terça-feira, 4 de julho de 2017
Raw (Grave)
"Raw" (2016) escrito e dirigido pela estreante Julia Ducournau é um filme francês que traz como tema o canibalismo, ele gerou várias polêmicas e ficou famoso por revirar estômagos em festivais mundo afora. É assim, toda vez que algum filme, principalmente de "terror" tem esse marketing a expectativa se torna alta e acaba estragando muito a experiência do espectador, vide "A Bruxa", de Robert Eggers e agora com o mais recente "O Cair da Noite", de Trey Edward Shults, então fica a dica para não se apegarem a isso porque sempre é exagerado e não expressa a verdadeira essência dos filmes, que certamente caminham não só na direção do gênero terror, mas do drama, mistério, suspense, thriller psicológico, etc. Claro, não duvido que aos mais sensíveis algumas cenas de "Raw" causem desconforto, mas não é tão repulsivo assim, o canibalismo é uma ótima e inteligente metáfora para as mudanças que vão ocorrendo na vida da protagonista.
Justine (Garance Marillier) é uma jovem introspectiva que acaba de ingressar para a universidade de medicina veterinária, área da qual sua família toda atua, inclusive lá estuda também sua irmã mais velha Alexia (Ella Rumpf), cuja não mantém mais o hábito de ser vegetariana, algo que também veio da família, Justine logo ao chegar participa de um trote, os veteranos além de banharem os calouros em sangue impõem que comam fígado de coelho, Justine não quer de forma alguma, mas sua irmã a obriga e a partir daí as consequências disso serão de fato animalescas. Ao experimentar o gosto da carne Justine começa a querer mais e então se transforma, aos poucos ela vai se libertando de sua inocência para a busca de prazeres. A faculdade é realmente um marco para muitos jovens, é o período em que uma baita transformação acontece, autoaceitação, responsabilidades, competição, amadurecimento e outras séries de questões difíceis, logo após que Justine ingere o fígado de coelho sente sua pele pinicar e ficar extremamente irritada, um anúncio de que ela não será mais a mesma.
Garance Marillier é perfeita ao passar de uma menina frágil para um animal insaciável, sua postura muda, evocando mesmo o lado selvagem, assim como o olhar felino e sorriso malicioso, e ela vai gostando dessa nova fase, se entrega.
O filme para explicitar toda a mudança se apoia no gore, há cenas sangrentas e outras muito angustiantes que focam detalhadamente em machucados, a cena dela vomitando cabelo ou a do dedo, por exemplo, incomodam bastante pelo visual. Mas, o filme não é apenas isso, nada é gratuito, o clima de tensão, o ritmo lento e o desencadeamento das situações juntamente com a trilha sonora são os maiores responsáveis por gerar desconforto.
"Raw" é um filme cru e visceral que inteligentemente une o canibalismo aos problemas vividos por qualquer adolescente, como bullying, sexualidade, identidade, relações familiares e a nada fácil transição para a vida adulta.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Dois Rémi, Dois (Deux Rémi, Deux)
"Dois Rémi, Dois" (2016) dirigido por Pierre Léon (O Idiota - 2008) é uma adaptação leve do livro "O Duplo" de Dostoiévski, que reflete sobre os conflitos da existência, as inseguranças e o desejo de ser outro. Rémi (Pascal Cervo) é um homem de 30 anos perdido na vida que não tem um bom emprego e que leva uma tímida vida amorosa. Certo dia, ele precisa dividir sua vida com um sósia, um outro dele, um ser não muito agradável e bem invasivo. A questão é, qual deles será o verdadeiro Rémi?
