segunda-feira, 1 de junho de 2015

Stella

"Stella" (2008) de Sylvie Verheyde (Confissões de um Jovem Apaixonado - 2011) traz uma história dolorosa, mas esperançosa sobre a pré-adolescência.
Stella é uma garota argentina de 11 anos de idade que acaba de iniciar um novo curso numa escola de Paris. Mas sua vida, mesmo, transcorre dentro de um bar cujos pais exilados são donos. Um refúgio para a classe trabalhadora, que cai na bebida, faz apostas, fala de futebol e outras amenidades até o dia amanhecer. Para Stella, a escola é complicada. Mais do que os estudos, o que ela não suporta são as humilhações dos professores e amigos por causa de sua origem. É assim que começam a despertar na garota instintos mais violentos. Mas graças a sua única amiga, também filha de intelectuais argentinos exilados, Stella vai vislumbrar um mundo que não conhece: desde o primeiro amor até os perigos que cercam uma menina prestes a se tornar mulher.
Stella (Léora Barbara) nada mais é que o alter ego da diretora Sylvie Verheyde, a história se passa no final dos anos 70 e mais do que um filme sobre ritos de passagem é uma obra de personalidade e completamente passional. Stella é transferida para um novo colégio, onde irá cursar o 5º ano, a adaptação não é fácil, pois todos ao olhar da menina são esnobes e vazios, a escola e as matérias não fazem sentido pra ela que carrega em si uma bagagem de vida apesar de sua pouca idade. Seus pais são donos de um bar, cujos frequentadores são em sua maioria decadentes, bêbados e desempregados, este é o local em que ela fica interagindo e observando tudo o que acontece, desde as atitudes de seus pais irresponsáveis, até a convivência com pessoas das mais variadas, incluindo Alain (Guillaume Depardieu), por quem a garota cai de amores. Visto assim parece que seu futuro já está traçado, talvez, o mesmo de sua mãe. Porém, existem diversas possibilidades na vida e a de Stella é a sua amiga Gladys (Mélissa Rodriguès), uma menina rica que apresenta o universo da leitura, e do qual Stella se encanta. A cena em que Stella mente conhecer Cocteau para não se sentir envergonhada é o momento em que ela desperta, o que a leva a correr para um sebo e começar a se enveredar pelas maravilhas que um livro pode trazer.
A atuação de Léora é impressionante, diferente dos demais se entedia diante do universo escolar e se exclui, mas não deixa de estar aberta para novas descobertas. O modo com que Stella e Gladys vão se tornando amigas, e o fato de Gladys não se importar com a gritante diferença entre elas faz tudo se tornar mais simples e apaixonante.
A importância do incentivo sincero e a educação é o único meio de nos tornarmos pessoas melhores. 

O filme conta com uma narração em off da protagonista, suas observações acerca do mundo e dela mesma são interessantes e irônicas, mas não deixam de ser puras. Em dado momento ela diz: "Sei tudo sobre futebol: quais os melhores times e jogadores; sei fazer coquetéis e jogar fliperama; sei as regras do bilhar e sei jogar cartas; sei várias letras de música de cor; sei quem é sincero e quem mente; sei como se faz bebês e como se transa; só que no resto, sou péssima".
É agradável acompanhar o amadurecimento de Stella, o reconhecimento das oportunidades que estão à sua disposição, a sua lucidez perante a vida, e claro, a valorização de sua amizade com Gladys. A forma como lida com os adultos, principalmente com o comportamento dos pais, por exemplo, com a traição da mãe no próprio estabelecimento e o como deseja cuidar de seu pai depois disso. Realmente ela está ultrapassando um momento de extrema fragilidade e Gladys sem dúvidas foi um presente para sua vida.

Stella enxergou suas oportunidades e como todo ser humano com consciência teve gratidão. Seu agradecimento a Gladys no final é emocionante. Sentimos orgulho dela.
"Stella" disserta sobre a transição de criança à adolescência de modo natural, sem julgamentos e esteriótipos. É sincero e otimista na medida certa!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Samba

