terça-feira, 20 de setembro de 2016

Perfeitos Desconhecidos (Perfetti Sconosciuti)

"Perfeitos Desconhecidos" (2016) dirigido pelo italiano Paolo Genovese (Tutta Colpa di Freud - 2014) tem um enredo atualíssimo que brinca com a forma que lidamos com as redes sociais, a relação de dependência com o celular, e especificamente segredos que algumas pessoas guardam em seus celulares, são tantos meios de comunicação que fica impossível desgrudar os olhos da tela, desligar o aparelho então nem pensar, a ansiedade por uma mensagem, um convite, uma curtida deixa sempre todos alerta, dividindo a atenção entre o real e o virtual. Mas acontece que as pessoas tem várias vidas, uma pública, uma privada e uma em segredo, partindo dessa frase dita por Gabriel García Marquez, acompanhamos um jantar, onde encontram-se sete amigos, quatro homens e três mulheres, na mesa surge a ideia de um jogo, onde todos colocam seus smartphones a fim de compartilharem suas mensagens e ligações durante o jantar, mostrando assim que não têm nada a esconder de seus parceiros. A ideia não é bem vista por alguns, porém já compromete-se quem falar não, os rostos ficam tensos e o jantar se desenrola até que algumas revelações e mal-entendidos surgem.
Eva (Kasia Smutniak) é terapeuta e é casada com o cirurgião plástico Rocco (Marco Giallini), eles tem uma filha adolescente que não se entende com a mãe, mas tem um forte laço com o pai, o casal passa por problemas por conta disso, porém resolvem juntar os amigos em um jantar, Cosimo (Edoardo Leo) e Bianca (Alba Rohrwacher) recém-casados e apaixonados, Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta) que se distanciaram, mas fingem estar bem. E o sétimo convidado é Peppe (Giuseppe Battiston), que é aguardado com impaciência, pois apresentará sua namorada, só que ao chegar dá a desculpa de que ela está doente. Todos subestimam Peppe e por isso ele não conta muito sobre sua vida. 
O filme é uma comédia de humor negro com roteiro super elaborado, tem grandes sacadas e momentos constrangedores, a ideia de colocar os celulares em cima da mesa para que todos saibam quem liga ou manda mensagens faz com que as máscaras caiam e segredos apareçam, o clima fica pesado e o desconforto entre eles torna tudo intragável.
Quem nunca se perguntou o que tanto o seu amor olha no celular, a curiosidade de vasculhar, de dar aquela olhadinha, "o será que..." atormenta muitos relacionamentos, o filme coloca o dedo exatamente nesta ferida e faz crítica de modo inteligente. Todos ali na mesa têm rabo preso, uns mais que outros, eles fingem serem melhores amigos, compreensivos, fiéis, leais e que se amam independente de qualquer coisa.

É fato que o celular é praticamente um membro a mais do corpo de muito ser humano por aí, difícil é encontrar uma pessoa que não se sinta com a sensação de algo faltando quando não está com o seu aparelho, é uma compulsão por saber das informações, que na maioria das vezes são inúteis e supérfluas, óbvio que é uma ótima forma de comunicação, mas saber quando parar devia ser predominante, especialmente quando se compartilha da companhia real de alguém, em muitos casos enquanto você está lá, o outro está mais interessado numa conversa virtual, ou tirando fotos da ocasião sem a vivenciar de fato. 

Com roteiro e interpretações impecáveis, diverte e reflete sobre nosso comportamento com o celular, a sensação de constrangimento permeia uma boa parcela da história, explora questões que fazem parte da vida de todos nós, mais atual impossível, discute acerca do como a tecnologia interfere nas relações amorosas, a divisão de atenção entre a relação real e as interações virtuais, além de mostrar o quão vulneráveis somos, confiando na "caixa preta", como um dos personagens define o celular, para esconder deslizes, segredos íntimos e outras bobagens constrangedoras.

Um comentário:

  1. É a premissa é interessante e como vc bem citou, extremamente atual.

    Anotado.

    Abraço

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