Rémi leva sua vida de modo pacato, divide um apartamento com o irmão Philippe (Serge Bozon), trabalha em uma empresa especializada em produtos para gatos e é apaixonado por Delphine (Luna Picoli-Truffaut - neta de François Truffaut), filha do seu patrão, a sua timidez e insegurança o travam nas decisões, principalmente as amorosas, Rémi não é sociável no trabalho e os colegas não têm muito o que dizer sobre ele. Um dia, Rémi encontra um homem parecido com ele e começa a segui-lo, então se assusta ao ver que ele é exatamente idêntico, um duplo. O Rémi dois é o oposto do Rémi um, totalmente relaxado, debochado e também um tanto chato e insensível, ele toma a vida do original, vai trabalhar no mesmo local e o engraçado é que ninguém ali questiona ou se importa com o fato de ter dois Rémi, ao contrário, ficam comparando e na maior parte do tempo indiferentes. A única pessoa que percebe algo estranho e não aceita Rémi dois é Delphine.
O filme é bem curtinho (66 min) e surpreende por seu humor, extrai leveza de um tema complexo e nos tira gargalhadas de situações inesperadas, há diálogos certeiros e extremamente atuais, demonstra a indiferença das pessoas, a completa falta de empatia, relações superficiais e automáticas e o imenso vazio que sobra disso tudo. Rémi não se relaciona muito com os outros, não chega a ser um antissocial, porém cultiva insegurança e conflitos existenciais, Rémi gostaria de ser mais determinado, ousado, falador e conquistador, percebe que seu eu não cativa os que estão próximos, daí surge seu duplo, o tal mito chamado "Doppelganger", que diz que todos têm uma cópia em algum lugar do mundo, geralmente o outro seria uma versão diferente apenas no caráter. Na história Rémi dois é mal-intencionado, esbanja carisma por onde passa, mas na verdade é um chato, Rémi a partir da chegada do seu duplo é posto em xeque por si mesmo e reflete sobre seus conflitos internos e sobre seu verdadeiro eu.
O filme é bem curtinho (66 min) e surpreende por seu humor, extrai leveza de um tema complexo e nos tira gargalhadas de situações inesperadas, há diálogos certeiros e extremamente atuais, demonstra a indiferença das pessoas, a completa falta de empatia, relações superficiais e automáticas e o imenso vazio que sobra disso tudo. Rémi não se relaciona muito com os outros, não chega a ser um antissocial, porém cultiva insegurança e conflitos existenciais, Rémi gostaria de ser mais determinado, ousado, falador e conquistador, percebe que seu eu não cativa os que estão próximos, daí surge seu duplo, o tal mito chamado "Doppelganger", que diz que todos têm uma cópia em algum lugar do mundo, geralmente o outro seria uma versão diferente apenas no caráter. Na história Rémi dois é mal-intencionado, esbanja carisma por onde passa, mas na verdade é um chato, Rémi a partir da chegada do seu duplo é posto em xeque por si mesmo e reflete sobre seus conflitos internos e sobre seu verdadeiro eu.
"Dois Rémi, Dois" é suave, mas não deixa de ser intrigante e nos instiga a fazer um exercício de autoconhecimento e entender o como encaixamos no meio em que vivemos, é difícil permanecer seguro de si diante a "manuais" que dizem que tais qualidades são importantes num ambiente de trabalho, ou se for mais de um jeito do que outro se dará melhor na vida, isto acaba alimentando a insegurança e o desejo de ser outro. É inevitável, ainda mais nas redes sociais em que todos mostram os seus melhores lados.
A narrativa é agradável e subjetiva, joga com esses conflitos de personalidade e dualidade com a ótima e cativante atuação de Pascal Cervo, os dois Rémi são bem delineados e suas expressões preenchem a tela. Há um certo charme em muitas passagens e não tem como não sorrir e gargalhar apesar de todo o drama envolvido, exemplo disso é a cena do piano com a mãe e o irmão de Rémi. A trilha sonora concebida por Alexander Zekke é vivaz e a fotografia de Thomas Favel encanta, é um filme com características únicas e surpreende por utilizar o humor de maneira inteligente e promover questionamentos acerca de temas existenciais.
terça-feira, 27 de junho de 2017
A Morte de Luís XIV (La Mort de Louis XIV)
"A Morte de Luís XIV" (2016) dirigido por Albert Serra (O Canto dos Pássaros - 2008) é um filme austero, uma experiência cinematográfica que causa agonia, acompanhamos o findar-se de um nobre e sua impotência diante do inevitável.