"Samba" (2014) dos diretores Eric Toledano e Olivier Nakache (Intocáveis - 2011) diz sobre a imigração na França, e apesar do teor dramático é impossível tirar o sorriso do rosto durante o filme todo.
Samba (Omar Sy) é um imigrante do Senegal que vive há 10 anos na França e, desde então, tem se mantido no novo país às custas de empregos pequenos. Alice (Charlotte Gainsbourg), por sua vez, é uma executiva experiente que tem sofrido com estafa devido ao seu trabalho estressante. Enquanto ele faz o possível para conseguir os documentos necessários para arrumar um emprego digno, ela tenta recolocar a saúde e a vida pessoal no trilho, cabendo ao destino determinar se eles estarão juntos nessa busca em comum.
Acompanhamos Samba e a sua rotina, a luta pela dignidade em um país que pouco se importa, a realidade é triste e todos os dias vai em busca de pequenos trabalhos afim de conseguir sobreviver, onde a mudança de nome é algo recorrente. Omar Sy brilha em seu personagem, é extremamente carismático, seus olhos exprimem tanta sensibilidade que nos apaixonamos pela sua história. É um filme que sabe extrair beleza de um tema difícil e o melhor do ser humano, como a vontade, o amor, a alegria, e a coragem.
Charlotte Gainsbourg é Alice, uma mulher que sofreu um stress (burn out) muito grande no trabalho e acabou sendo afastada e tenta se recolocar na sociedade, ela conhece Samba trabalhando como voluntária numa ONG, lá seus mundos distintos se encontram e se gostam. Cada um está quebrado à sua maneira. Em um dado momento Samba diz a ela que tem medo de um dia esquecer quem ele é por causa de tantas mudanças e a necessidade de não demonstrar que é um imigrante, aí Alice diz que é só gritar seu nome, pois todos vão pensar que quer dançar. São esses momentos por exemplo que o filme nos fisga, são recheados de emoção e tanto o choro como o sorriso aparece.
Não é uma situação agradável de ver, os centros de empregos atulhados, todos desesperados pra conseguir um bico que contratam ilegais e pagam salários baixos, os esteriótipos criados, como senegaleses só servem para obras, não para lavar janelas, a perda de identidade, de vida. Em solo europeu são invisíveis, desprezados, mas fazem todo tipo de trabalho pesado que muitos lá não fazem e enquanto isso convém para o governo fingem não ver, até que decidem por algum motivo fazer uma limpeza e devolvê-los.

Outro personagem que se destaca na trama é Wilson (Tahar Rahim), que assume o papel de brasileiro, ele rouba a cena toda vez que surge com o seu jeitinho à la brasileira, sempre com um sorriso no rosto e um "tudo bem". Surpreende em vários momentos ao declarar que os brasileiros são aceitos com mais facilidade, mas o que vemos é uma extrema força de vontade desses imigrantes que preferem ficar num país ilegalmente do que voltar para seus lugares de origem e enfrentarem o triplo de miséria e desemprego.
Vale destacar a trilha sonora que dá mais vida ao filme e para fazer jus ao título contém músicas brasileiras, como "Palco", de Gilberto Gil, e "Take It Easy My Brother Charles", de Jorge Ben Jor, também tem Tom Odell, o reggae de Bob Marley e os acordes melancólicos do pianista e compositor italiano Ludovico Einaudi.

"Samba" é um filme leve, mas não deixa de ser crítico, tem atuações impecáveis, um roteiro despretensioso e traz principalmente à tona o ser humano que não desiste, a sua busca pela dignidade sempre com brilho nos olhos e a esperança que nunca cessa independente dos momentos tristes e desesperadores.
Uma bela obra dessa dupla de diretores que mais uma vez soube extrair sentimentos bons de situações desagradáveis. É um filme pra sorrir e chorar ao mesmo tempo!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Pessoas-Pássaro (Bird People)

