro. Mas o pior de tudo são esses pequenos "pecados" que cometemos diariamente, sem se preocupar com as consequências. Quando se deixa os sonhos juvenis para trás, ou se quando criança faltou algo, isso será levado para a vida adulta, e mesmo que essa pareça confortável, a inquietude interna estará presente, e na menor possibilidade de mudança nos jogamos de cabeça sem pensar o que poderá acarretar. Além disso há o fator dos pais que superprotegem os filhos, que pensam estar fazendo o bem, mas quando adulto será incapaz de realizar qualquer coisa. E é desses assuntos que "Pecados Íntimos" trata. O filme é uma adaptação do livro "Little Children", de Tom Perrotta, editado no Brasil com o título de "Criancinhas".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Skrítek

"Skrítek" (2005) é um filme tragicômico tcheco bem peculiar e muito curioso, de início pensei ser uma loucura psicodélica por mostrar a figura de um duende peludo, com olhos que giram nas órbitas e que carrega uma espécie de pedra roxa super iluminada. Mas para meu espanto o filme é totalmente crítico e inteligente. Considerado humor pastelão, ele não abre mão de expressões exageradas, das quais fazem todo sentido no longa, já que não há diálogos, mas sim apenas interjeições e grunhidos.
Retratando o cotidiano de uma família, o tema é universal, portanto não há problemas em compreendê-lo. Realmente a parte em que o duende aparece é nonsense, no começo parece ser uma alucinação da garotinha, mas conforme o desenrolar os outros personagens começam a vê-lo também, outra coisa interessante é a fotografia que por vezes a cor verde predomina em cima das outras tornando tudo muito alucinógeno.
A história é basicamente esta: Uma família recém chegada a cidade, o pai trabalha em um frigorífico, a mãe em um supermercado, a filha menor odeia estudar, o filho mais velho é um skatista, maconheiro, rebelde e está naquela fase em que nada parece ser o suficiente, ele estuda numa escola técnica para trabalhar no frigorífico. O pai cansado da rotina em sua casa aproxima-se de uma colega de trabalho, a loira lhe dá abertura e acontece a infidelidade, entre cenas cômicas a esposa descobre a traição e decide se cuidar mais, vai ao salão de beleza, mas termina comprando uma peruca, usa lingerie sexy e espera seu marido na cama, mas este não aparece. Enquanto isso o filho que é vegetariano apronta na cidade, se enche de piercings e corre atrás de uma garota que não tá nem aí pra ele, sua irmã não faz a lição e só pensa no duende.
A crítica envolvendo a mesmice no trabalho, a coisa mecânica do dia a dia se reflete na personagem da mãe no supermercado, que sorri sem ter vontade e passa produtos sem tê-los de fato. Há também a crítica sobre a carne, o sofrimento dos animais, as cenas no frigorífico expressam isso com imagens de porcos abertos, aves gigantescas, carnes sendo destroçadas, enfim, vemos apenas a carne bonitinha embalada no mercado, mas não pensamos no processo que ocorre antes disso.
Por vezes o filme traz a ideia do porque é que o ser humano mata os animais para comê-los, pois o que nos difere deles? No filme como não há diálogos, exemplifica que também somos animais, desesperados na maior parte do tempo, no emprego, na família, pronto para sermos abatidos. O que nos faz ser "superiores" é exatamente ter a possibilidade de dialogar, pensar, mas geralmente as pessoas não utilizam de maneira correta. A família do filme é padrão, em todo lugar do mundo existe, mas o que vem para dar um tom estranho é a figura do duende, que de fato não sabemos se é apenas imaginação, ou se é realidade mesmo.

Os filmes tchecos dificilmente chegam até nós, não são distribuídos no país, a não ser em festivais de cinema, e olha lá. Então assistir "Skrítek" é um presente, um achado maravilhoso em termos de linguagem cinematográfica. O filme foi dirigido por Tomás Vorel, que também faz o personagem do filho na história.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Whisky

