quarta-feira, 28 de setembro de 2016

As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro)

"As Neves do Kilimanjaro" (2011) dirigido por Robert Guédiguian (O Fio de Ariane - 2015) inspirado no poema "Os Pobres", de Victor Hugo, é um filme que exala humanidade e amor ao próximo, nos faz enxergar além de nós mesmos e perceber a dor alheia. Retrata sem clichês a crise econômica que assola e a complexidade na relação de classes.
Apesar de ter perdido o emprego, Michel leva uma vida feliz com Marie-Claire. Eles estão apaixonados há mais de 30 anos, seus filhos e netos lhes dão alegria e vivem cercados de amigos próximos. Ambos se orgulham de sua luta política e seus valores morais. Mas a felicidade do casal é interrompida quando dois homens armados e mascarados os amarram e atacam violentamente, roubando o dinheiro que tinham guardado para fazer uma viagem ao monte Kilimanjaro. Michel e Marie-Claire ficam ainda mais chocados quando descobrem o autor do ataque.
O filme propõe que pensemos no outro, os personagens vivem uma vida boa, se viram como podem, não são ricos, mas também não são pobres, são trabalhadores. Michel (Jean-Pierre Darroussin) líder sindical fica com a missão de sortear as pessoas que serão demitidas, entre tantos ele acaba perdendo seu emprego também, o amigo fica indignado por isso, mas Michel jamais seria capaz de não colocar seu nome na caixinha. A sua esposa Marie-Clarie (Ariane Ascaride) trabalha como acompanhante de uma senhora de idade, o casal está junto há muito tempo e mesmo estando desempregado agora, dão um jeito, logo ele se aposentará e receberá alguns benefícios dos anos de trabalho. Os filhos já crescidos, casados e com filhos resolvem presentear os pais com uma caixinha de madeira que contém algum dinheiro e duas passagens para o monte Kilimanjaro, no norte da Tanzânia, isso acontece na festa de aniversário de casamento deles, onde estão reunidos vários amigos, inclusive as pessoas recém-demitidas. Emocionados ao receber tal presente, inclusive ao som de "Les Neiges du Kilimandjaro", de Pascal Danel, comemoram e logo começam a se preparar para a viagem. Mas, durante uma noite aparentemente sossegada junto de seus melhores amigos, são roubados e atacados violentamente, traumatizando-os. Os ladrões levam a caixinha, os cartões do banco e um gibi antigo, artigo único que terá uma função importante na história.
Sem dúvida um acontecimento triste, uma experiência da qual ninguém deveria passar, após relatarem a polícia o ocorrido e com o passar dos dias, ao acaso, Michel acaba descobrindo um dos autores do crime, o que o deixa inconformado, foi um dos rapazes demitidos que estava na festa e os viu ganharem o presente. O moço é preso e a vida do casal muda, pois ele tem dois irmãos menores que ficaram órfãos. Essa situação faz com que Marie-Claire e Michel repensem a sua decisão e o papel deles nessa sociedade, que infelizmente, não viabiliza a humanidade.

O filme de Robert Guédiguian não é utópico, há delicadeza na forma que expõe seus personagens, eles não são perfeitos, pelo contrário, são repletos de erros, mas refletem no que poderiam fazer para mudar a situação, a viagem que não se concretizará não os fará menos felizes, tudo o que aconteceu certamente transformou a maneira deles viverem.
Não é fácil suscitar mensagens de solidariedade, vivemos numa sociedade violenta por conta da pobreza, e por isso não há espaço para a generosidade, pensamos na nossa segurança, bem-estar e só. O filme retrata que em qualquer parte do mundo existe o não encaixe nas determinadas classes sociais, por exemplo, Michel e Marie-Claire não são burgueses, sempre trabalharam, criaram seus filhos e abdicaram de muito nas suas vidas para terem um pouco de conforto, mas para aqueles que não têm o que comer, são caracterizados burgueses.

"A coragem é compreender sua própria vida, harmonizá-la, aprofundá-la, estabelecê-la e coordená-la, apesar do senso comum."

"As Neves do Kilimanjaro" é um belo conto de generosidade que traz profundas questões sociais. Será que algumas ações, como roubar em determinadas circunstâncias, são justificáveis? O fato é que as condições de vida são diferentes para cada um, colocar todos na mesma balança é um erro, ainda mais perante a alarmante crise de desemprego. 

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