quarta-feira, 10 de junho de 2015

Deus Branco / White God / Fehér Isten

"Deus Branco" (2014) dirigido pelo húngaro Kornél Mundruczó (Delta - 2008) é um conto visionário entre uma espécie superior e os seus desgraçados inferiores... Privilegiando os cães de raça, uma nova lei impõe uma taxa pesada sobre as raças cruzadas. Os donos passam a abandonar seus cães e os refúgios ficam rapidamente superlotados. Lili (Zsófia Psotta), 13 anos, luta para proteger seu cão, Hagen, mas seu pai acaba abandonando o animal nas ruas. Hagen e a sua dona procuram desesperadamente um ao outro, até que Lili perde as esperanças. Lutando para sobreviver, Hagen percebe depressa que nem todo mundo é o melhor amigo do cão. Ele junta-se a um bando de cães errantes, mas é capturado e enviado para um canil. Mesmo sem esperanças de sobrevivência, os cães aproveitam as oportunidades para escapar e se revoltarem contra a humanidade. A sua vingança será implacável. Nesse cenário, Lili pode ser a única pessoa que pode pôr fim a esta guerra entre o homem e o cão.
O primeiro ponto a se destacar sem dúvida é o desempenho dos cães, principalmente do protagonista, sobra inteligência, sensibilidade e esperteza. O elenco canino está expressivamente perfeito. Todos vieram de uma sociedade protetora de animais e foram adotados pela equipe ao final do filme. O diretor usou dois labradores gêmeos, Luke e Body, para o papel de Hagen e vários treinadores ajudaram a ensaiar as cenas mais difíceis. O longa foge completamente dos clichês que envolvem histórias em que os animais são o foco, há alguns elementos parecidos, mas a mistura de gêneros prende o espectador, há drama, ação, aventura, pitadas de humor e suspense, mas o principal é a crítica embutida, o homem, o deus branco do título, que despreza as minorias por se julgar superior. Os cães são uma bela metáfora e representa todas essas minorias que também estão subordinadas ao poder do mais forte.
Vemos o mundo sob o olhar de Hagen que tem todo o amor e carinho por Lili, filha de pais divorciados e que de última hora precisa morar com o pai, um inspetor de matadouro. Ele é um homem mesquinho e que não aceita Hagen, ele é um cão mestiço e é preciso pagar uma taxa para a prefeitura. Todo o ressentimento que esse homem tem em si é descontado no cão, ele o abandona no meio da rua para o pavor de sua filha. Lili não desiste de seu amigo e inicia uma busca incansável que trará alguns problemas para sua vida. Daí em diante acompanhamos a trajetória de Hagen ao submundo, onde conhecerá o pior do ser humano. Enfrentando o medo, a multidão, veículos, à procura de alimento e constantemente o controle de agentes da zoonose, ele acaba encontrando um grupo de cães, do qual o acolhe. Mas não demora para que caia em mãos sedentas por dinheiro e violência. Aprisionado, Hagen é treinado para lutar em rinhas, e é aí que acontece uma grande mudança em sua personalidade, se torna cruel devido ao sofrimento que o homem o infligiu. A cena em que ele briga é tão violenta, tão forte, que o cão ao final parece refletir no que acabou se tornando.

Hagen acaba sendo capturado e enviado ao canil, onde o ápice de sua revolta acontece e a luta sangrenta dos cães contra os homens toma forma de fato, as ruas de Budapeste são tomadas por eles e até policiais de choque tentam contê-los. O complexo de superioridade do ser humano não tem limites, escravizam e excluem aqueles que julgam inferiores. O filme reflete essa questão de maneira interessante com cenas poderosas.
"Deus Branco" (alusão ao filme de Samuel Fuller, White Dog - 1982) é um filme corajoso ao retratar as mazelas da sociedade, desse humano que se julga o dono daqueles que não tem opção. Os cães foram uma ótima escolha, afinal o ser humano pensa que o animal é inferior, assim como faz com pessoas as classificando por características. Existe uma grande hierarquia, onde esse homem, o deus branco, está no topo e pensa ter o poder para dominar quem acredita estar abaixo.

É uma alegoria provocativa e reflexiva, uma obra singular e que tem em seu elenco canino uma força de expressão gigantesca, a revolta e a vingança contra o ser humano que domina e se julga superior foi bem representada por eles.
A mistura de gêneros, assim como a trilha sonora tem efeitos positivos, e destaque tanto para a cena de abertura quanto a que finaliza, são sublimes, majestosas.
Um filme que contém uma forte crítica ao ser humano que se julga um Deus e que por isso age cruelmente contra aqueles que pensa ser inferior.

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