terça-feira, 18 de outubro de 2016

Uma História de Loucura (Une Histoire de Fou)

"Uma História de Loucura" (2015) dirigido por Robert Guédiguian (As Neves do Kilimanjaro - 2011, O Fio de Ariane - 2014) é um filme humanista que coloca dois personagens distintos frente a frente, um conto de generosidade e um admirável trabalho no que confere a seu contexto histórico e do qual a trama se baseia, o genocídio armênio, este que foi um episódio horroroso da História, mas que não é lembrado e nem estudado como deveria. O filme levanta questões importantes sobre terrorismo, conflitos étnicos e a luta dos armênios pela reparação histórica.
O filme inicia-se com um prólogo em preto e branco que explica que existem outros tipos de guerras, elas continuam em decorrência de tanta intolerância e violência. "Eu penso que os momentos mais importantes da História não aconteceram nas guerras, nem em palácios, nem em corredores de parlamentos, mas em cozinhas, em quartos de casais e quartos de crianças. Talvez seja por isso que quando as guerras começam, elas nunca têm fim. Elas continuam de outras formas." No início do século XX, Talaat Paxa, turco responsável pelo massacre armênio é morto com um tiro na cabeça pelo sobrevivente armênio Soghomon Tehlirian, que acaba sendo absolvido pelo tribunal alemão e se torna um herói. Essa execução foi muito mais do que uma vingança, foi um elaborado plano da chamada Operação Nêmesis.
Após essa introdução a história anda duas gerações, no final dos anos 70 e centra-se em Aram (Syrus Shahidi), um rapaz de Marselha, de origem armênia que tem como ídolo Tehlirian, ele não é passivo como seu pai, então se embrenha na luta armada e explode o carro do embaixador turco em Paris. Um jovem ciclista que estava por perto fica gravemente ferido. Enquanto ele tenta entender o que aconteceu, a mãe de Aram entra em seu quarto de hospital e pede perdão. Daí observamos o drama de Gilles (Grégoire Leprince-Ringuet) que perde os movimentos das pernas e a sua obsessão por Aram depois que Anouch (Ariane Ascaride) o visita no hospital. Ele confuso com a nova situação vai parar na casa da família de Aram, que o hospedam e o tratam com carinho, Anouch tentará uma ponte entre os dois, no que ocasionará consequências inesperadas. Aram vive o cotidiano da guerrilha e com o tempo se questiona se vale a pena tirar vidas de inocentes em prol da visibilidade da luta. O filme propõe ao espectador que é preciso rever nossos conceitos perante os outros, nos colocarmos na pele e saber que cada um tem a sua própria motivação na vida.

O diretor Robert Guédiguian sempre com olhar afetuoso retrata as transformações que seus personagens sofrem por conta das escolhas. Outro ponto a acrescentar nesta belíssima e importante obra, é o diálogo que acontece sobre o modo que se vira uma página, a mãe de Aram diz: "existem páginas que nunca viramos". O genocídio armênio precisa ser lembrado, estima-se segundo registros oficiais que entre 600 mil e 1,8 milhão de pessoas foram mortas, enquanto outras centenas de milhares ficaram sem pátria. Não dá para acreditar que este pedaço da História ainda seja negado ou omitido por diversos países, inclusive a Turquia.

"Uma História de Loucura" tem a excelente qualidade de fazer que o espectador veja todos os ângulos da história e se coloque no lugar dos personagens, não julgando se está certo ou errado, mas simplesmente questionando a si próprio sobre o que faria em tal situação. A loucura parece não estar no ódio e na intolerância, mas no ato de ser gentil com o outro, esta parece ser a maior insanidade nos dias de hoje.

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