"Pessoas-Pássaro" (2014) dirigido por Pascale Ferran (Lady Chatterley - 2006) é um filme que disserta sobre a liberdade e no como este conceito se diferencia de indivíduo para indivíduo. Interessante e diferenciado é preciso embarcar na ideia, principalmente quando envolve a personagem Audrey, que tem a necessidade de experimentar, de entrar e descobrir as pessoas, é a parte mais subjetiva do filme.
A história começa com um prólogo que ganha o espectador de imediato, pessoas indo e vindo dentro do metrô, onde apenas os pensamentos são captados, algo tão rotineiro exposto de um jeito simples, mas que diz muitas coisas. As pessoas se preocupam, olham umas para as outras, escutam música, conversam no celular, todas em seus próprios mundos. Dá pra fazer diversas análises só com esse começo, por exemplo no que diz respeito ao distanciamento entre os seres humanos.
Acompanhamos dois personagens, Gary (Josh Charles), um executivo americano que vai à França a trabalho e submetido a pressões tanto profissionais quanto familiares decide abandonar tudo e mudar radicalmente sua vida, Audrey (Anaïs Demoustier), uma jovem camareira de hotel que vive entre o devaneio e a depressão. Dois seres díspares, cada um sofre à sua maneira, mas ambos sentem-se enclausurados. Gary já não aguenta mais sua vida de viagens e prazos e a sua decisão de mudar inclui deixar sua família, é uma necessidade egocêntrica, mas legítima. A liberdade para Gary é mais concreta, não temos dificuldade em entendê-la, ele é um homem de uma classe social privilegiada que não usufruía e apenas viajava a trabalho, o abandono de tudo é compreensível, inclusive de sua esposa controladora, o término acontece via Skype, uma amostra de que valores e sentimentos são esmagados pela praticidade que nos rodeia e que dá uma sensação ilusória de liberdade. Já Audrey é sufocada pelas horas extras e pelos hóspedes que nunca respondem o seu bom dia, ela anseia por descobrir as pessoas, os seus olhos sempre estão curiosos, a imagem dela entrando nos quartos para limpar e abrindo um pouquinho a janela fica marcado, assim como a vista para o aeroporto e os aviões indo ao encontro das nuvens.
A narrativa é fragmentada e crítica, não há nada nesse filme que seja desperdiçado, é minucioso em seus detalhes, cada gesto e olhar permite que o espectador reflita sobre o meio em que vive e aonde é que sua liberdade se encaixa.
Apesar de conter elementos que não agradem o grande público, como a inserção de algo fantasioso em meio ao drama, não é um cinema totalmente experimental, ele é bastante explicativo até, e o que parece ser surreal é uma grande reflexão sobre nossa existência, a vontade de alçar voos verdadeiros, construir relações com valores reais ao invés de virtuais, respirar não só por uma fresta, e principalmente nos permitir olhar com mais afinco nossas atitudes e para onde a vida está nos levando.

"Pessoas-Pássaro" aborda temas como solidão, insatisfação, a realidade claustrofóbica e sem graça e a liberdade que cada um almeja. É um filme que chega diferente para cada pessoa, mas sem dúvidas uma obra curiosa e excelente ao que se propõe, embarque na atmosfera e fique atento aos detalhes, metáforas e situações corriqueiras, há muitas coisas escondidas e que podem ter diversas interpretações.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Coração Mudo (Stille Hjerte)

"Coração Mudo" (2014) do dinamarquês Billie August (Marie Krøyer - 2012, Trem Noturno para Lisboa - 2013) é um filme que reflete sobre a eutanásia, diversos aspectos são apontados na trama, como a aceitação, o sofrimento e incertezas da família diante a tal fato. Emocionante em vários momentos é preciso assistir sem julgar as atitudes dos personagens, pois não é uma situação fácil.
Três gerações de uma família se encontram na casa da matriarca para um fim de semana. Doente terminal, ela está decidida a acabar com sua vida naquele domingo e, por isso, deseja dar o adeus final a seus entes queridos. Sanne e Heidi, suas filhas, já concordaram em acatar a decisão da mãe de partir antes da doença se agravar, mas a proximidade com o fim faz da decisão algo cada vez mais difícil de lidar. Enquanto o fim de semana progride, antigos conflitos voltam a atormentá-los. Esther (Ghita Norby) sofre de esclerose lateral amiotrófica, Poul (Morten Grunwald), seu marido, que é médico informa sobre o como a doença irá acabar com ela em questão de pouco tempo, não terá mais os movimentos do corpo, perderá a consciência e no fim precisará de ajuda até para respirar. Diante disso, ela toma a difícil decisão do suicídio assistido. Com o consentimento de todos da família farão uma despedida num fim de semana e quando o momento chegar Poul fará que a morte pareça natural, já que a eutanásia é proibida na Dinamarca, aliás poucos países a permitem, dentre eles está a Holanda, Bélgica, Suíça, Alemanha, e alguns estados americanos.
Acompanhamos a chegada de Heidi (Paprika Steen) com o marido Michael (Jens Albinus), e o filho (Oskar Saelan Halskov), Sanne (Danica Curcic), com o namorado Dennis (Pilou Asbæk), além de uma grande amiga (Vigga Bro) da família. Cada um lida à sua maneira, mas respeitam o desejo de Esther, Sanne, a filha mais nova que sofre de depressão é dona de um dos momentos mais tensos e emocionantes do filme, ela se arrepende de não ter convivido muito com a mãe, Heidi é aparentemente mais forte, só que ela acaba descobrindo algo sobre a família que jamais poderia imaginar, vai ligando os pontos, e de repente desaba. As pessoas dentro da casa vão sofrendo um tipo de metamorfose ao longo, quem parecia forte fica frágil e vice-versa.
Algumas cenas chegam a ser bem tocantes, como a do neto explicando para a avó o que é facebook e ela lhe ensinando o como convidar uma menina pra sair, mas é um filme contido, e apesar de tratar de um assunto sensível é bastante frio. Emociona em poucas partes e outras consegue nos fazer rir, como a cena em que todos fumam maconha na sala com Dennis, onde muitas coisas são esclarecidas, esse personagem propõe ao espectador um olhar diferenciado da história.

