quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Branca de Neve (Blancanieves)
Releitura espanhola numa versão muda e em preto e branco para o clássico da Disney e do conto dos irmãos Grimm, "Branca de Neve". Esta nova versão traz a heroína no mundo das touradas. No filme, o conto de fadas é transposto para Sevilha, num tempo de touradas, por volta dos anos 20. A trama começa com uma tripla tragédia: o toureiro superstar Antonio Villalta é atingido por um animal, fica tetraplégico e ainda perde sua mulher no parto. Dali nascem sua filha, Carmen, e também seu casamento com uma enfermeira que se aproveita da situação para seduzi-lo. A órfã de mãe, Carmen, claro, é a Branca de Neve, restando para Encarna o papel da maior vilã da cultura pop, a Madrasta.
A essência do conto é a mesma, mas o longa de Pablo Berger vai além, é criativo e muito original. Ele traz o conto em versão muda e em P&B, o universo das touradas seduz o espectador. Antonio Villalta é um famoso e rico toureiro, mas em uma apresentação comete um erro terrível do qual acaba sendo ferido, o deixando tetraplégico, ao mesmo tempo sua mulher desesperada entra em trabalho de parto e morre assim que a criança nasce, Carmencita fica aos cuidados da avó, pois o pai a rejeita. A enfermeira Encarna se aproveita da situação e Antonio por fim acaba se casando com ela. O tempo passa e a avó de Carmencita morre, a garota vai para a casa do pai, mas Encarna a coloca num lugar horrível para dormir e a faz de empregada da casa. A madrasta quer ver a menina longe e quando descobre que ela anda frequentando o quarto do pai começa articular seus planos malignos. Nestas visitas Carmencita aprende o ritual das touradas e vive momentos de muito carinho com seu pai.
Maribel Verdú faz uma madrasta muito má e cheia de fetiches, sua personagem passeia pelo sexy e o humor negro. A trilha sonora é fantástica, o flamenco dá um tom quente ao filme, assim como as danças que o permeiam. Até a "dança" feita com os touros na arena é estupenda.
A aparição dos anões toureiros é interessante, nem todos são bons e confiáveis, e nessa versão quem se apaixona por Branca de Neve é um anão. Na trama há muita maldade, vingança, e por fim, morte.
É um belo exemplar do quanto o cinema pode nos inebriar contando uma história tão conhecida sob um outro aspecto. "Blancanieves" tem uma fotografia belíssima, é envolvente, hipnótico e original.
Carmencita apelidada de Branca de Neve pelos anões depois de ser achada e ter perdido a memória é uma moça que esbanja inocência, continua sendo bela e com a pele alva, mas sem ares infantis. A madrasta tem um olhar cortante, é fissurada na ostentação e movida pela vaidade, ela passa por cima de todos para conseguir o que quer.
"Blancanieves" é até agora a melhor versão que vi do conto, a crítica rasgou elogios e o filme teve diversas premiações, incluindo o Goya, a maior premiação do cinema espanhol, levou 10 prêmios de 18 indicações. Por fim, é uma obra para se surpreender!
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Pós Morte (Post Mortem)
"Pós Morte" (2010) dirigido por Pablo Larraín é o segundo filme de uma trilogia sobre a ditadura chilena. O primeiro "Tony Manero" - 2008, retrata Raúl Peralta (Alfredo Castro), que está obcecado com a ideia de se tornar Tony Manero, o famoso personagem interpretado por John Travolta no clássico filme da era disco "Os Embalos de Sábado à Noite". A fantasia de encarnar seu grande ídolo e assim ser reconhecido como uma estrela no mundo do entretenimento chega a tal nível que acaba levando Raúl a se transformar num assassino em série, o pano de fundo desta história se passa no ano de 1978 com o complicado contexto social da ditadura militar de Augusto Pinochet.
O terceiro fechando a trilogia é "No" - 2012, do qual conta a história do plebiscito que, em 1998, pôs fim a uma ditadura de 15 anos imposta por Augusto Pinochet. Saavedra (Gael Garcia Bernal), é um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Pinochet no poder durante um referendo, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo.