Baseado nos escritos do filósofo e economista francês Saint-Simon, observamos o lento fim de um soberano. Agosto de 1715. Após sair para uma caminhada, Louis XIV (Jean-Pierre Léaud) sente uma dor na perna. Nos dias posteriores, o rei mantém seus deveres e obrigações, mas tem o sono turbulento e sofre com uma séria febre. Ele mal come e enfraquece cada vez mais. É o começo da lenta agonia do maior rei da França, cercado por seus parentes e médicos.
O reinado de Luís XIV, considerado o maior Rei da França e autoproclamando como "Rei Sol" teve um dos reinados mais longos na história europeia, entre 1643 e 1715. Foi um dos líderes da crescente centralização de poder na era do absolutismo europeu. Luís XIV escolheu como emblema o sol, pois assim como o astro era considerado forte, belo, brilhante e de poderes ilimitados. Luís XIV gostava de ser contemplado, seus afazeres e intimidades eram públicas, seus súditos assistiam ele acordar, comer, etc. Essa figura tão poderosa e esplendorosa é apagada aos poucos pela narrativa de Albert Serra, um diretor peculiar que sempre trata de assuntos incômodos de um jeito incômodo. Com ritmo lento enaltecendo o tempo e os detalhes é um filme completamente imersivo e que provoca reflexões importantes. A riqueza dos pormenores, a sutileza das ações nos faz realmente viajar no tempo e observar com total crueza o fim do Rei Sol, a câmera capta a fragilidade com excelência, Jean-Pierre Léaud - ícone da nouvelle vague - entrega um personagem denso, contido, meditativo, uma figura altiva contrapondo-se com a vulnerabilidade e amargura. O interessante e o que nos deixa inquietos é a sua falta de expressão, a única coisa que temos certeza é a sua prepotência, mas o que realmente está sendo dito por aquele olhar?
A sensação claustrofóbica é outro ponto do filme, tudo se passa num único espaço, o quarto, a agonia só cresce, estamos de fato velando-o, cada vez mais a doença do rei se agrava e médico nenhum é capaz de identificá-la e tratá-la, é chamado os melhores da época e recorrem até para métodos alternativos, como elixires, também é colocado como solução amputar, mas logo é descartada pelo rei, a angústia em não conseguir curar o rei atormenta os médicos. O que fica é a frase final: "Senhores, faremos melhor da próxima vez". Há cenas intensas e parece até que se sente o cheiro putrefato, um primor, seja na condução da narrativa, na composição visual, os figurinos, objetos, detalhes que enchem os olhos, como na sua belíssima fotografia, onde se trabalha os efeitos de luz e sombra através da iluminação natural de velas, isso tudo dá uma atmosfera sufocante que incomoda e fascina.
A melancolia que o filme traz também é a de associar o definhamento do Rei ao envelhecimento de Léaud, o eterno Antoine Doinel de "Os Incompreendidos", somos colocados de frente à realidade do tempo e de que a morte é sempre solitária e dolorosa, pesa pensar nela e, principalmente, quando se está próximo o sentimento de "entrega" causa desespero, amargura, e a solidão se torna pungente, o fato é que independente de ser nobre ou não ninguém possui o poder de driblá-la, o filme reflete sobre velhice e finitude, mas, sobretudo, capta os sentimentos e sensações de Luís XIV, um ícone, símbolo de poder absoluto nos momentos que antecedem seu derradeiro fim.
"A Morte de Luís XIV" é um filme interessante, desconfortável e maravilhoso, porém muito particular, mas certamente marcante.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Nine Lives - Cats in Istambul (Kedi)
"Em Istambul, gatos são mais do que apenas gatos. Eles personificam o caos, a cultura, a singularidade essencial de Istambul. Sem o gato, a cidade perderia parte da alma. E não há nada igual no mundo."
