terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lavoura Arcaica

"...e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."

"Lavoura Arcaica" (2001) dirigido por Luiz Fernando Carvalho (Capitu - 2008) é uma adaptação fiel do livro homônimo de Raduan Nassar, uma obra sensível e imensamente poética, uma joia da literatura nacional. Tudo foi transposto com beleza, cada dilema e cada complexidade, textos integrais são ditos pelos atores que se expressaram com total dedicação. É um exemplar maravilhoso e um dos grandes filmes do cinema nacional, foi concebido com delicadeza e nos delicia durante o tempo que nos toma, também é uma experiência transformadora que coloca em evidência as escolhas, a vida em família, a liberdade, a religiosidade, o amor, o tempo, entre tantos outros temas caros à nossa existência. 
"Lavoura Arcaica" narra em primeira pessoa a história de André (Selton Mello), que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.
Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família e a terra, fiado na doutrina cristã. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana (Simone Spoladore), e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo. Ambientado na década de 40, numa comunidade rural formada por imigrantes libaneses, a família de André é comandada com rigidez pela figura do pai (Raul Cortez), que preza pelos valores cristãos, os filhos cumprem uma rotina dominada pelo tédio e pelo trabalho, André se rebela e decide ir embora de lá, principalmente, por estar apaixonado pela sua irmã, Ana. Esta foi a forma que encontrou para expor seu desejo de liberdade. Tomado de angústia ele vai viver sozinho longe de tudo numa pensão suja, sem a abundância que tinha em casa, a sua fuga afeta todos os membros da família, especialmente, Ana. A mãe inconsolável, pede para o filho mais velho, Pedro, que o traga de volta. O encontro dos dois é regado a diálogos intensos e junto a devaneios imergimos no passado de André.
Cheio de poesia visual, "Lavoura Arcaica" causa incômodo, o personagem André é dominado pela angústia e ele a todo instante parece querer expelir isso de si, são cenas que causam desconforto, mas não simplesmente pelas situações retratadas, como a primeira cena em que ele se masturba ferozmente caído no chão, mas pela significância que elas têm para o protagonista. A direção de fotografia, assinada por Walter Carvalho é um primor e ela é fundamental para passar os mais variados sentimentos, tem uma textura seca e suja. A trilha sonora com influências de música árabe é um complemento belíssimo, som e imagem se integram perfeitamente e intensifica as sensações.

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto." 

O filme aborda temas complexos, como a difícil interação entre pais e filhos, a criação rígida em que a figura do pai é que exerce poder incontestável, minando desejos e anseios dos filhos, um pai que ao mesmo tempo é bom, mas ignora que os filhos tenham suas fraquezas. Nesta família patriarcal, a mãe é somente uma figura que carrega as dores dos males que penetram o seio familiar, ela é a que toma os filhos nos braços, algo que só fortalece esse ciclo sufocante de hipocrisia. 
A religião acentua as regras morais ditadas pelo pai, que cego pelas doutrinas não consegue enxergar o que se passa a seus filhos, isso afasta André que não consegue pedir ajuda ao pai, quando volta para casa ele tenta conversar, inclusive a melhor parte do filme e uma das cenas mais belas, André fala de suas dores, mas seu pai é incapaz de compreender.

"– Por que empurrar o mundo pra frente? Se já tenho minhas mãos atadas, não vou, por iniciativa, atar meus pés também. Por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem. Eu já não vejo diferença. Tanto faz que as coisas andem pra frente ou que elas andem pra trás.
– Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
– Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro. Da mesma forma, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto. Maior despropósito que isso, só mesmo a vileza do aleijão, que na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica mais feio o feio que consente o belo… 
– Mais pobre o pobre que aplaude o rico; menor o pequeno que aplaude o grande; mais baixo o baixo que aplaude o alto. E assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam. Acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros. A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira.
– É muito estranho o que eu estou ouvindo.
– Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo. Erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente."

As interpretações são sublimes, Selton Mello se entrega vorazmente a seu personagem, se revolta contra à ditadura do pai e se enovela cada vez mais em seus desejos, ele grita, se contorce, se infiltra na natureza, seus pés se esfregando junto à terra é uma constante. Raul Cortez, o pai, dá valor ao tempo e tem a paciência como a maior qualidade, seus sermões antes do jantar exprimem a lei do cabresto, ele é soberano em cena, quando André o contesta não sabe como proceder, a não ser com mais repressão. Simone Spoladore como Ana não diz uma palavra durante todo o filme, mas expressa pelo seu corpo a paixão pela vida, esta que acende em André o desejo pela liberdade. Essa rebeldia de André toma conta de seu irmão caçula, Lula (Caio Blat), que também deseja sair daquela célula familiar e descobrir o mundo. Leonardo Medeiros como Pedro, o irmão mais velho e que vai em busca de André, passa para frente os mesmos valores que o pai ensinou, mas vendo e ouvindo o irmão que está perdido e acometido por delírios e pela epilepsia, se amargura diante a situação. 

É um retrato pertinente da dura relação entre pai e filho, da distância das gerações que causa a falta de diálogos, e o como o conservadorismo religioso danifica ainda mais, pois o amor é distorcido, cria-se regras e castra-se a liberdade do querer e do pensar. O argumento da tradição serve para oprimir e cometer injustiças, as mulheres da casa que o digam, quando o pai é contestado, simplesmente diz-se que é tradição.
"Lavoura Arcaica" é um filme denso, indigesto, lírico, também longo e enfadonho, mas de um valor imensurável para quem aprecia obras poéticas, mergulhar em sua narrativa é uma experiência única de reflexão. A sensação causada não passa após seu término, ao contrário, ela cresce dentro de nós à medida que pensamos nas questões abordadas.

"O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória."

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