A fotografia é linda e prima por tomadas fechadas que valorizam pequenos detalhes, os dedos de Esther passando pelos móveis, seus olhos se despedindo do ambiente, e a cena mais bonita que é quando chega o domingo e ela acorda e decide cochilar de novo para ter novamente a sensação de despertar.
Todos iremos morrer, a única diferença é que eu sei o dia exato, fala Esther num momento de apreensão daqueles que ama. Alguns conflitos se dão entre eles, inseguranças, medos, mas sobretudo o que fica é o respeito à dignidade de Esther, dela poder escolher morrer bem.
"Coração Mudo" é um filme que não apela e mostra-nos de maneira sutil o como temos dificuldade em lidar com a finitude da vida, mas quando confrontados por uma doença que tirará tudo de nós sem que algo possa ser revertido, sem dúvidas, a morte é a melhor escolha.

sábado, 23 de maio de 2015

A Pequena Morte (The Little Death)

 
"A Pequena Morte" (2014) dirigido por Josh Lawson é um filme muito bem elaborado e retrata com bom humor as estranhezas da vida sexual de vários casais que moram em Sydney. Pequena Morte é um termo que significa orgasmo, essa é uma ótima definição para traduzir o que acontece nesse instante inexplicável e transcendental. É um filme que exibe fetiches esquisitos e até difíceis de acreditar que existam, mas o ser humano é realmente uma caixinha de surpresas e quando envolve o sexo pode ser ainda mais surpreendente.
O longa dá início quando Maeve (Bojana Novakovic) diz a seu namorado Paul (Josh Lawson) que quer ser estuprada, uma fantasia que o pega desprevenido, mas como é um cara legal e amoroso começa a elaborar meios de que o estupro aconteça como ela deseja, só que isso tudo vai ganhando contornos estranhos e Paul começa a não enxergar limites. A segunda história traz Daniel (Daniel Malcolm) e Evie (Kate Mulvani), que estão passando por um momento complicado no relacionamento e buscam na terapia alguma solução, o terapeuta sugere que eles saiam da rotina e tentem ousar mais na hora do sexo, como por exemplo, interpretar personagens, no começo tudo vai bem, mas no fim das contas nada mais tem a ver com sexo.
Em seguida vem a mais bizarra, Richard (Patrick Brammall) e Rowena (Kate Box) estão tentando ter um filho há muito tempo, em uma consulta à médica lhe pergunta se ela está tendo prazer, pois assim as chances de engravidar aumentam, a questão é que após descobrir uma tara (dracofilia) em que consiste em se excitar ao ver seu marido chorando, ela entra numa teia de mentiras para poder vê-lo triste e assim usufruir da pequena morte

