quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Entre Nós

"Não sei o que é mais frustrante: se é não realizar nenhum sonho; ou realizar todos eles."

"Entre Nós" dirigido por Paulo Morelli, é um ótimo filme nacional que retrata o tempo e o como ele age sobre nós. Quando jovens idealizamos e sonhamos com um futuro distante, mas quando o futuro se torna o presente e muitas das coisas imaginadas não se tornam realidade, o peso das decisões caem em nossas costas.
A história segue sete jovens amigos escritores que viajam para uma casa de campo para celebrar a publicação do primeiro livro do grupo. Lá, eles escrevem cartas para serem abertas dez anos depois. A viagem acaba em uma tragédia após a morte de um dos amigos. Mesmo assim, eles se reúnem dez anos depois para lerem as cartas. O elenco cria uma aura de amizade crível, os amigos são retratados de forma muito comum e real, papos descontraídos regados a bebida, risadas, brigas, tudo o que constitui a relação de amizade. No início vemos os laços, Felipe (Caio Blat), Rafa (Lee Taylor) e Silvana (Maria Ribeiro) confidenciam e vivenciam inesquecíveis momentos, Cazé (Júlio Andrade) e Drica (Martha Nowill) já denunciam que mais tarde seriam namorados, e Gus (Paulo Vilhena), e Lúcia (Carolina Dieckmann), é um casal apaixonado. Rafa tem a poesia pulsando em suas veias, Felipe é o cara que vive tentando escrever algo original e se deslumbra com os escritos do amigo. Em uma saída, os dois acabam sofrendo um acidente, do qual Rafa morre. Felipe salva o livro que Rafa tinha terminado recentemente e não conta para ninguém.

Nesse ponto a história salta dez anos e acompanhamos o reencontro desses amigos, Felipe conseguiu o almejado sucesso como escritor e está casado com Lúcia, e claro, carrega a culpa pelo acidente. Drica e Cazé tem um relacionamento, aliás Drica é uma personagem super magnética e interessante, ela sofre porque Cazé não deseja filhos. Gus é o romântico inveterado e Silvana é aquela que usufrui de sua bela e boa vida, mas continua sozinha suportando os fantasmas do passado. Todos os personagens são importantes para a trama, não há realmente um protagonista, mas é evidente que Caio Blat é que nos dá de presente uma atuação maravilhosa, ele guarda um segredo e convive com uma decisão que resultou na mudança de sua personalidade, ele se tornou uma figura complexa e sombria. Porém, outros personagens, como Gus, cético e sempre crítico nos brinda com ótimos e duros diálogos, e Lucia que deve ter se arrependido de abandonar Gus, a personificação do fracasso para se casar com o idealizado escritor famoso, que mais tarde se revelaria uma farsa.

Vale ressaltar a deslumbrante fotografia que destaca a Serra da Mantiqueira, a câmera passeia demoradamente pela imensidão verde e toda a melancolia que permeia esta história que por vezes trabalha de maneira excelente o suspense. Também a trilha sonora compõe perfeitamente as cenas e toda a densidade dos personagens. Um dos momentos mais intensos é quando Felipe chega perto de Silvana que está de costas à beira de um precipício e não sabemos o que ele irá fazer, difícil entender, até porque o próprio não se entende, interessante o clima criado como se algo ruim fosse acontecer.
É um filme que retrata a leveza da juventude e as ações que tomamos quando nos tornamos adultos responsáveis, arrependimentos e medos são expostos e ficamos incapazes de fazer qualquer julgamento, a vida acontece e certas coisas acabam fugindo do controle, resta apenas conviver com as escolhas. O final amargo reflete bem essa realidade.

"Entre Nós" é um longa intimista que traz diálogos cuidadosos, além de olhares, gestos e contemplação, é uma ótima pedida para tirar aquela impressão de que cinema nacional não tem seriedade e beleza. 

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