segunda-feira, 13 de junho de 2022

Minha Vida Perfeita (Moje Wspaniale Zycie)

"Minha Vida Perfeita" (2021) dirigido por Lukasz Grzegorzek (A Filha de um Treinador - 2018) é um filme polonês que retrata as facetas de uma mulher que possui muitas responsabilidades e que diante da falta de afeto da família cria uma vida paralela da qual mais a frente acarretará uma série de paranoias e um amontoado de desentendimentos.
Joanna (Agata Buzek), de meia-idade, tenta incansavelmente conciliar ser mãe, filha, avó, esposa, amante, dona de casa e professora do ensino médio. Mas ela parece estar perdendo a paciência. Joanna é uma mulher que detém grandes responsabilidades, principalmente com a mãe que está perdendo a memória devido ao Alzheimer, além disso precisa lidar com a presença do filho mais velho que mora na casa com sua esposa e o bebê, não existe um tempo para si dentro dessa configuração que ainda inclui seu marido, o diretor da escola que leciona e o filho adolescente que parece não suportar o ambiente e se fecha em seu mundo. Ela só respira quando depois de suas aulas particulares na antiga casa de sua mãe coloca uma música alta e fuma um baseado, lá ela encontra sua feminilidade novamente e se encontra com um professor excêntrico, são momentos únicos e que servem para entendermos seu cansaço em relação a tudo. 
A história não está interessada no que é certo ou errado, simplesmente desenvolve a narrativa de maneira intimista e cadenciada a fim de expor a vida como ela é realmente, sem grandes acontecimentos, mas revela o quanto vale um diálogo na tomada de decisões importantes, porém nem sempre a vontade de conversar existe, o que torna algo que poderia ser resolvido facilmente em algo desconfortável. É interessante observar o cotidiano dessa família, não há floreios e nem força a barra criando situações para entreter o espectador, mas por muitas vezes a tensão cumpre seu papel nos dando a oportunidade de tentar deduzir quem estará por trás dos bilhetes deixados para Joanna em razão de sua infidelidade, a paranoia agrava quando acha que é algum de seus alunos e o segredo fica cada vez mais difícil de ser mantido. As maneiras que encontra para desvendar quem está por trás das mensagens são tão estranhas que por fim torna todos dessa trama em seres completamente egoístas e sem nenhum elo de afeto, todos ali estão convivendo sob o mesmo teto sem necessariamente se importar, o fato de Joanna não ceder a casa da mãe para o filho mais velho morar - sendo que isso tiraria um baita peso de suas costas - é que ela não quer ser invadida em mais outro espaço, necessita desse momento em que se torna ela mesma sem se importar com sua imagem de mulher perfeita.

É um filme para se assistir sem grandes expectativas, simplesmente é o retrato da vida de uma família que possui defeitos um tanto desagradáveis, e também veja sem julgamentos até porque nunca é por uma única razão que tais coisas acontecem, como a traição por exemplo, e o fato de suas tomadas de decisões ou a falta delas incomodam, mas claramente porque estamos de fora analisando, a complexidade norteia essas questões e o desfecho revela ainda mais essas camadas, como a que envolve o filho adolescente e suas motivações e o grand finale dela chorando com a mãe, os filhos e nora a abraçando, inclusive com o marido presente e logo após o amante chegando visualizando a cena.
 
"Minha Vida Perfeita" pode não agradar por não estar nos moldes convencionais de narrativa e pode parecer um tanto lento e sem foco, mas os personagens e suas ações desconfortáveis nos dizem muito sobre relações e sobre como a maioria lida com a imagem da família perfeita, e essencialmente do como a sociedade enxerga a mulher que é responsável por um conjunto de obrigações que acabam a anulando. Ainda que trate dessas complexidades do ser humano é um filme leve e até descontraído. É sempre vantajoso exercitar o diálogo, mas nem sempre é fácil e nem sempre se quer ter conversas, pois é muito mais fácil seguir com os segredos.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

10 Filmes Agradáveis (Para Ver Quando o Coração Pesar)

Segue uma lista feita com carinho para os corações afogados, seja por qualquer motivo, eu mesma estou numa fase de não conseguir ver filmes com temas pesados e muito reflexivos, mas também isso não significa que as histórias precisam ser bobas e efêmeras. Os selecionados aqui servem para aquecer como um abraço, espairecer a mente, chorar sorrindo e despertar desejos.