A quarta segue o casal Phil (Alan Dukes) e Maureen (Lisa McCune), que vivem um casamento aos pedaços, ela nem sequer olha para o marido e ele acaba tendo que se satisfazer a seu modo, aproveitando os momentos noturnos enquanto a esposa dorme para poder ficar mais perto e acariciá-la, mas por causa disso sempre dorme no trabalho, o chefe lhe dá um remédio para que ele durma tranquilo, mas sem querer quem o toma é a sua esposa, e então toda noite Phil oferece um chá contendo o tal remédio e completamente desmaiada a curte romanticamente.
E a última e mais interessante é sobre Monica (Erin James), que trabalha sendo a intermediária de ligações de pessoas surdas através do Skype. Em uma noite Sam (T.J. Power), um solitário, pede para que ela faça uma ligação para o telessexo e que traduza a conversa, mas o que de início parecia estranho vai se transformando num agradável momento, esta é a história mais singela. Também há um personagem que passeia pela trama, recém-saído da cadeia por abuso sexual ele tenta conquistar esses casais através de um doce que os remete à infância.
Apesar de toda a ironia que faz com que a abordagem seja engraçada, não deixa de discutir seriamente sobre o sexo e o quanto ele significa e varia de casal pra casal, além de expor o quão único e individual é a sensação de se ter um orgasmo.

É preciso salientar que este é um trabalho como poucos, pois saber dosar a comédia e o drama com o tema sexo é algo que não vemos muito por aí. De forma inteligente e irônica retrata que quando o fetiche se torna o único meio para se ter prazer há alguma coisa errada, na verdade já não importa o parceiro, mas sim apenas a realização do fetiche, o caso de Daniel é bem explícito neste ponto.
As histórias vão se entrecruzando ao longo e o desfecho se dá de forma inesperada, uma boa sacada e que foge de todas as nossas especulações em torno de alguns personagens. Vale destacar a trilha sonora que conta com "Mr. Sandman", de The Chordettes, "Beautiful Dreamer", de Roy Orbison, "Nagasaki", de Mills Brothers, "The Air That I Breathe", de The Hollies, etc...
"A Pequena Morte" é um filme diferenciado e que garante boas risadas e uma reflexão sobre as estranhezas sexuais que existem e o como elas podem colaborar ou destruir relacionamentos.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

3 Idiotas (3 Idiots)

"3 Idiotas" (2009) dirigido por Rajkumar Hirani está entre os melhores filmes indianos sem dúvidas. Como é de se esperar de uma produção Bollywoodiana a duração tem quase 3 horas e a mistura de gêneros se faz presente, há boas doses de comédia, drama, e claro as partes musicais que se encaixam perfeitamente e que são impossíveis de tirar da cabeça. O roteiro é elaborado e não deixa nada sobrando e olha que a história dá muitas voltas, também não deixa a desejar quanto à crítica sobre a competição entre os seres humanos e às instituições de ensino e seus métodos.
Aamir Khan é a grande estrela, e mais uma vez nos dá o prazer de ver um personagem construtivo. No recente "PK" (2014), ele reflete sobre as mais diversas religiões de maneira ampla e pura. Em "3 Idiotas", Farhan (R. Madhavan) e Raju (Sharman Joshi), embarcam numa jornada em busca de seu amigo desaparecido, Rancho (Aamir Khan). Durante a viagem, eles se deparam com uma antiga aposta, um casamento que precisam arruinar e um velório que foge do controle. Em meio a tais peripécias, outra viagem se inicia, uma jornada através do tempo e da história do amigo desaparecido, Rancho, que com seu jeito único mudou completamente a vida dos dois; o amigo que os inspirou a pensar com criatividade e independência, mesmo quando o resto do mundo os chamava de idiotas, mas onde estaria o idiota original agora? Quem seria ele? Por que ele partiu? Para onde ele foi?
Uma coisa deve ser dita, não se engane pelo título, é uma crítica inteligente e por muitas vezes emociona nos fazendo pensar sobre a nossa vida e nossas prioridades. O enredo mescla um road movie com flashbacks explicando-nos quem é Rancho e o porquê estão atrás dele. Rancho é diferente, inteligente, gosta muito de aprender e é questionador, principalmente aos métodos de ensino da faculdade. Os três amigos, os idiotas da história cursam engenharia e o rígido professor não dá tréguas, tem um discurso certeiro sobre competição e o como a faculdade em que estão é a melhor. A história vai seguindo mostrando detalhes do período da faculdade e também a busca por esse amigo tão querido que sumiu após se formar. O fato é que a narrativa prende o espectador e surpreende por ter tantas cartas na manga.