"Kedi" (2016) dirigido pela turca Ceyda Torun é um documentário mágico e fascinante, principalmente aos que amam gatos. Mas Kedi não é um documentário sobre gatos de casa ou os gatos vadios que você ocasionalmente vê no seu quintal. Kedi é um filme sobre milhares de gatos que percorreram a metrópole de Istambul livremente por milhares de anos, vagando dentro ou/e fora das vidas das pessoas, as impactando de muitas formas, um animal que vive entre o mundo da vida selvagem e o domesticado. Os gatos e seus gatinhos trazem alegria e propósito para aqueles que os escolhem, dando às pessoas uma oportunidade para refletir sobre a vida e seu lugar nela, especialmente em Istambul, onde os gatos são os espelhos para seus habitantes.
Encantador observar o como a cidade se relaciona com os gatos, é algo cultural, característico de Istambul, eles andam livremente pelas ruas, descansam em cafés, barracas e a maioria da população foi tocada de alguma maneira por esses bichanos, a alegria de contar as peripécias, os apelidos que lhes dão, impressionante e emocionante ver o como as pessoas zelam e os respeitam. Há um mistério envolvendo a cidade e os gatos, a predominância da cultura muçulmana e seu respeito pelos felinos é um fator, os gatos são admirados e reverenciados por sua limpeza, e têm permissão para entrar em mesquitas. Acredita-se que um muçulmano que faz mal para os gatos será gravemente punido na vida após a morte. Outra explicação seria que Istambul foi um dos principais portos da região, tanto nos navios que ali chegaram quanto, mais tarde, durante a expansão da cidade com os otomanos e a construção dos primeiros sistemas de esgoto, os gatos mostraram seu valor no controle de roedores e ganharam terreno no coração dos moradores de Istambul. O elo é forte e todo o sentimento é retratado perfeitamente no documentário.
Gatos são animais incríveis, dotados de personalidade, cada gato tem a sua, por exemplo, somos apresentados a sete gatos, a caçadora, a amante, a psicopata, o sociável, a ladra, o cavalheiro e o jogador, todos eles exibem suas características únicas que faz com que as pessoas ao redor os admirem e os respeitem, há um enorme sentimento de proteção em torno deles e por isso são tão livres e despachados. Os gatos têm seu lugar em Istambul, eles fazem parte do cenário e da identidade do lugar.
Encantador observar o como a cidade se relaciona com os gatos, é algo cultural, característico de Istambul, eles andam livremente pelas ruas, descansam em cafés, barracas e a maioria da população foi tocada de alguma maneira por esses bichanos, a alegria de contar as peripécias, os apelidos que lhes dão, impressionante e emocionante ver o como as pessoas zelam e os respeitam. Há um mistério envolvendo a cidade e os gatos, a predominância da cultura muçulmana e seu respeito pelos felinos é um fator, os gatos são admirados e reverenciados por sua limpeza, e têm permissão para entrar em mesquitas. Acredita-se que um muçulmano que faz mal para os gatos será gravemente punido na vida após a morte. Outra explicação seria que Istambul foi um dos principais portos da região, tanto nos navios que ali chegaram quanto, mais tarde, durante a expansão da cidade com os otomanos e a construção dos primeiros sistemas de esgoto, os gatos mostraram seu valor no controle de roedores e ganharam terreno no coração dos moradores de Istambul. O elo é forte e todo o sentimento é retratado perfeitamente no documentário.
Gatos são animais incríveis, dotados de personalidade, cada gato tem a sua, por exemplo, somos apresentados a sete gatos, a caçadora, a amante, a psicopata, o sociável, a ladra, o cavalheiro e o jogador, todos eles exibem suas características únicas que faz com que as pessoas ao redor os admirem e os respeitem, há um enorme sentimento de proteção em torno deles e por isso são tão livres e despachados. Os gatos têm seu lugar em Istambul, eles fazem parte do cenário e da identidade do lugar.