"Pós Morte" (2010) regressa ao ano de 1973 durante os últimos dias da presidência de Salvador Allende. Um funcionário do necrotério se apaixona por uma dançarina burlesca, que desaparece misteriosamente. Loucamente apaixonado e perturbado pela perda de sua potencial amante, Mario (Alfredo Castro) começa a sua busca frenética por Nancy (Antonia Zegers). Mario é um cara esquisito que pouco sabe do período em que vive, trabalha escrevendo os relatórios das autópsias efetuadas pelos legistas, solitário tenta se aproximar de sua vizinha Nancy, uma mulher complexada.
Obcecado, segue a vida de Nancy, observando todos os seus passos. Até que, uma manhã, ele encontra a casa dela destruída. É então que, em desespero, passa a procurar o seu rosto em cada cadáver que chega à morgue. Até, finalmente, a encontrar...
Tudo se dá de forma não convencional e bizarra, enquanto isso nas ruas de Santiago várias manifestações são registradas, mas Mario pouco se importa. Só mais adiante o incomoda por atrapalhar o seu "romance" com Nancy. O personagem aparentemente é sem graça, mas sua figura silenciosamente excêntrica prende nossa atenção, justamente por querer saber qual será a sua reação diante aos fatos.
Com ritmo lento o aspecto político é tratado com sensibilidade única, os corpos que se amontoam, as autópsias que se seguem, e então a cena ápice do filme, o corpo de Allende com a cabeça desfigurada por um tiro de revólver na grande mesa fria, todos esperam a resposta do legista, mas Mario acaba se atrapalhando com a máquina de escrever elétrica, um soldado ocupa o seu lugar e a autópsia segue. Um momento que explica muito sobre o filme, o quanto este homem é inerte diante a vida, totalmente inexpressivo e alheio do que acontece em seu país. A trama é sobre uma história de amor, sobre duas pessoas apáticas e indiferentes a tudo, o contexto político é um pano de fundo para essa estranha e fantasiosa história de amor.
Interessante pelo lado político abordado elucidando sobre este período caracterizado por uma grande ebulição e também pelo personagem de Alfredo Castro. É um filme diferente e inteligente que compõe a trilogia de Pablo Larraín sobre a ditadura chilena.
O terceiro fechando a trilogia é "No" - 2012, do qual conta a história do plebiscito que, em 1998, pôs fim a uma ditadura de 15 anos imposta por Augusto Pinochet. Saavedra (Gael Garcia Bernal), é um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Pinochet no poder durante um referendo, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo.
"Pós Morte" (2010) regressa ao ano de 1973 durante os últimos dias da presidência de Salvador Allende. Um funcionário do necrotério se apaixona por uma dançarina burlesca, que desaparece misteriosamente. Loucamente apaixonado e perturbado pela perda de sua potencial amante, Mario (Alfredo Castro) começa a sua busca frenética por Nancy (Antonia Zegers). Mario é um cara esquisito que pouco sabe do período em que vive, trabalha escrevendo os relatórios das autópsias efetuadas pelos legistas, solitário tenta se aproximar de sua vizinha Nancy, uma mulher complexada.
Obcecado, segue a vida de Nancy, observando todos os seus passos. Até que, uma manhã, ele encontra a casa dela destruída. É então que, em desespero, passa a procurar o seu rosto em cada cadáver que chega à morgue. Até, finalmente, a encontrar...
Tudo se dá de forma não convencional e bizarra, enquanto isso nas ruas de Santiago várias manifestações são registradas, mas Mario pouco se importa. Só mais adiante o incomoda por atrapalhar o seu "romance" com Nancy. O personagem aparentemente é sem graça, mas sua figura silenciosamente excêntrica prende nossa atenção, justamente por querer saber qual será a sua reação diante aos fatos.