10- "Prazer, Kalinda" (Bo We Mnie Jest Seks - 2022) Polônia

Kalina Jędrusik, a maior estrela da Polônia nos anos 60, está no auge da fama, mas precisa enfrentar um oficial desprezado que ameaça destruir sua carreira. Maria Dębska estrela a biografia musical de Katarzyna Klimkiewicz sobre a diva rebelde da Polônia dos anos 60 e 70. Um filme que retrata um ícone feminino da Polônia, uma mulher deslumbrante com uma personalidade livre, que resistiu ao machismo e ao assédio. Um filme que inspira o despertar de sentimentos de autonomia feminino.

09- "Dry Martina" (2018) Argentina/Chile

Martina (Antonella Costa) é uma ex-estrela pop que fez muito sucesso na Argentina durante os anos 90. Agora, sem fama ou qualquer tipo de relacionamento, ela não sabe que direção tomar na vida. Mas a chegada de uma irmã desaparecida com um namorado atraente chama a atenção de Martina e mexe em seu desejo adormecido. Um filme leve que se dobra a sua protagonista decadente, mas com anseios e intenções intensas, as relações que se formam durante a história só provam a sua necessidade de calor humano, um filme que vibra na feminilidade e desejos, sobretudo a afabilidade.

08- "Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (Elvira - Te Daría Mi Vida, pero la Estoy Usando - 2014) México

Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido. Uma dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.

07- "Granizo" (2022) Argentina

Miguel Flores é um famoso meteorologista que é tão famoso que tem seu próprio programa de televisão que é conhecido por nunca errar a previsão do tempo no país. Tendo estudado na disciplina por seis anos e, trabalhando na área há anos, se Miguel garante, deve acontecer do jeito que ele previu. Um filme para amainar a vida, cheio de conflitos que se desenrolam de maneira eficaz e deliciosa, um protagonista carismático que com bom humor norteia várias nuances da vida.

06- "O Confeiteiro" (The Cakemaker - 2017) Alemanha/Israel

Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.

05- "Hanami - Cerejeiras em Flor" (Kirschblüten: Hanami - 2008) Alemanha

Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner) é um lindo casal da terceira idade que leva uma vida rotineira e tranquila. Porém, ao receber a notícia de que seu marido está com uma doença que lhe dá poucos meses de vida, os médicos aconselham a Trudi que tenha cuidado ao contar sobre a enfermidade e sugere que o casal aproveite os últimos momentos para viajar ou realizar alguns de seus sonhos. Sem contar ao marido da doença, Trudi o convence a saírem do interior da Alemanha e irem a Berlim visitarem os filhos. Sem tempo para os pais, o casal vê o quanto eles se transformaram a ponto de considerar a breve visita um verdadeiro incômodo. A situação se agrava quando, ironicamente, Trudi morre, deixando seu marido sozinho em meio ao desprezo dos filhos. Ao voltar para sua cidade, Rudi decide se aprofundar nos pertences de sua mulher, e assim descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o Monte Fuji, no Japão.

04- "Ninguém Sabe que Estou Aqui" (Nadie Sabe que Estoy Aquí - 2020) Chile

Memo (Jorge Garcia), mora em uma remota fazenda de ovelhas no Chile e esconde sua linda voz do mundo. Traumatizado por acontecimentos do passado, ele vive de maneira solitária, até que uma mulher lhe oferece a chance de encontrar a paz que tanto procura. Belíssimo filme que mexe bastante com nossa sensibilidade, contém cenas poéticas e memoráveis, além da interpretação visceral de maneira contida de Jorge Garcia. Um filme extremamente bonito que enche o coração de emoção.

 03- "A Incrível Jornada de Jacqueline" (La Vache - 2016) França

Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
Um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.

 
02- "A Costureira dos Sonhos" (Sir - 2018) Índia

Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos. Um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.

