segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Moinho e a Cruz (Mlyn i Krzyz)

Toda vez que o cinema insere o tema pintura em suas histórias, não tem como dar errado, na maioria das vezes o teor é biográfico retratando algum gênio, mas em "O Moinho e a Cruz" o próprio quadro é que conta a história. O mistério por trás dos traços nos é revelado. Do mesmo modo que admiramos um quadro, pacientemente, minuciosamente, assim se faz também com o filme, é uma obra contemplativa, para ser degustada aos poucos, em cada imagem e diálogo.
O diretor Lech Majewski recria a pintura "The Procession to Calvary" de Pieter Bruegel de 1564. A história se passa em Flandres, hoje Bélgica, durante a ocupação espanhola. Judas, Virgem Maria, um burguês, um fazendeiro, o próprio Bruegel, são alguns dos personagens que precisam lidar com a presença maciça do exército espanhol. O pintor, interpretado por Rutger Hauer, anda à procura de personagens e acontecimentos que, aos poucos, compõem o grande quadro. O pintor procura histórias, são centenas de personagens, entre os quais o amigo e colecionador de arte Nicholas Jonghelinck (Michael York), que encomendou o quadro. A opressiva dominação espanhola não deixa as pessoas nem ter música ou liberdade religiosa. Então, numa analogia metafórica, o pintor começa a descrever o conceito deste seu famoso quadro, o qual será idealizado ao longo do filme usando os cidadãos da cidade como representações das várias cenas contidas nesta pintura que evoca a Paixão de Cristo. Charlotte Rampling é Nossa Senhora, uma mãe como outra qualquer, cujo filho lhe é tirado antes do tempo.
O filme é uma viagem ao interior do quadro que vai se compondo aos poucos. Quem nunca se perguntou o que estaria pensando o artista quando pintou tal quadro, como foi que teve a ideia, ou quem são as personagens da obra, ou os lugares tão inspiradores?
As cores são maravilhosamente bem trabalhadas, fazendo com que o fundo da pintura se misture aos personagens chegando ao ponto de não conseguirmos distinguir o que é o quê, sem dúvidas um deslumbre visual.
"O Moinho e a Cruz" é um deleite visual e narrativo, somos conduzidos pela história e quando percebemos estamos juntos dos personagens. A natureza se funde com as pessoas, tudo tem vida, até a grama. O moinho é o lugar mais alto, substitui a imagem de Deus, lá é onde as engrenagens rodam. E de onde pode se ver tudo. O barulho é um fator primordial no longa e todos os sons se fazem necessários para compor todo o contexto. A virgem Maria nos mostra todo seu sofrimento com o olhar, toda a dor de ver seu filho sendo crucificado, este que em nenhum momento é exposto o rosto. Acompanhamos o seu calvário, mas não vemos a sua face.

"O Moinho e a Cruz" é arte em movimento, é filme para se contemplar, do mesmo modo que se faz com um quadro, observando e apreciando aos poucos ele vai se revelando. Ao final o filme nos conduz para fora da pintura e nos transporta pelo museu aonde o quadro reside. Agora fazemos parte da história e do segredo que a obra carrega. É uma experimentação maravilhosa, um filme de arte do qual enriquece a quem o assiste.

"A Procissão para o Calvário", pintado por Pieter Bruegel em 1564
Pieter Bruegel foi um artista obcecado por temas bíblicos, mas também pelas trivialidades de seu tempo, transpõe em "A Procissão para o Calvário" a crucificação de Jesus para Flandres, como forma de equiparar a perseguição religiosa na Roma antiga à opressão dos católicos espanhóis na era das navegações. Foi um pintor de multidões e de cenas populares, com uma vitalidade tal que transborda do quadro. Além da sua  predileção por paisagens, pintou quadros que realçavam o absurdo na vulgaridade, expondo as fraquezas e loucuras humanas, que lhe trouxeram muita fama. A mais óbvia influência sobre sua arte é de Hieronymus Bosch, em particular no início dos estudos de imagens demoníacas, como o "Triunfo da Morte" e "Dulle Griet". Foi na natureza, no entanto, que ele encontrou sua maior inspiração, sendo identificado como um mestre de paisagens. Ele é muitas vezes creditado como sendo o primeiro pintor ocidental a pintar paisagens como elemento central e não como um pano de fundo histórico de uma pintura.

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