O cinema indiano se difere dos outros, é vivo, e isso se dá pela importância das cores utilizadas e das músicas inseridas que fazem parte do contexto. Você chora e ri de um minuto a outro. Essa característica tão marcante permite que o espectador experimente diversas sensações no decorrer do filme.
O diretor e professor Viru Sahastrabudhhe (Boman Irani), apelidado de ViruS é caricato, mas representa bem o perfil de professor que repudia qualquer pensamento que fuja de seus métodos rígidos e limitados. Ele amedronta e causa danos nos alunos devido ao seu caráter. Ele vive dizendo que a vida é uma corrida e trata-os como máquinas complicando o fácil e dificultando o aprendizado. Outro personagem recorrente é Chatur (Omi Vaidya), o típico aluno que passa de ano decorando e que nada aprende, ele é irritante e é óbvio que não gosta de Rancho que vai contra a tudo isso. E se Rancho não é bem visto, a situação dele piora quando se envolve com Pia (Kareena Kapoor), a filha de Viru.
A amizade retratada é encantadora, os três sempre se ajudam independente de qualquer coisa, a crítica é imensamente válida e com certeza é um filme que deve ser visto pelos educadores e os alunos, pois disserta sobre os métodos de ensino, como o decoreba que não acrescenta nada e apenas garante um diploma e o desperdício do potencial de cada indivíduo, além da pressão da escolha da profissão sem pensar no que gosta.

A trilha sonora é maravilhosa e agrega bastante à trama, especialmente a que diz: "Está tudo bem". 
"3 Idiotas" reflete vários assuntos, como a importância da amizade, a não desistência de seus sonhos apesar das dificuldades, valores que precisam ser resgatados, como a gentileza, lealdade e amor pelo próximo, o não deixar-se influenciar pelas opiniões e não permitir que regras impostas determinem o que você vai ser. 
É um filme leve, empolgante e crítico na medida exata, é mais um belíssimo exemplar do cinema indiano. Recomendadíssimo!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Faults

"Faults" (2014) dirigido por Riley Stearns tem uma premissa bastante interessante e consegue fazer com que mergulhemos no universo dos personagens. Na trama, Ansel Roth (Leland Orser) é um homem que ganha a vida tratando de pessoas que sofreram algum tipo de lavagem cerebral, mas que se encontra em decadência. Quando um casal de idosos pede o seu auxílio para ajudar sua filha (Mary Elizabeth Winstead), que entrou para um culto, ele vê uma oportunidade para reerguer sua carreira.
Ansel é um sujeito que resgata mentes que sofreram lavagem cerebral, mas sua reputação não é das melhores desde um caso malsucedido, além também de dever muito dinheiro. Ninguém se interessa por suas palestras, livros e ele precisa criar meios até para comer. Certo dia, um casal de idosos pede ajuda para sua filha, que sofreu uma lavagem cerebral de um grupo denominado "Faults". Desesperado e otimista ele aceita o trabalho e articula um plano para "sequestrar" a moça e começar então o processo.
Criativo e chamativo, o roteiro segue de forma estranha, mas impressiona justamente por nos enganar. É preciso embarcar na história, o protagonista ansioso por ter sua vida de volta, respeito e dinheiro não percebe o que acontece a sua volta, e isso é pela importância que dá ao seu suposto conhecimento.
O charlatanismo religioso está por aí e é preciso ficar atento, já que todos nós uma hora ou outra se sente frágil, inútil e sozinho, uma pessoa com uma lábia afiada afim de se dar bem em cima disso é capaz de ludibriar, há exemplos infinitos, como promessas de milagres, o reino de Deus em troca do dinheiro, previsões de futuro, etc. Incrível como a palavra tem o poder de mudar tudo tirando proveito em cima da fraqueza alheia. Claro, o filme não pretende julgar nenhuma religião, mas sim a essas práticas que muitos desenvolvem.
Ansel causa repulsa logo no início, mas nossas emoções vão mudando ao desenrolar, ele realmente quer ajudar a moça, mas a sua situação não é das melhores para dar apoio a alguém, e aí é que o roteiro brinca e surpreende em seu final.

O longa se disfarça de thriller, mas em sua essência é muito crítico e inteligente, nos elucida sobre o como o charlatão se utiliza das falhas e fraquezas dos outros para poder se dar bem sem que nada soe falso. Basta algumas palavras certeiras e o estrago está feito, por isso é necessário que nos conheçamos, que olhemos para dentro e saibamos dos nossos defeitos e qualidades, para que nas situações de extrema sensibilidade não deixemo-nos levar.
"Faults" brinca com o espectador e ao final nos abre os olhos e diz o quanto é fácil enganar. Um filme que merece atenção e que sem dúvidas deve ser revisto.