Com ritmo lento o aspecto político é tratado com sensibilidade única, os corpos que se amontoam, as autópsias que se seguem, e então a cena ápice do filme, o corpo de Allende com a cabeça desfigurada por um tiro de revólver na grande mesa fria, todos esperam a resposta do legista, mas Mario acaba se atrapalhando com a máquina de escrever elétrica, um soldado ocupa o seu lugar e a autópsia segue. Um momento que explica muito sobre o filme, o quanto este homem é inerte diante a vida, totalmente inexpressivo e alheio do que acontece em seu país. A trama é sobre uma história de amor, sobre duas pessoas apáticas e indiferentes a tudo, o contexto político é um pano de fundo para essa estranha e fantasiosa história de amor.
Interessante pelo lado político abordado elucidando sobre este período caracterizado por uma grande ebulição e também pelo personagem de Alfredo Castro. É um filme diferente e inteligente que compõe a trilogia de Pablo Larraín sobre a ditadura chilena.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Camille Claudel 1915
"A vocação artística é muito perigosa. Poucas pessoas tem força para resistir. A arte toca certas faculdades particularmente perigosas da mente. A imaginação e a sensibilidade podem facilmente gerar desiquilíbrios."
"Camille Claudel 1915" (2013) do diretor Bruno Dumont (O Pecado de Hadewijch - 2009) é baseado na história verídica da escultora Camille Claudel, que foi levada a um hospício através do seu irmão, passando seus últimos trinta anos sem nunca mais poder seguir a sua arte novamente.
Inverno, 1915. Contra a sua vontade, a escultora Camille Claudel (Juliette Binoche) é internada pelos familiares em um asilo psiquiátrico mantido por religiosas, e permanece durante anos na instituição, sem poder sair. Ela afirma várias vezes que está perfeitamente sã, mas desenvolve uma mania de perseguição, acreditando que seu ex-amante Auguste Rodin conspira contra ela, e que todos no asilo tentam envenená-la. Camille passa os dias cercada por internos com deficiências mentais e surtos psicóticos graves, não tendo ninguém com que conversar. Sua única esperança é a carta enviada clandestinamente ao irmão Paul (Jean-Luc Vincent), implorando por sua liberação. Quando Paul confirma que vai visitá-la, Camille aguarda com impaciência a oportunidade de mostrar ao irmão que pode viver em sociedade.
A história desta icônica mulher já foi apresentada em 1998 sob a direção de Bruno Nuytten e protagonizada por Isabelle Adjani, nesta produção é possível conhecer os pormenores de sua vida, sua genialidade como artista e o relacionamento com Rodin, principal motivo que a levou à loucura. Camille Claudel de Bruno Dumont já se concentra nos anos em que ela foi posta pelo irmão em uma espécie de casa de repouso para loucos.
Juliette Binoche dá vida a Camille e expõe toda a sua angústia por não saber o porquê de estar trancada, e apesar do lugar ser belo, a sufoca e enclausura a suas ideias. Ao longo do filme observamos o sofrimento de Camille por estar ao lado daquelas pessoas completamente insanas que urram o tempo todo como que pedindo algo. Ela procura a arte nas pequenas coisas para tentar sobreviver, mas toda vez que se depara com a arte se desespera. Em uma conversa com o médico Camille muito angustiada lhe diz que seu desejo era morar em uma casinha e poder dar vida a suas ideias, porém sua paranoia vai se mostrando quando menciona Rodin. Camille foi aluna, aprendiz e amante do escultor, mas em certo momento vendo que Rodin jamais deixaria a esposa para ficar com ela, decide ir embora e tentar fazer seu próprio nome, já que suas esculturas eram muito semelhantes a de seu mestre, o que gerava grandes burburinhos.
Nesta fase Camille se enclausura em seu próprio ateliê e a paranoia começa a ficar muito latente. Ela acredita que Rodin quer roubar suas esculturas e expô-las como sendo suas, ela crê na sua imaginação e perde-se totalmente da realidade. Depois de muito tempo encerrada em seu ateliê, seu irmão mais novo Paul, decide interná-la num sanatório, mas com a explosão da primeira guerra mundial acabou sendo transferida para uma casa de repouso em Villeneuve-lès-Avignon onde morre, após trinta anos de internação e desespero. Tudo é expressado pelos olhos da belíssima atriz Juliette Binoche, da qual faz um trabalho maravilhoso. Camille Claudel foi uma grande artista e sua personalidade orgulhosa e esnobe só a fez sofrer ainda mais.
