quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Transfiguração (The Transfiguration)

"A Transfiguração" (2016) dirigido pelo estreante Michael O'Shea retrata o vampirismo sob uma ótica completamente diferente, mas ainda assim conversa com a aura sombria e melancólica que permeia o tema. Reflexivo, pesado e perturbador, é a fantasia se tornando realidade.
Quando o jovem problemático Milo (Eric Ruffin), fascinado por vampiros, conhece a igualmente alienada Sophie (Chloe Levine), os dois formam um laço que começa a enevoar a linha do garoto entre a realidade e a fantasia. Milo é um adolescente órfão de 14 anos que vive com seu irmão Lewis (Aaron Moten) no Queens, em Nova York. Ignorado por seus colegas de classe, ele sofre bullying nas mãos dos meninos mais velhos da escola. Ele encontra refúgio no pequeno apartamento onde mora, onde foge da solidão ao se debruçar sobre o fascinante mundo dos vampiros. Milo esconde um segredo sinistro, mas um encontro com Sophie, sua nova vizinha, irá despertá-lo para novos sentimentos.
O longa diz sobre psicopatia, sobre o desejo por sangue, o garoto cheio de traumas e rodeado por violência mascara sua solidão e sua personalidade doentia ao mito do vampiro, ele acredita piamente nisso e dá seguimento a seu plano para que essa sua transfiguração aconteça de fato, anota tudo em seus cadernos, devora livros e filmes sobre vampiros e em toda lua cheia sai para caçar. As coisas mudam quando Sophie aparece e se interessa por ele, passam a conversar e Milo percebe a difícil vida da garota que é abusada pelo avô, por causa dela Milo controla-se mais, apesar de que mais pra frente sente que essa sua compulsão por sangue não sumirá. 
O filme é um terror dramático sombrio, Milo é um personagem calado marcado pela violência, o local onde mora é liderado por gangues, sofre bullying e ainda está em luto, sua mãe se suicidou e todo esse ambiente e sensações contribuem para aflorar sua psicopatia, ele é frio e metódico, as cenas em que ele sai para beber sangue são perturbadoras e brutais, muitas delas confundem o espectador, pois a linha entre a imaginação e a realidade é tênue. Lewis, o irmão, também é um personagem curioso e que vale a pena ser estudado, completamente inerte vive sentado no sofá, ao longo descobrimos que sofre de trauma pós-guerra, há picos em que se preocupa com Milo, mas sempre está envolto pela dor e com olhos estagnados, Aaron Moten se sobressai toda vez que aparece em cena, aliás, todos os atores estão impecáveis, Chloe Levine como Sophie desperta empatia com sua forte e doce personagem. Eric Ruffin como o macabro Milo nos confunde, há um misto de compreensão e medo, mas a dúvida prevalece, será que ele é mesmo maluco ou simplesmente cruel?

O longa exibe diversas referências, como aos clássicos "Nosferatu" e "Martin", outros como "Near Dark", "True Blood", "The Lost Boys", "Deixe Ela Entrar" e até "Crepúsculo", que Sophie insiste para Milo ler, mas o garoto diz não gostar por não ser realista. Os diálogos entre eles são ótimos e conferem naturalidade, os únicos instantes em que Milo demonstra um pouco de humanidade. 
O diretor junta a realidade e a fantasia, a tensão dos elementos sociais com a obsessão pelo vampirismo, a fascinação de Milo é extrema e procura o máximo de realismo nas obras que assiste e lê, ele é um pesquisador profundo do tema e busca o real no imaginário.

"E você muda muito após matar a primeira pessoa, e muda muito mais depois, e depois de um após outro [...] é como uma doença que você pega."

"A Transfiguração" é um terror atmosférico aflitivo e também delicado, a melancolia ataca agudamente o espectador, todo o deslocamento social, a violência, a fuga da realidade impressiona. É um filme pesado e doce ao mesmo tempo, tem um lado crítico e une-se à fantasia com primor.

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