quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ao Cair da Noite (It Comes at Night)

"Ao Cair da Noite" (2017) dirigido por Trey Edward Shults (Krisha - 2015) é um filme que explora de maneira eficaz a desconfiança, o medo, a paranoia; um exemplar que usa de poucos artifícios para gerar desconforto e muita tensão. Paul (Joel Edgerton) mora com sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kelvin Harrison Jr.) numa casa solitária e misteriosa, mas segura, até que chega uma família desesperada procurando refúgio. Aos poucos a paranoia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos.
Adentramos em um mundo pós-apocalíptico supostamente destruído por um vírus, uma família tenta sobreviver em uma casa isolada na floresta, o medo de contágio é grande e qualquer ameaça é aniquilada, como a presença do sogro de Paul, que está muito enfermo. Não há informações sobre o que teria acontecido ao mundo, tudo é sugerido sutilmente e o interessante é justamente isso, não sabemos de nada, provavelmente porque até os personagens não saibam. A rotina monótona dessa família muda quando um estranho (Christopher Abbott) surge tentando entrar na casa, Paul o amarra e tenta tirar o máximo de informações do sujeito, que diz se chamar Will e estar procurando água para sua família, a dúvida em acreditar ou não nas palavras desse desconhecido atormenta por dias Paul e sua esposa, enquanto isso vemos Travis com uma expressão de estar sufocando naquele ambiente contaminado pela paranoia e desconfiança, ele sofre de pesadelos e alucinações, nestes episódios a tela reduz, comprime dando sensação de asfixiamento. Após pensarem muito se deveriam acreditar em Will, decidem receber ele e sua família na própria casa, então vão buscar a esposa e o filho de Will, mas no meio do caminho encontram outras pessoas, o que faz Paul duvidar de Will, que disse não ter encontrado ninguém, esse clima de desconfiança é amplamente explorado na história, tudo é motivo e o medo em nenhum momento desaparece. O comportamento humano diante ao desespero pela sobrevivência é assustador e o filme acerta na atmosfera criada. O horror está dentro da cabeça de cada um e as atitudes que se desencadeiam são terríveis. Há um quadro que é demoradamente filmado no início na casa de Paul, se trata de "O Triunfo da Morte", de Pieter Bruegel, este é um símbolo importante e que traduz muito da trama. O caos, o desespero, a morte.
Dentro da casa as duas famílias precisam conviver, Paul e sua mulher tem características insanas e Will vai levando por não ter outras possibilidades, mas não demora para aparecer ainda mais situações-limite, não se sabe o que está havendo, é uma doença contagiosa de que eles têm medo? O que há na floresta que ao cair da noite é proibido sair? Esse aprisionamento vai gerando entre eles hostilidade e entre uma conversa ou outra o medo do que um possa fazer com o outro vai aumentando.

Travis é introspectivo, observador e parece adoecer com a loucura dos pais, suas alucinações são um ponto de luz para o espectador, ele vai sofrendo traumas durante a história, no início precisa se livrar do avô, depois do seu querido cão, além do estranho desabrochar de seu lado sexual com a presença da esposa de Will e o culminar da tragédia final. Nunca fica claro como a doença é transmitida, se é pelo ar ou água, o que importa na trama é do que o ser humano é capaz para se proteger diante de algo desconhecido e amedrontador, é um filme que trabalha muito com a nossa imaginação e nos inquieta pela reflexão, de que independente do fator externo, o perigo está dentro da mente do ser humano, que consome-se ao lidar com a desconfiança, desespero e medo. A paranoia é crescente, são planos belíssimos juntamente a uma trilha sonora pontual que ao desenrolar vai produzindo cada vez mais desconforto.

"Ao Cair da Noite" é um thriller psicológico atmosférico impecável, não dá nada mastigado, respostas pouco importam, o pós-apocalíptico do filme é explorado de uma maneira real, em que as pessoas tentando sobreviver eliminam qualquer traço de moralidade, onde as ameaças acabam vindo de si próprios perante o medo do desconhecido. É melancólico e sutil, mas não nos poupa de momentos graves e tristes. O final é uma cacetada que fica doendo por muito tempo. 

Trey Edward Shults é um grande talento, em "Krisha", seu impressionante primeiro trabalho, um filme totalmente independente - disponível na Netflix - explora também a paranoia, porém em outro contexto. Sua destreza técnica é admirável!

Um comentário:

  1. Eu não gostei tanto quanto você. O clima de apocalipse é o melhor do filme, mas por outro lado a escolha de não dar respostas deixou a história um pouco vaga.

    Além disso, os sonhos do personagem de Kelvin Harrison Jr entregam o que aconteceria no final.

    Abraço

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