É um filme contemplativo, com diálogos que geram reflexões acerca da loucura e do como é terrível não estar no controle de sua mente, a sensação é de puro sufocamento.
O irmão de Camille é extremamente religioso e de certa forma acredita que a irmã está pagando por pecados que cometeu, como se relacionar com um homem casado, levar uma vida livre esculpindo homens nus, entre outras coisas. Ele crê que a arte tirou o equilíbrio emocional de Camille, justamente por trabalhar muito a imaginação. O diálogo que tem com um padre é o ponto alto do filme, esmiúça-se o fanatismo religioso e o moralismo.
O lugar em que Camille Claudel se encontra é lindo e bucólico, de uma natureza exuberante que deveria fornecer calmaria, mas o que se vê é o oposto. A ausência de trilha sonora ressalta o inferno que é estar perdida dentro de si mesma. O sentimento de angústia dá o tom à história, a liberdade que lhe foi tirada causou a incapacidade de criar.
"Camille Claudel 1915" tem planos bem trabalhados e precisos que focam nas expressões que perpassam o rosto de Binoche. Uma obra imensamente artística.
"Camille Claudel 1915" tem planos bem trabalhados e precisos que focam nas expressões que perpassam o rosto de Binoche. Uma obra imensamente artística.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
A Vida em Um Dia (Life in a Day)
"A Vida em Um Dia" (2011) é uma experiência global histórica para criar um filme gravado pelos usuários do Youtube para documentar um único dia na Terra. No dia 24 de julho de 2010, pessoas do mundo inteiro gravaram um momento de suas vidas e enviaram ao site. Mais de 80.000 vídeos foram enviados por pessoas de 197 países. Dirigido por Kevin MacDonald em parceria com outros 16 codiretores e produzido por Ridley Scott e Tony Scott é sem dúvidas um projeto ousado, pois é difícil imaginar que mais de 4.500 horas de gravação se converteria em 90 min de muita coesão. São fragmentos de momentos aparentemente banais de pessoas dos mais variados países, feito de sensações a vida pulsa neste documentário e surpreende pela sua grandiosidade.
Seguindo uma ordem cronológica pessoas anônimas expõem suas intimidades mostrando situações corriqueiras, como escovar os dentes, fazer a barba, se vestir. No decorrer do dia muitas pessoas e muitas culturas são evidenciadas, às vezes esses momentos duram apenas alguns segundos, mas o suficiente para serem guardados. O poder da imagem é imensurável, os detalhes ganham grandes proporções e consequentemente nos fazem refletir. É a vida comum, portanto há pessoas de todos os tipos, há aquelas que têm o mundo em si, como o homem coreano que viaja de bicicleta e que fica maravilhado com a diferença entre as moscas dos lugares que passou, uma bela metáfora sobre nós humanos. Há também o superficial e isto nos faz lembrar que as pessoas gostam de se exibir, o documentário inteligentemente faz um belo contraponto, enquanto um cara mostra a sua Lamborghini, em outro lugar do mundo um garoto engraxa sapatos para poder ajudar sua família. São retratados anseios, alegrias, tristezas, esperança, inocência, amor, reencontros, preconceitos, violência e ignorância. Ao longo para criar um contexto algumas perguntas são feitas, como por exemplo: Do que você tem medo? O que você tem no bolso? O que você ama? É intenso e comovente algumas destas respostas.
Com o tempo esquecemos que existem outros além de nós mesmos, pensamos sempre nos nossos sentimentos, nas nossas certezas e acabamos não prestando atenção que cada um tem um mundo em si, e não há nada mais gratificante do que reconhecê-los, compreendê-los e descobri-los para fazer da vida algo que valha a pena.
Indiscutivelmente o documentário traz à tona o sentimento de humanidade, dá vontade de abraçar algumas dessas pessoas. Esse emaranhado de imagens é feito de pluralidades e várias delas são inefáveis.
