terça-feira, 6 de junho de 2017

Peles (Pieles)

"O mundo é horrível, o ser humano é horrível… Mas não podemos fugir disto. Porque nós somos o horror."

"Peles" (2017), primeiro longa dirigido pelo jovem promissor Eduardo Casanova é original, desconcertante, poético, interessantíssimo e que provoca o espectador o tempo inteiro ao colocar protagonistas com deficiências físicas e emocionais. É um drama social sombrio com pessoas deformadas e desfiguradas que precisam encontrar maneiras de esconder suas diferenças e lidar com o resto da sociedade. 
O espanhol Eduardo Casanova tem no currículo alguns curtas-metragens e inspirado por um deles, "Eat my Shit", concebeu este longa repleto de reflexões, além de ter na produção um dos nomes mais irreverentes do cinema espanhol, Álex de la Iglesia (As Bruxas de Zugarramurdi - 2013). Somos apresentados a alguns personagens que visualmente incomodam, não sabemos lidar com o que vemos, o diferente é assim mesmo, causa repúdio, mas conforme vamos adentrando na vida de cada um percebemos as dores de se viver em uma sociedade que prima pelo superficial e esquece-se do que importa realmente. 
Laura vivida pela ótima Macarena Gómez (Ninho de Musaranho - 2014) não possui olhos, mas utiliza no lugar dois grandes diamantes rosas, há muita ingenuidade e carência afetiva nela, é usada por pessoas que gostam de "aberrações", a casa onde trabalha tem dos mais variados tipos bizarros, essa foi a sua maneira de se esconder. Ao longo vários personagens se cruzam, um mosaico interessante se forma e inúmeros pensamentos são abertos. Outra figura bastante peculiar e das que causam mais desconforto é Samantha (Ana Polvorosa), que teve o infortúnio de nascer com o ânus no lugar da boca e vice-versa, ela vive de forma solitária, o pai faz de tudo para que ela não apareça, só que em vários momentos a vemos fora de sua casa e sempre passando por alguma situação chata em que tiram sarro ou até a violentam, em determinado momento seu caminho se liga ao adolescente Cristian (Eloi Costa), que tem o sonho de ser uma sereia, não reconhece as suas pernas e vive tentando arrancá-las, o seu pai, um pedófilo, o abandonou quando nasceu por precaução e a relação com a mãe é conturbada por ela não saber como lidar com ele. Também há a anã Vanesa (Ana María Ayala) que trabalha num programa infantil vestida de urso e que luta para ser vista como uma mulher normal, Ana (Candela Peña) que tem metade do rosto desfigurado e seu namorado Guille (Jon Kortajarena), que tem o rosto totalmente queimado, eles estão juntos por se sentirem iguais, mas com o desenrolar entram em conflitos, e Ana ainda tenta se desvencilhar de um homem que a ama justamente por sua deficiência. Outros personagens surgem, se cruzam sutilmente e refletem as dificuldades, as dores, a solidão e a superação de cada um para tentar se encaixar num mundo onde o que faz sentido é apenas a aparência, a superfície.

O filme impressiona por seu perfeccionismo e sua paleta de cores que consiste no rosa e roxo em absolutamente tudo, está em figurinos, paredes, móveis, objetos. O exagero, a ousadia não é pouca e certamente é isto que nos chacoalha e nos tira do lugar comum e faz com que pensemos porque achamos tão estranho o que estamos vendo, percebemos o quão cruel é a raça humana que usa, exclui e maltrata os que consideram mais fracos e diferentes. Por mais absurdo que pareça ser é um exemplar primoroso que irá atingir a consciência de cada um de formas distintas e irá permitir diversas análises. 

"A pele muda. Sofre cirurgias, envelhece ou se transforma. A aparência física não é nada. Absolutamente nada."

Em "Peles" muitos temas são abordados, como preconceito, rejeição, superação, pessoas marginalizadas que são usadas em função de dinheiro, entretenimento, fetichismo, como a anã explorada no programa infantil e Laura na prostituição, digerir todas as questões envoltas neste filme requer tempo, há muito o que se pensar. Uma obra sincera que desconstrói e atinge pelo bizarro, nada mais que um espelho da realidade. Um achado dentro do catálogo da Netflix! 

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