01- "Café com Canela" (2017) Brasil

Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
Apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

As Vidas Secretas da Família Uysal (Uysallar)

"As Vidas Secretas da Família Uysal" (2022) dirigido por Onur Saylak é uma minissérie turca espetacular disponível no catálogo da Netflix, uma história repleta de camadas que vai desnudando os personagens pouco a pouco, que provoca o espectador fazendo oscilar nossos sentimentos diante às ações de cada um. Com 8 episódios acompanhamos a família Uysal, que passa por uma crise, todos sem exceção têm suas perturbações e estão à beira de um colapso. Oktay (Öner Erkan) é um arquiteto de 44 anos que se vê sufocado com a rotina, emprego e família, não suporta mais viver desse jeito e resolve escrever uma carta se despedindo, mas acaba que ele desiste e a esconde. No seu íntimo vive uma chama esquecida e a partir de uma visita que faz a sua antiga cidade decide reviver seu "verdadeiro" eu, e então uma vida dupla se inicia, de dia enfrenta os percalços do trabalho e seu chefe instável, Berhudar (Haluk Bilginer), tentando projetar uma prisão que nunca sai, e a noite coloca sua jaqueta cheia de spikes com a escrita "amante do caos" e seu enorme moicano colorido. Mas não é só Oktay que está enfrentando uma crise, sua esposa Nil (Songül Öden) que quer retornar ao mercado de trabalho não consegue por ser considerada velha e isso só faz aumentar sua obsessão com a aparência e sua ânsia por procedimentos estéticos, além de que se infiltra numa teia de mentiras que acarretará uma consequência inesperada. Os filhos também estão perdidos, o adolescente Ege (Umut Yesildag) que claramente possui traços psicopatas e a pequena Ece (Nilay Yeral), uma menina inteligente que não tem nenhuma atenção e que busca um pouco disso numa vizinha. Há também Olcay (Ugur Yucel), o pai tóxico de Oktay. A cada episódio o enredo nos arremessa diante das atitudes desses personagens que estão infelizes mesmo tendo uma condição financeira elevada, a distância só faz esses segredos se tornarem cada vez mais fortes e os sentimentos perante eles mudam a cada instante, ora sentimos empatia, ora asco, a complexidade e o caráter reflexivo dá um ar beirando o perturbador, pois são inúmeras as questões que surgem, como por exemplo, a hipocrisia, o egoísmo, o machismo, a indiferença, a máscara social, e com o passar dos episódios Oktay vai se tornando uma chacota, isso se concretiza ao final quando o amigo expõe a sua mediocridade e hipocrisia, que aquela fantasia nada tem a ver com ser punk, as relações que ele formou com os três desabrigados, esses sim lutando contra o sistema só aumenta as características de uma pessoa entediada e covarde.

Só elogios para essa minissérie que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.
 
"As Vidas Secretas da Família Uysal" é uma minissérie que merece o reconhecimento, bem feita e que foge das produções turcas que se assemelham a dramalhões novelescos e que usam de artifícios básicos e comuns para fisgar o espectador, vale destacar o roteirista Hakan Gunday, que tem outras séries maravilhosas em seu currículo, como "Assassino sem Passado" e "Şahsiyet". Enfim, ainda vale enaltecer o trabalho dos atores e, principalmente, de Haluk Bilginer, como Berhudar, que compôs um personagem cheio de camadas que com o tempo só piorava. Sensacional!

terça-feira, 15 de março de 2022

Lamb (Dýrið)