O registro final é de uma moça que relata que só pôde gravar o vídeo a noite porque trabalhou o sábado todo, cansada diz que esperou algo especial acontecer em seu dia, mas nada realmente se deu, esse desabafo tão comum dá o poder de uma reflexão absurda, pois a verdade é que não precisamos esperar, a vida já está acontecendo e nós é que temos o poder de conduzi-la e transformá-la. Essa série de imagens aparentemente desconexas criam uma gama de pensamentos sobre nó mesmos.
"A Vida em Um Dia" é feito de imagens que geram sensações únicas a quem o assiste, portanto, a experiência se torna pessoal e cada um guarda os momentos que mais lhe tocaram. O documentário é capaz de acender novamente a centelha que às vezes se apaga em nós, a vontade de viver. É extremamente lindo, grandioso e ousado.
"Eu amo a palavra 'mamihlopinatapai'. É da língua Yagan, que hoje é uma língua morta. Mas ela era falada na Terra de Fogo, o ponto mais ao sul da America do Sul. Nunca ouvi a palavra dita corretamente, então posso está pronunciando de forma errada. Mas o sentido é muito bonito. Significa aquele momento ou sentimento quando duas pessoas querem começar algo, mas nenhuma delas quer ser a primeira a fazê-la. Podem ser dois lideres de tribos, talvez querendo um acordo de paz, mas nenhum querendo ser aquele que começa, ou pode ser duas pessoas em uma festa querendo falar uma com a outra e nenhuma delas tem a coragem para dar o primeiro passo."
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Paraíso: Fé (Paradies: Glaube)
"Paraíso: Fé" (2012) é o segundo filme da polêmica trilogia intitulada "Paraíso", do diretor Ulrich Seidl. O anterior chamado "Paraíso: Amor" (2012) fala sobre a busca desesperada pela felicidade e o terceiro "Paraíso: Esperança" (2013) é sobre jovens garotas que acreditam que o amor não é uma ilusão. Os filmes de Ulrich Seidl são hiper-realistas e por isso incomodam, as histórias são cruas, abordam o universo feminino e quase sempre a violência está presente.
Em "Paraíso: Fé" a personagem Anna Maria é uma católica fervorosa e fanática, que se flagela, caminha de joelhos pela casa, impreca os pecadores e chega ao ponto de se masturbar com o crucifixo. Anna Maria acha que a felicidade suprema tem de vir da fé. Radiologista durante o dia, no tempo que lhe sobra empenha-se na missão de evangelizar almas perdidas - um casal que vive em pecado, um alcoólatra e outros seres humanos sem rumo. Através da abnegação total dos prazeres carnais, da penitência diária, da tentativa de conversão dos "hereges", da limpeza obsessiva e de orações e cânticos, Anna tenta manter-se afastada do sexo e outros pecados. A sua fé é apenas posta à prova pelo marido que, apesar de impedido de andar, não desiste do seu ideal de amor, que inclui um casamento consumado. Mas Anna é implacável na sua decisão de direcionar a vida e o amor para Jesus. Um sentimento que parece infinito mas não é apenas etéreo.
Anna inconformada com a falta de fé das pessoas reza e pede muito a Jesus, depois de suas visitas a pessoas geralmente perdidas na vida, a maioria imigrantes, bêbados e prostitutas, chega em sua casa e se autoflagela acreditando que livrará o pecado daquelas pessoas. Em um dessas visitas Anna debate com um casal sobre o cristianismo, uma parte interessante do filme em que pontua o quanto Anna estava embebida neste universo religioso, e portanto cega para a razão. Outra cena que demonstra sua loucura é a da orgia, ela segue o barulho dos gemidos e encontra pessoas fazendo sexo no meio do mato, Anna é completamente bitolada, para ser uma verdadeira cristã tem que se abdicar do sexo, mas isso só ajuda ela a pensar ainda mais. Com o regresso do marido fica mais evidente, Nabil é muçulmano e está inválido, necessita de cuidados e acredita que ainda pode recuperar o casamento. Veja o grau em que se encontra esta mulher, Nabil não pode fazer nada e mesmo assim ela foge como o diabo foge da cruz, ele apenas deseja ser abraçado, mas Anna é incapaz de entender.