"Whisky" (2004) nos faz lembrar que é preciso olhar com mais carinho para o cinema latino, sabemos que a Argentina tem se destacado com muito vigor e inteligência abrangendo um grande público, o Chile também tem nos presenteado com maravilhas, assim como Colômbia, Peru e Uruguai, que apesar de produzir pouco sabe fazer cinema de qualidade, simples mas eficaz.
"Whisky" é um filme monótono, repetitivo, de sorriso amarelo igual aos dos retratos que colocamos em cima dos móveis, para que quem os veja perceba que ali moram pessoas "felizes". Os personagens são pessoas comuns completamente vazias por circunstâncias da vida e de qualquer forma não querem mudar sua rotina, preferem continuar numa repetição diária e sem graça. Dirigido pela dupla Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella (este suicidou-se em 2006), é um filme que fala sobre solidão com boas doses de um bom humor amargo.
Em Montevidéu vive Jacobo (Andres Pazos), um homem de 60 anos que vive sozinho desde a morte de sua mãe. Desde então sua única alegria na vida é a pequena fábrica de meias que possui. Marta (Mirella Pascual) é uma mulher de 48 anos que é o braço direito de Jacobo na fábrica, onde trabalha como supervisora. Marta e Jacobo possuem uma espécie de dependência mútua, apesar dos assuntos entre eles sempre ficarem em torno do trabalho. Até que um dia Herman (Jorge Bolani), o irmão de Jacobo, avisa que irá a Montevidéu para participar da matzeiva, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman não vai a Montevidéu há mais de 20 anos, tendo faltado até mesmo no funeral de sua mãe, sendo que também tem uma pequena fábrica de meias, localizada no Brasil.
A visita de Herman desperta em Jacobo a velha competição existente entre os irmãos, desse modo ele faz uma proposta a Marta: que ela seja sua esposa durante a visita de Herman. Marta aceita a proposta. Ela passa então a morar no apartamento de Jacobo, onde ambos passam a se dedicar em enganar Herman durante sua estadia. Marta trabalha para Jacobo na fábrica de meias, de certo modo ele depende dela para que as coisas sigam seu rumo diário, depois da notícia da vinda do irmão de Jacobo, este resolve fazer a proposta para que ela fique em sua casa por uns dias, ela muito prestativa aceita, talvez por realmente gostar do patrão, ou simplesmente porque não tem mais nada na vida para se ocupar. Com a chegada de Herman ela se transforma, vemos em seus olhos um fio de esperança, no passeio que os três fazem a um hotel percebemos o quanto de vida há naquela mulher. Jacobo por sua vez não dá o braço a torcer, seus olhares de soslaio para Marta indicam que ele se importa, mas não é capaz de mudar o que há tanto tempo se solidificou.

Herman é o típico judeu que pensa em trabalhar, trabalhar e ganhar dinheiro, é mais alegre que o irmão, construiu uma família de verdade, expandiu os negócios, mas ao final descobrimos que não é tão feliz, pois não consegue aproveitar os benefícios de suas longas horas de trabalho. Quando Herman vai embora, Jacobo volta para sua rotina, Marta arruma suas coisas e vai embora com um grande vazio e desesperança, um choro amargo a invade, como se a vida fosse um fardo. O filme fala pelas entrelinhas, mas sabemos exatamente o desfecho de cada um deles.
"Whisky" conquistou vários prêmios internacionais, entre os quais se destaca o prêmio da crítica da mostra "Um Certo Olhar" do Festival de Cannes de 2004. Neste mesmo ano, o filme foi uma das sensações do Festival de Gramado, ganhando os kikitos de melhor filme latino, melhor atriz (Mirella Pascual) e prêmio do júri popular.
"Whisky" é a palavra que um dos personagens do filme, um fotógrafo, pede para as pessoas dizerem, para que se apresentem sorrindo nas fotos, ou seja, uma falsa ilusão.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Harvey

"Harvey" é um curta perturbador e a princípio a sensação causada é a de agonia. Para as pessoas mais sensíveis não aconselho, são imagens estranhas que podem gerar bastante desconforto. A história é sobre um homem, que fica obcecado pela sua "outra metade", incompleto e infeliz vê na vizinha do lado a chance de se ver por inteiro.
Todos nós queremos encontrar alguém que nos complete, que nos preencha em algo que falte, talvez essa seja a maior busca do ser humano, encontrar seu amor, aquele que encaixe perfeitamente. Em "Harvey" isso é demonstrado de forma literal e quase absurda.
A satisfação pessoal cada vez mais está difícil de ser alcançada, e isso acaba gerando solidão e um grande vazio, quem não se integra na sociedade sente o peso de viver só. Por isso a busca de alguém que nos compreenda é infinita, pois ninguém vai ser o suficiente a nós diante ao mundo que vivemos, isso se reflete nas propagandas: seja rico, tenha um corpo perfeito e consiga um milhão de amigos, um exemplo é o Facebook, muitos visualizam coisas que desejam a si próprios, aí vem sentimentos como inveja, depressão, revolta, ilusão, solidão, e esse é apenas um exemplo. Pode ser também no trabalho, com os amigos, na própria casa, se sentir inapto para certas coisas que outros conseguem, e quando você idealiza um alguém e sem querer se depara com ele, automaticamente sente como se fosse a cara metade desta pessoa.

"Harvey" dirigido pelo australiano Peter MacDonald retrata um personagem que sente exatamente este vazio, e fica obcecado pela vizinha a fim de que ela se torne a sua outra metade, só que no curta perturbadoramente isso é levado ao pé da letra. É desconfortante, mas mostra exatamente como ficamos quando nos sentimos incompletos, realmente falta um pedaço.
Em estilo P&B, o clima criado é sufocante e desesperador. O curta é extremo, a mensagem é direta e faz com que pensemos em nossos sentimentos egoístas, que para não olhar para nós mesmos, se idealiza no outro na esperança que este nos salve de alguma forma.