segunda-feira, 30 de julho de 2018

Severina

"(…) as vidas dos indivíduos consistem em certas coisas classificáveis, divididas entre as reais, que são raras e valiosas; as simples, que são ordinárias e normais; e as fantasmas, ou ‘névoas’ — como febre, dor de dente, terríveis decepções…"

"Severina" (2017) dirigido por Felipe Hirsch (Insolação - 2010), baseado na obra do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa é um filme brasileiro/uruguaio delicado e imersivo, um exercício metalinguístico sedutor e que consegue captar perfeitamente a atmosfera literária. Melancólico, agradável, um delírio fascinante que traz um sabor amargo e ao mesmo tempo prazeroso. 
Dono de livraria (Javier Drolas) se encanta com uma mulher (Carla Quevedo) que visita sua loja e volta dia após dia para cometer furtos. Inicialmente ele não reage, mas numa das vezes, mais interessado em puxar conversa do que recuperar o prejuízo, ele a encurrala. Ela passa então a pegar livros em outros estabelecimentos, porém ele não está disposto a se libertar da misteriosa obsessão.
Somos introduzidos a um ambiente dominado por um ar literário, as ruas clássicas de Montevidéu repleta de sebos, prédios antigos, um charme romântico único, a fotografia escura acentua o clima de elegância e melancolia. Dividido em capítulos, a narrativa flui exatamente como se estivéssemos lendo um livro, as cenas são páginas que mesclam realidade aos devaneios do protagonista que se apaixona de forma obsessiva por uma moça misteriosa que entra em sua livraria e rouba livros, o livreiro consumido pelo tédio e que sonha em escrever um romance vê nela uma chance de quebrar a monotonia e viver um amor. R. promove encontros de leitura em sua livraria, lá é ponto de encontro dos bibliófilos, e num dia aparece uma moça e vasculha as prateleiras e pega alguns livros e enfia debaixo da blusa, R. a olha com admiração e espanto e nos dias que se sucedem ele parece não se importar com os roubos, mas sim em querer vê-la novamente e puxar assunto, assim quando ela volta e rouba mais alguns livros ele a prende no local e a faz devolvê-los e, por consequência, conhecê-la, mas a moça é misteriosa e não permite muitas perguntas, quando ela quer dizer algo ela diz sem a necessidade de perguntas, diz se chamar Ana e que mora com o pai em uma pensão, que rouba os livros para consumo deles próprios, pois são amantes de histórias e das muitas vidas que pululam delas.

Ana é sua musa de carne e osso, antes ele nutria-se e livrava-se do tédio com o que lia, com a enigmática moça que rouba livros se vê enredado numa narrativa que ele mesmo quer tecer, sua curiosidade é aguçada a cada visita que ela faz e seu interesse torna-se obsessivo quando ela se afasta após um sarau, eles se amam e ele a acompanha para a pensão, crê que está namorando, quer conhecer o pai/namorado e Ana diz que é complicado e que a vida é uma merda. R. desesperado por perder sua musa num impulso pega suas malas e muitos livros e se hospeda na mesma pensão a fim de encontrar Ana, no dia seguinte seus livros desapareceram junto de sua amada. O mistério cresce e o livreiro começa a procurar pistas, vai até o sebo de Ahmed (Alejandro Awada), um muçulmano ateu com grande conhecimento sobre a doutrina cristã, ele o avisa que ele não foi o primeiro a se apaixonar e que era frequente os roubos, contou algumas coisas que poderiam ser ou não verdades e que demoraria até o inverno para a moça regressar. 

Ana é um mistério, ao lado de um homem (Alfredo Castro) cuja identidade é uma incógnita vai de lá para cá, assume vidas diferentes, mas sempre roubando livros e seduzindo os livreiros, R. se apaixona pelo mistério que Ana provoca, tirando-lhe da monotonia e o transformando num desses personagens de romances clássicos com seu amor obsessivo. A trama conduz o espectador para situações que bambeiam entre realidade e surrealidade, colocando em dúvida sobre o que de fato é ou não é, seria tudo produção da mente do livreiro, ou realmente essa mulher fascinante existe? 
O filme entrelaça literatura e cinema de um jeito delicioso e deixa no espectador o sabor de um livro lido, o encanto de contemplar uma história de amor, fonte inesgotável, tanto para as criações de obras literárias quanto cinematográficas. A união dessas artes resulta num filme melancolicamente charmoso em todos os quesitos. 

"Severina" como o próprio personagem diz é um "delírio amoroso", um conto entre uma ladra de livros e um livreiro aspirante a escritor, uma ode à literatura. 
Não tem como não se apaixonar pelos lugares retratados, as ruas por onde os personagens passam, ou os interiores das livrarias remetendo à épocas passadas. Traz a magia das palavras escritas, tão esquecidas nos dias de hoje em que tudo é pressa e imagem, há uma nuvem de decadência pairando sobre esses lugares abarrotados de livros, prateleiras que guardam verdadeiras relíquias e histórias atemporais, cujas fronteiras entre realidade e imaginação são invisíveis, como outro personagem diz, "livreiros são como alquimistas". 
É um abraço apertado e gostoso entre cinema e literatura. Um mimo adorável para os bibliófilos e os cinéfilos!

"Não quero ser cruel, mas direi sem rodeios o que considero seus defeitos. E espero sinceramente que te influencie. Como a maioria das pessoas, você não é capaz de enfrentar mais de um medo na vida. Você também passa todo o seu tempo fugindo do seu primeiro medo para a sua primeira esperança. Tenha cuidado para não cair na sua própria armadilha, e terminar sempre na mesma posição em que começou. Não aconselho a passar a sua vida cercado de coisas que você chama de necessárias para a sua existência, independentemente de serem - ou não - interessantes. Acredito com sinceridade que apenas aqueles homens que podem combater dentro de si próprios uma segunda tragédia, e não a primeira repetidamente, são dignos de serem chamados de maduros. Quando você acha que alguém está indo em frente, certifique-se que este alguém não esteja, na verdade, parado no mesmo lugar. Para seguir em frente, você precisa deixar para trás coisas que a maioria das pessoas reluta em deixar. Sua primeira dor, você a carrega consigo como um ímã em seu coração. Porque toda a ternura vem daí. Terá de carregá-la por toda a sua vida, mas não pode viver em círculos em torno dela. Terá de desistir da busca daquelas coisas que servem apenas para ocultar sua face de você. Terá a ilusão de que elas são diferentes e múltiplas. Mas são sempre as mesmas. Se você está apenas interessado em uma vida segura, talvez estas palavras não sejam para você."

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