terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Krisha

"Krisha" (2015) dirigido pelo estreante Trey Edward Shults é um filme extremamente bem filmado, ele utiliza três formatos de filmagem que mudam de acordo com os sentimentos da protagonista, a tela começa dando o tom de realidade, passa pelo delírio, e por fim a sensação de desordem e sufocamento. A trilha sonora é outra aliada e condiz com a paranoia crescente de Krisha, aliás, a interpretação de Krisha Fairchild é merecedora de prêmios, intensa, enigmática e desajustada. Tendo apenas sua perspectiva da situação acabamos por adentrar em sua mente e acompanhamos seu caos interno se exteriorizar.
Este filme caseiro ganhou notabilidade, recebeu prêmios e se tornou uma surpresa indie, foi gravado em nove dias na casa da mãe de Trey, este que acumulou funções como diretor, roteirista, editor e também ator, interpretou o filho de Krisha. O elenco amador é composto por membros de sua família, Krisha na vida real é tia de Trey. 
Depois de anos ausente, Krisha (Krisha Fairchild), uma alcoólatra em reabilitação, se reúne com sua família nas férias. Ela percebe que diante dela está a oportunidade de consertar os erros do passado. Porém, os delírios de Krisha conduzem o feriado para uma experiência atordoante que ninguém vai esquecer.
O filme se inicia com um close angustiante de Krisha, logo a câmera a segue chegando no local, ela erra a casa e resmunga, fica claro que não está muito animada. Ela se depara com uma grande casa cheia de pessoas e cachorros, a dificuldade em se estabelecer é visível, sempre nos cantos Krisha só quer arranjar um jeito de ter contato com seu filho, que foi acolhido pela tia devido os problemas. Na casa o barulho predomina, enquanto Krisha está preparando o enorme peru para comemorar o feriado, sua irmã foi buscar a mãe delas, também com intuito de reconexão. Nesse meio tempo ela conversa com uma pessoa e outra, mas sem se sentir inserida de fato na família. É como se ela precisasse demonstrar a todo instante que está recuperada. Ela observa a família o tempo todo. O filho a evita, troca duas palavras e se afasta, o trauma vivido por ele jamais será esquecido e ainda mais por estar num meio que deu estabilidade emocional, talvez nunca mais a queira como mãe. As tentativas de Krisha são em vão, ao falar sobre o como ele gostava de cinema e que ele não precisa seguir a profissão que querem, denota que realmente ali não existe nenhum tipo de envolvimento.
Toda a relação que estava sendo praticamente disfarçada por receio, desaba quando Krisha derruba o enorme peru no chão após saciar-se bebendo, o reencontro e a conversa com a sua mãe não foi das melhores e a deixou desnorteada. A irmã nervosa a coloca de lado e percebe a bebedeira, daí os delírios e o caos tomam conta de sua mente sufocando-a naquele ambiente. 

"Krisha" é um furacão de emoções e toca em dolorosas feridas, as relações entre parentes, por exemplo, cada um tem a sua maneira de pensar e quando alguém não se encaixa no núcleo familiar, a primeira coisa que surge é a hipocrisia no tratamento dessa pessoa, outro ponto bastante pertinente é o vício e a destruição que ele causa por onde passa, acentuando ainda mais o desconforto familiar. A tensão que se cria na casa durante esse feriado ganha grandes proporções, é um retrato difícil e realista de que família nem sempre é sinônimo de conforto. 

Um comentário:

  1. Mais um filme que eu não conhecia.

    Este parece ser totalmente Lado B.

    Abraço

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