quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Tabu

"Tabu" (2012) tem uma aura mágica, que sem percebermos nos absorve para dentro da trama que narra a história de Aurora. A fotografia em preto e branco só ressalta essa magia. Inicialmente nos é apresentado um prólogo: um explorador que não consegue fugir da dor do amor e uma moça a contemplar um crocodilo melancólico, isso nada mais é do que uma síntese da história que iremos ver na segunda parte do filme.
A primeira parte da história se passa em Lisboa dos dias atuais, "Paraíso Perdido" apresenta Aurora, uma senhora triste, que sofre de ataques depressivos, falida ela lamenta sempre a falta que sua filha lhe faz, a sua única companhia é a empregada cabo-verdiana Santa, que é chamada de feiticeira por Aurora, e sua vizinha Pilar que sempre está a disposição e é muito preocupada com a idosa, que cada vez mais adoece. Pilar é uma mulher bondosa, diariamente reza para que Aurora melhore, mas devido sua condição é internada, então Aurora pede para Pilar ir procurar um homem chamado Gianluca Ventura. Ela o encontra vivendo num asilo, só que Aurora vem a falecer enquanto eles dirigem para encontrá-la no hospital. Após o enterro, Gianluca senta-se com Pilar e Santa para contar sobre o misterioso passado de Aurora. Não há diálogos entre os personagens durante esse segmento, apenas a serena narração em off de Ventura, que revela a paixão proibida que viveu ao lado dela. Aurora herdou do pai uma fazenda em África, ao pé do fictício Monte Tabu. Aurora é uma jovem de temperamento forte, Ventura é um explorador que não se finca por muito tempo em um lugar só, mas quando se depara com aquela mulher, sua razão é deixada de lado. Aurora é casada, mas seu marido vive viajando. Certa vez ele lhe deu de presente um filhote de crocodilo, este que de certa forma uniria Aurora e Ventura. A paixão entre eles se consuma e assim começam a se encontrar mais e mais vezes, quase sem se importarem se caso fossem vistos. O amor deles é proibido, tanto um como o outro sabe que não podem sucumbir a ele, se entregar seria a perdição.
Vale acrescentar a maravilhosa trilha sonora composta por baladas dos anos 50/60 e os ritmos africanos. O roteiro é uma releitura do clássico homônimo de 1931 de Murnau. Ambos se dividem em dois capítulos: "Paraíso" e "Paraíso Perdido", no entanto a produção de Miguel Gomes caminha na direção oposta. O paraíso perdido é a primeira parte onde mostra uma Aurora velha, delirante e que sonha com o crocodilo que presenciou o amor impossível de tempos atrás.


"Tabu" é uma obra perfeita em termos técnicos, nos inebria diante a um cinema de tamanha qualidade. O diretor Miguel Gomes quis se aprofundar em temas como a velhice e a juventude, a solidão e a possibilidade do amor em meio a um mundo de injustiça, como era a colônia. Diante a um mundo onde os brancos eram os donos, ele quis pintar as premissas do que viria, o boom demográfico, a guerra e esta história de amor condenada a fracassar.
"Tabu" é sofisticado, toda sua narrativa é bem estruturada e fascinante, a fotografia, os diálogos e mesmo na segunda parte quando são inexistentes, a trilha sonora, os personagens, tudo é muito delicioso e merecedor de aplausos. Para os amantes de cinema se faz indispensável, uma bela obra portuguesa.
"Pois se a memória dos homens é limitada. Já a do mundo é eterna. E dela ninguém poderá escapar."

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