quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vulcão (Eldfjall)

"Vulcão" (2011) dirigido pelo islandês Rúnar Rúnarsson (Sparrows - 2015) é um drama intenso que lentamente mostra um personagem que se desconstrói ao longo da trama. Inevitável não pensar no valor da vida e no como estamos agindo. É a história de amadurecimento de um homem de 67 anos de idade. Quando Hannes (Theódór Júlíusson) se aposenta de seu emprego como zelador, começa o vazio que é o resto de sua vida. Ele está afastado de sua família, quase não tem amigos e o relacionamento com sua esposa está desgastado. Por meio de eventos drásticos, Hannes percebe que ele tem que ajustar sua vida a fim de ajudar alguém que ama.
Não tem como não associar este filme ao "Amour" (2012) de Haneke, existem muitas similaridades e o desfecho é o mesmo, talvez Haneke tenha se inspirado, ou seja apenas uma coincidência, vai saber... O grosso da história é parecido, mas os elementos são diferentes, por exemplo, a melancolia entranhada, o ambiente ajuda nessa sensação, a Islândia tem esse poder por si só. É bom enaltecer este longa, pois "Amour" veio depois e se sobressaiu, ganhou inúmeros prêmios, já "Vulcão" ficou desconhecido. Rúnar Rúnarsson é um exímio diretor, tem uma sensibilidade ímpar, consegue extrair beleza da tristeza. É um filme silencioso que cresce e nos leva junto com seu personagem. 
Hannes é rabugento e visto por todos como um infeliz, depois que se aposenta percebe que sua vida não tem sentido, destrata os filhos, os netos e sua mulher Anna (Margrét Helga Jóhannsdóttir). Nada o agrada, briga por coisas banais e não compartilha da felicidade dos filhos, está sempre prestes a entrar em erupção, mas após ouvir uma conversa de seus filhos se dá conta do como é visto, sua personalidade muda também após escapar de um acidente marítimo. Sua redenção chega atrasada, percebeu tarde demais o quão distante e ríspido estava sendo, depois de passar uma noite agradável com a esposa, ela é acometida por um derrame gravíssimo, Anna fica paralisada e perde totalmente a noção do real, Hannes decide cuidar dela em casa, mesmo os filhos sendo contra, ele sabe que não há nada que possa reverter este quadro e dia após dia vê o sofrimento aumentar, sua mulher que na noite anterior lhe despertou desejo, agora vegeta e apenas urra, então nasce um sentimento de humanidade, vê fotos e vídeos de seu passado e percebe que precisa tomar uma decisão, aos poucos compreende os acontecimentos e faz o que precisa ser feito. 
Hannes diante de uma situação inesperada tenta se posicionar, antes um homem frio e aborrecido se transforma numa pessoa afável. É pela dor que ele renasce.

O título se dá porque Hannes se mudou com a família de sua ilha natal devido uma erupção vulcânica, esse episódio permeia a vida de Hannes, o desejo de retornar o persegue, mas há muito se estabeleceu na cidade, e ele é o próprio vulcão, um homem irritadiço que as pessoas temem ficar perto, por muitas vezes ele espalha sua lava que contamina o ambiente e afugenta todos ao redor. Mas mesmo tendo esse aspecto rochoso seu interior é feito de fragilidades, as cenas que demonstram suas fraquezas são as mais impressionantes. 
Com tom pessimista, cru em sua abordagem, é imensamente bonito em sua tristeza, traz à tona um tema difícil de digerir. "Vulcão" expõe com sinceridade o drama que é envelhecer, muitas vezes nos damos conta do amor pelas pessoas que nos rodeia tarde demais, e daí recomeçar exige grande força.

2 comentários:

  1. Pelo seu texto, deve ser um filme tão doloroso quanto "Amor", que por sinal é um filmaço.

    Até mais

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  2. Muito bom saber e ler mais uma página sobre assuntos referentes as terras que poucos conhecemos, a não ser por canal como esse.
    Gostei muito seguirei suas publicações através desse blog.
    Abraço

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