A cada cena e história contada compreendemos a relação da população com os gatos, as calçadas com casinhas, água e comida, pessoas que se dispõem a andar pelas ruas os alimentando, pescadores, feirantes, donos de cafés e restaurantes, artistas revelando o poder de mudança em suas vidas quando se respeita e se dedica a esses seres que precisam tanto, porque mesmo que tenha essa aura linda em torno da cidade e os gatos existem inúmeros problemas, novas construções, ruas perigosas, uma infinidade de coisas que abrangem grandes metrópoles.
"Um gato miando no seu pé e olhando para você é a vida sorrindo para você. É nesses momentos que temos sorte, pois eles nos lembram de que estamos vivos."
"Kedi" é um mimo para os que amam esses bichanos, emociona, diverte e também nos faz refletir, estamos todos juntos, coexistindo e ocupando o mesmo espaço, por isso respeitá-los e ajudá-los é o mínimo que podemos fazer, quantas pessoas não enxergam ou até maltratam, os colocam numa categoria inferior, mas a verdade é que quando convivemos juntos tudo muda, a relação de carinho com o gato é uma experiência gratificante, pois eles são observadores e se expressam em detalhes, diferente do que dizem que são frios e selvagens, conquistar um gato requer tempo e dedicação, mas vale a pena, pois o amor dado em troca será sincero.
"Você só pode amar se seu coração estiver aberto. A vida é bela quando você olha as coisas com amor. Se você puder aproveitar a presença de um gato, um pássaro ou uma flor, o mundo todo será seu. É o que eu digo."
Istambul é fascinante em muitos aspectos, única cidade do mundo situada em dois continentes, capital de impérios, tradições que se colidem, o velho e o novo, a efervescência, sua arquitetura exuberante e esta adorável relação com os gatos que acrescenta uma imensa beleza. Tudo é primoroso nesse documentário, os gatos, os lugares, as pessoas, as histórias contadas, a riqueza cultural, as musiquinhas.... Poesia!
"Os problemas que os gatos de rua ou outros animais enfrentam não são independentes dos nossos. Seria mais fácil ver os gatos de rua como um problema e lidar com eles como se fossem. Mas, se pudermos aprender a viver juntos novamente, talvez nossos problemas também sejam resolvidos com os deles. Tenho certeza de que poderíamos recuperar nosso senso de humor e recuperar nossa alegria de viver, que anda cada vez mais fraca."
quarta-feira, 21 de junho de 2017
Tirésia
"Tiresia" (2003) dirigido por Bertrand Bonello (Nocturama - 2016) é um longa francês peculiar e atraente, disserta sobre masculino e feminino e o poder de transformação do ser humano.
Para uma melhor compreensão é bom que se saiba sobre o mito grego do qual intitula a obra, Tirésias todo dia ia ao templo fazer suas orações, um dia ao sair encontrou um casal de cobras venenosas copulando, ambas se voltaram contra ele e então atirou uma pedra na fêmea, assim Tirésias transforma-se numa mulher e torna-se em uma prostituta famosa. Tempos depois indo ao mesmo templo orar encontrou outro casal de cobras copulando e novamente interrompeu o ato, dessa vez matando o macho e assim tornando-se homem novamente. Como Tirésias tinha passado pelos dois sexos, Zeus e Hera o chamaram para uma discussão sobre quem teria mais prazer na relação sexual, Hera dizia que era o homem, Zeus dizia que era a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma". Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da previsão. Dentro deste contexto somos absorvidos pela estranha narrativa de Bonello, Tirésia, em seu primeiro momento (Clara Choveaux), é um transexual brasileiro que vive com seu irmão se prostituindo nos subúrbios de Paris. Certa noite ela encontra Terranova (Laurent Lucas), um homem distante, misterioso, que fica obcecado e a sequestra. No cárcere e sem as doses regulares de hormônios que tomava para adquirir formas femininas, Tirésia volta à sua forma masculina original (Thiago Telès). Decepcionado, Terranova cega Tirésia e o abandona em uma floresta, onde é resgatado pela jovem Anna (Célia Catalifo), que o leva à igreja local, onde volta a se recuperar, definitivamente na forma masculina.