Com ritmo lento a sensação é de estar espiando, pois a câmera fixa num ponto enquanto alguma situação se desenrola. É um filme seco que retrata até onde é capaz de chegar o fanatismo de uma pessoa. Na questão do pecado, Anna os cometia e nem se dava conta, por exemplo, quando invade a casa de pessoas praticamente enfiando goela abaixo a sua religião sem se importar se fossem ou não católicos, ou com seu marido, a cena em que tira a cadeira de rodas dele e o faz rastejar pela casa é uma violência e tanto. Na verdade, Anna é uma mulher vazia, desacreditada da vida e que encontrou refúgio na religião, cujo único intuito é satisfazer a si própria.
O filme permite grandes reflexões, a quebra de tabus e o que o excesso pode ocasionar na vida da pessoa e para quem está ao lado, tudo é destruído, o egoísmo se sobrepõe cegando o indivíduo. Anna deposita todo o seu amor a Jesus e esse amor é levado ao desejo carnal, ela diz que nenhum homem é mais bonito que ele, e a cena polêmica envolvendo o crucifixo é o ápice. É doentio e digno de pena.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
170 Hz
"170 Hz" (2011) é um romance dramático holandês do diretor Van Ginkel, que conta a história de dois jovens surdos que tentam encontrar um lugar no mundo para poder viver livremente o amor.
Evy (Gaite Jansen) é filha de pais ricos e leva uma vida tediosa e solitária até conhecer Nick (Michael Muller), um rapaz também surdo que vive como quer, o filme não especifica o porquê de ter abandonado sua família abastada, mas ele é muito revoltado. Nick trabalha em uma oficina mecânica e não tem amigos, podemos observar o quanto de raiva há nele numa cena em que um cara zomba de sua surdez e ele o olha fixamente com o desejo de matá-lo e quase o faz. Depois de um tempo saindo com Evy, ele é chamado para jantar e conhecer os pais da garota, mas os bons modos de Nick não são lá aquelas coisas, no que desencadeia brigas entre a família. O pai de Evy não aceita o namoro e então os dois arquitetam um plano infantil e vão morar em um velho submarino abandonado. A partir daí o filme segue lento, recheado de brigas, confronto de personalidades e muita paixão.
Como o casal protagonista é surdo, o filme todo é trabalhado nas libras e no silêncio, mas isso não quer dizer que careça de força, ao contrário, pois intensifica a ideia de que palavras não são tão necessárias, os olhares e os gestuais ganham grandes proporções e visualizamos cenas esplendorosas, aliás a fotografia é um ponto extremamente relevante, a cena da tinta vermelha, cuja ilustra o poster é uma das mais lindas.
Não dá para saber ao certo o trauma que Nick teve com o pai para ter feito o que fez, mas podemos imaginar algo com as imagens que o filme vai inserindo, já Evy tem uma família que a protege e a fecha do mundo exterior. No jantar o pai de Evy não para de perguntar sobre a família de Nick e diante de todas as formalidades irritantes que acontecem nestes encontros, Nick responde de maneira fugaz, principalmente quando o pai de Evy o questiona sobre ele não colocar o aparelho auditivo. Rudemente ele explica: "Não quero, pois ninguém tem nada interessante a dizer, a não ser Evy".
Claramente palavras não servem de nada, mas é possível ver a melancolia que envolve Evy em relação a sua surdez. Vários momentos exemplificam essa angústia.
"170 Hz" (frequência máxima de um som que Nick consegue captar) é um filme completamente despretensioso ao focar no casal surdo, pois o tema não é explorado de forma que sirva de lição ou algo do tipo. O lado psicológico dá o tom e ele vai ganhando força quando descobertas acontecem e a linha entre amor e obsessão, paixão e violência se tornam muito tênues.