Para uma melhor compreensão é bom que se saiba sobre o mito grego do qual intitula a obra, Tirésias todo dia ia ao templo fazer suas orações, um dia ao sair encontrou um casal de cobras venenosas copulando, ambas se voltaram contra ele e então atirou uma pedra na fêmea, assim Tirésias transforma-se numa mulher e torna-se em uma prostituta famosa. Tempos depois indo ao mesmo templo orar encontrou outro casal de cobras copulando e novamente interrompeu o ato, dessa vez matando o macho e assim tornando-se homem novamente. Como Tirésias tinha passado pelos dois sexos, Zeus e Hera o chamaram para uma discussão sobre quem teria mais prazer na relação sexual, Hera dizia que era o homem, Zeus dizia que era a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma". Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da previsão. Dentro deste contexto somos absorvidos pela estranha narrativa de Bonello, Tirésia, em seu primeiro momento (Clara Choveaux), é um transexual brasileiro que vive com seu irmão se prostituindo nos subúrbios de Paris. Certa noite ela encontra Terranova (Laurent Lucas), um homem distante, misterioso, que fica obcecado e a sequestra. No cárcere e sem as doses regulares de hormônios que tomava para adquirir formas femininas, Tirésia volta à sua forma masculina original (Thiago Telès). Decepcionado, Terranova cega Tirésia e o abandona em uma floresta, onde é resgatado pela jovem Anna (Célia Catalifo), que o leva à igreja local, onde volta a se recuperar, definitivamente na forma masculina.
Terranova é um ser recluso que aprecia arte e tem pretensões poéticas ao sequestrar Tirésia, esta que se destaca aos olhos dele por sua bela forma e que o intriga por sua transformação. Ele a admira, observa-a no dia a dia que pouco a pouco sem os hormônios vai perdendo as características femininas, a barba cresce, a voz engrossa, Terranova vai atrás dos hormônios, porém, sem sucesso decide abandoná-lo numa estrada, mas antes cega Tirésia. Esta primeira parte do filme é instigante e provoca uma série de questões envolvendo gêneros, também exerce um grande fascínio pela maneira com que é abordado o tema, o clima é de total tensão. A interpretação de Laurent Lucas com seu olhar vidrado de curiosidade e seu silêncio incomoda, e Clara Choveaux exprime perfeitamente o medo, a solidão, e encanta quando canta uma cantiga popular brasileira, "Terezinha de Jesus", que mexe com Terranova.
Após ser deixado na beira da estrada a história ganha novos tons e até parece ser um outro filme, a passagem é realmente brusca, Tirésia, interpretado por Thiago Telès é acudido por Anna, uma jovem muda que vê em Tirésia um propósito. Laurent Lucas nesta parte interpreta um padre, o que causa uma grande confusão, mas representa a dualidade. Tirésia aceita a transformação e o dom da premonição e muitas pessoas vão até ele lhe oferecendo presentes, a curiosidade e o desejo de saber o que acontecerá move as pessoas.
Sombrio, melancólico e incômodo, a experiência para quem o assiste é única, abarca muitas questões sem apresentar necessariamente respostas, somos deixados à deriva ao final matutando tudo o que vimos, absorvendo e tentando pelo menos um pouco compreender este enigma chamado ser humano.
terça-feira, 20 de junho de 2017
Viva
"Viva" (2015) dirigido pelo irlandês Paddy Breathnach (Blow Dry - 2001) é um filme ambientado em Cuba que reflete sobre questões importantes, como preconceito, família e sonhos com total firmeza e também delicadeza, o protagonista causa empatia e o acompanhamos nesta jornada de aprendizado, onde o resgate do amor e o sonhar se misturam. Uma bela história, tão essencial para todos nós refletirmos.
Quando tudo está à venda, qual o preço do amor? Jesus (Héctor Medina) é maquiador de um grupo de drag queens em Havana, mas sonha em se apresentar. Quando ele finalmente tem a chance de estar no palco, um estranho surge da multidão e bate em seu rosto. O estranho é seu pai Angel (Jorge Perugorría), um antigo lutador, que estava ausente por 15 anos de sua vida. Com pai e filho em conflito sobre suas expectativas opostas um do outro, Viva é uma história de amor sobre homens que lutam para se entender e voltar a ser uma família novamente.
Seguimos Jesus em seu cotidiano, pelas ruas de Cuba, a sua luta solitária para se sustentar arrumando cabelos de velhinhas e escovando as perucas das drags numa casa noturna, seu maior desejo é se apresentar e um dia surge a oportunidade, então se monta e entra no palco, Mama (Luis Alberto García), que comanda tudo por lá o protege dando conselhos, o incentiva ensinando a arte do espetáculo, Jesus realiza seu sonho passeando pelo salão interpretando, mas de repente leva um soco de um homem, que diz ser seu pai. Angel se instala na antiga casa e Jesus não se altera, mas fica chocado pela volta do pai que foi preso quando ainda era pequeno, Angel o proíbe de frequentar a casa de shows, o único sustento de Jesus, e daí esperamos uma reação mais enfática dele, mas não, por muitas vezes nos perguntamos o motivo desse garoto não o expulsar de lá, suas atitudes perante esse pai nos fazem refletir muito, sobre a importância de ter alguém da família por perto, um fator interessante é que o pai de Jesus não se importa dele ser gay, o que o incomoda é ele se montar, ele é um homem durão, ex-lutador que afundou a carreira cometendo um crime, está no fundo do poço, não consegue arranjar emprego e passa os dias a beber e a fumar. Jesus por um bom tempo acaba apelando para a prostituição, já que nada ganha arranjando os cabelos das velhinhas, tudo o que consegue é para comprar comida.
A relação com o pai vai tomando uma outra forma quando Angel fica doente e Jesus cuida dele, a proximidade dá a chance desse pai entender o como seu filho tem um coração bom, e aos poucos se livrando desse preconceito e entendendo o sonho de Jesus, que amadurece e ganha ainda mais forças para seguir em busca do que quer.
O filme passeia por vários temas, como família, preconceito, sonhos e se aprofunda em cada um deles, é extremamente bela a interpretação de Héctor Medina, causa grande empatia, seus olhos jorram sentimentos, uma delicadeza melancólica, Jorge Perugorría também excelente em sua figura machista que se transforma pela bondade do filho, e sem deixar de enaltecer a interpretação de Luis Alberto García como Mama, que representa a maturidade e força. Outro ponto a se destacar é a intensa e dramática trilha sonora, boleros de se jogar no chão de tanto chorar, por exemplo, "El Amor".
O filme passeia por vários temas, como família, preconceito, sonhos e se aprofunda em cada um deles, é extremamente bela a interpretação de Héctor Medina, causa grande empatia, seus olhos jorram sentimentos, uma delicadeza melancólica, Jorge Perugorría também excelente em sua figura machista que se transforma pela bondade do filho, e sem deixar de enaltecer a interpretação de Luis Alberto García como Mama, que representa a maturidade e força. Outro ponto a se destacar é a intensa e dramática trilha sonora, boleros de se jogar no chão de tanto chorar, por exemplo, "El Amor".