É uma história de paixão intensa em que o mundo parece ser apenas o outro e não se pensa duas vezes ao deixar a vida aparentemente insignificante para trás, porém logo descobre-se outros sentimentos embutidos, além das descobertas acerca do outro. E o que era para ser o "felizes para sempre" acaba dando lugar ao medo, e por fim ao trágico. É um filme que inova nos elementos e nos presenteia com uma fotografia hipnótica que enfatiza ainda mais as emoções e o psicológico dos personagens.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Sala do Suicídio (Sala Samobójców)
"Sala do Suicídio" (2011) do diretor polaco Jan Komasa gira em torno de Dominik (Jakub Gierszal), um garoto comum, ele tem um monte de amigos, pais ricos e dinheiro para gastar em roupas de marca. Mas um beijo inocente com um colega muda tudo. Ele sofre bullying e começa a isolar-se do mundo exterior, vivendo todo o seu tempo em seu computador. Ele conhece uma garota anônima que lhe apresenta a "sala suicida", um lugar do qual não há escapatória. Pego em uma armadilha tecida por suas próprias emoções, Dominik torna-se enredado numa teia de intrigas e gradualmente perde o que ele mais aprecia.
É preciso adentrar na vida deste garoto para poder ver os reais motivos de sua depressão, já no início observamos que é propenso a uma melancolia, na festa de formatura exprime bem sua antipatia com o todo. Sua mãe pede para ele sorrir e o máximo que consegue é um sorriso de canto de boca forçado. Aparentemente tem tudo, mimado ao extremo pelos pais ausentes o suprindo com bens materiais e status, o que o tornou um alguém insuportável, que não sabe lidar com o próximo sem exigir. A cena do ônibus em que pede para desligarem o som mostra o quanto é infantil, pois ele age assim com seu motorista e este sempre acata seu desejo.
O mundo gira em torno dele, mas existe uma grande divergência nisto tudo, ao mesmo tempo que é mimado, também é autodestrutivo e o desencadeamento acontece quando beija em comum acordo um colega, ele se sente confuso em relação a sua sexualidade e acaba se envolvendo emocionalmente, mas o episódio na aula de artes marciais faz com que Dominik mergulhe no mais profundo do seu ser. Dominik enquanto luta com seu colega, se excita e acaba ejaculando, no dia seguinte no facebook é alvo de piadas terríveis. Depois disso não vai mais à escola, se tranca no quarto e se infiltra num mundo onde pode ser quem quiser. O mundo dele agora é a "sala do suicídio", um lugar dentro do jogo "Second Life", lá se comunica com Sylwia, uma garota que diz que cometerá suicídio em breve. Os dois se encontram neste universo juntamente com outros membros e discutem sobre como tirarão a própria vida. A verdade é que Sylwia influenciou Dominik, ele estava muito sensível e suscetível a pensamentos mórbidos.
O filme exibe vários clichês, mas que se fazem essenciais, por exemplo, o personagem emo, rico e mimado que reclama da vida, os pais ausentes, o bullying, é um uma série de questões que geram angústia. Os créditos são todos de Jakub Gierszal que interpreta Dominik, ele é intenso, confuso e passa exatamente a dor de ser incompreendido. Algumas cenas ele praticamente agoniza, como quando sai de seu quarto e implora desesperado ao pai para que reconecte o cabo da internet, o ápice acontece aí. Há muito o que se pensar nesta parte. A vida deste garoto estava no virtual, na conexão que criou com Sylwie, que por vezes nos passa a impressão de estar se aproveitando da situação de Dominik, e por outras parece estar realmente envolvida.
"Sala do Suicídio" tem uma fotografia dark, mas o que se sobressai é a mescla de realidade com cenas de animação. É um drama pesado que retrata a existência de forma crua e passeia por temas difíceis, como a influência da internet na vida de jovens depressivos, o bullying, a solidão, a carência afetiva, pais ausentes que pensam que dinheiro supre as necessidades dos filhos, e daí vem a necessidade de ter uma segunda vida, ser uma outra pessoa e o virtual é uma saída, cria-se a sensação de preenchimento. O filme junta todos estes assuntos e joga na nossa cara uma realidade bem amarga.
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