"Viva" é lindo e sua beleza e força de expressão já começa pelo título, uma exultação triste e feliz ao mesmo tempo, mas libertadora. A transformação, a aceitação que se dá no fim exemplifica perfeitamente, uma cena marcante e uma lição que todos deveriam aprender.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Amor em Dobro (Twin Falls Idaho)
"Twin Falls Idaho" (1999) dirigido por Michael Polish (For Lovers Only - 2010) é um filme peculiar que retrata com sensibilidade o relacionamento dos reclusos irmãos siameses Blake e Francis, o compartilhamento tanto físico como emocional, as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas completamente diferentes, e a chegada de uma garota que muda não só a rotina mas também os sentimentos.
Escrito pelos cineastas irmãos Michael Polish e Mark Polish, "Twin Falls Idaho" é uma pérola indie delicada, certamente o fato de na vida real os cineastas serem irmãos gêmeos contribuiu para o tom natural da história, aliás, a interpretação melancólica e reflexiva deles é sublime, todo o contexto é belo e inúmeras questões surgem a partir do momento que os conhecemos e observamos tanto as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas opostas e também o compartilhamento e a generosidade entre eles. O título em português "Amor em Dobro" não reflete absolutamente nada da história, é pobre e aparenta ser um romance comum água com açúcar, portanto, não utilizarei no texto.
Blake (Mark Polish) e Francis Falls (Michael Polish) são literalmente grudados, tímidos moram em um hotel decadente e sonham reunir-se com sua mãe biológica, que os abandonou. Eles encontram sua porta de entrada para o mundo exterior através de uma excêntrica jovem prostituta chamada Penny (Michele Hicks). Eles concordam em participar de uma festa de Halloween com Penny e fingir estar vestindo uma fantasia de irmãos siameses. O filme ainda trata sobre seus problemas de saúde, a evolução da relação entre os irmãos e a relação de amizade com Penny.
Escrito pelos cineastas irmãos Michael Polish e Mark Polish, "Twin Falls Idaho" é uma pérola indie delicada, certamente o fato de na vida real os cineastas serem irmãos gêmeos contribuiu para o tom natural da história, aliás, a interpretação melancólica e reflexiva deles é sublime, todo o contexto é belo e inúmeras questões surgem a partir do momento que os conhecemos e observamos tanto as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas opostas e também o compartilhamento e a generosidade entre eles. O título em português "Amor em Dobro" não reflete absolutamente nada da história, é pobre e aparenta ser um romance comum água com açúcar, portanto, não utilizarei no texto.
De convencional o filme não tem nada, a espécie de triângulo amoroso exibe várias nuances e passa longe da estética freak, ao contrário, os irmãos são elegantes, gentis e carregam uma melancolia sedutora, as manobras cotidianas são feitas com graciosidade apesar das complicações, e adquiriram o hábito de sussurrar um para o outro quando algo os incomoda, Penny também é uma figura interessante e chega na vida deles após ser contratada para comemorar o aniversário de 25 anos dos dois, mas toma um susto ao se deparar com a situação, sai correndo embora, porém volta para buscar sua bolsa e acaba fazendo amizade com eles, Francis está fraco e doente e com o passar do tempo se sente enciumado com a relação de Penny e Blake, que está apaixonado. Não há garantias de que um sobreviva sem o outro, Blake é forte fisicamente, mas o preço pela liberdade e individualidade é alto e quase imperdoável. Francis adoece cada vez mais e a opção pela separação se torna cada vez mais real para Blake.
"Twin Falls Idaho" é fascinante, sua aura de mistério absorve, exibe sutilezas e uma melancolia arrebatadora, além de ser extremamente empático.
Francis em dado momento diz a Penny: "A história continua, e se está triste hoje, isso pode mudar amanhã", essa frase traduz muito bem a atmosfera do filme. Certamente um exemplar peculiar e digno de aplausos por seu esmero, há cenas belíssimas carregadas de emoção e detalhes que marcam.
Francis em dado momento diz a Penny: "A história continua, e se está triste hoje, isso pode mudar amanhã", essa frase traduz muito bem a atmosfera do filme. Certamente um exemplar peculiar e digno de aplausos por seu esmero, há cenas belíssimas carregadas de emoção e detalhes que marcam.
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