"Lamb" (2021) dirigido por Valdimar Jóhannsson é um filme que mescla fantasia e horror a uma narrativa que convida o espectador a exercer sua reflexão e permite uma criatividade sem igual, o desenrolar vai no oposto das histórias imediatistas que não criam vínculos com suas personagens e não produzem sensações mais profundas e que apenas visam saciar a expectativa do público. Muito se compara "Lamb" ao longa de Robert Eggers, "A Bruxa" (2015), acredito que tenha algo em comum em seu cerne, como a ancestralidade que o ser humano é incapaz de entender, sobre sua relação de egocentrismo, desconhecimento e menosprezo com a natureza que acaba gerando atitudes de poder e que mais tarde serão cobradas.
María (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive isolado em sua fazenda na Islândia, fazem o parto de um misterioso recém-nascido entre as ovelhas de seu celeiro. A inesperada perspectiva de uma vida familiar lhes traz muita alegria e eles resolvem criar o bebê como se fosse sua própria filha.
Acompanhamos a vida de um casal numa fazenda permeada por uma natureza selvagem e de proporções ameaçadoras, de início percebemos os animais e seus comportamentos parecendo que algo está à espreita, acontece o período de nascimentos de ovelhas e o casal se ocupa desse trabalho enquanto vivem de maneira sorumbática seus dias. Se preocupam apenas com o essencial para a sobrevivência. Até que uma ovelha dá a luz a um bebê diferenciado, só que nesse momento não vemos absolutamente nada, só se observa os olhares do casal que ficam impressionados e veem nesse evento uma possibilidade de mudarem suas rotinas e sentimentos novos surgirem. Os dois levam essa ovelhinha para casa, colocam em um berço, a amamentam e a protegem da ovelha mãe que não para de balir embaixo da janela do quarto. Impressionante a tensão criada a partir dessas cenas, é como se fosse um aviso de que algo está errado e ainda mais depois de um ato violento de Maria para que pudesse ter o bebê só para si. A tensão segue crescente e a câmera não tem pressa em nos mostrar Ada, nome escolhido e que tem uma carga emocional enorme, já que mais a frente vemos o túmulo daquela que seria a filhinha do casal, essa bizarrice ganha tons bem perturbadores quando a presença de Ada se faz forte e sem nenhuma palavra acompanhamos uma consciência acontecendo.

Em dado momento, Pétur (Björn Hlynur Haraldsson), irmão de Ingvar é jogado de um carro perto da fazenda e não demora para que conheça Ada, claramente chocado e pensando que o irmão e Maria estejam pirando, mas é capturado pela pequena Ada e sua inocência, a relação entre os três é bem pouco aprofundada e acaba que não serve muito para o desenrolar, o que fica de fato é a atmosfera de fábula que flerta com o horror e que deixa em seu final uma moral que carrega o desconhecido, o quão pequeno é o ser humano diante a natureza e sua ancestralidade, mas pode-se tirar inúmeras reflexões, as camadas se expandem dentro dessa história, cada um vê e sente de formas distintas, mas exemplificando, tira-se muitas questões para além do humano e a grandiosidade que o cerca, como instinto materno, relação do humano com o animal nos tempos modernos em que o coloca no lugar de um filho, traumas, luto, etc.

 
"Lamb" é um filme para quem deseja sair da zona de conforto, das expectativas supridas e, principalmente, abrir novas perspectivas. Um filme diferenciado que remete a uma fábula ameaçadora e nos coloca diante da obscuridade da existência.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

The Eddy (Minissérie)

 
"The Eddy" (2020) minissérie disponível no catálogo da Netflix é um achado maravilhoso que cativa com toda sua musicalidade e sentimentos complexos, com personagens apaixonantes somos absorvidos por uma aura de melancolia numa Paris pulsante onde predominantemente o que se sobressai é a veneração pelo jazz e os laços afetivos que são construídos a partir dele.
Dirigido por Damien Chazelle (Whiplash - 2014, La La Land - 2016) acompanhamos em oito episódios a história de Elliot (André Holland), um exímio pianista que abandonou a carreira após uma tragédia familiar e partiu sozinho para Paris onde abriu uma casa de show especializada em jazz junto de seu melhor amigo Farid (Tahar Rahim). Elliot não é uma pessoa fácil de lidar, é extremamente perfeccionista e a banda intitulada The Eddy composta pelos melhores músicos é a sua vida, conhecemos alguns integrantes mais de perto em episódios dedicados a eles, como Maya (Joanna Kulig) que precisa lidar com frustrações na carreira e sua relação conturbada com Elliot e Jude (Damian Nueva), que esbanja autenticidade e afeto. Elliot precisa dar um jeito em sua vida, há muitas pontas soltas e depois da morte misteriosa de seu sócio e amigo sua vida vai ladeira abaixo, são muitas coisas para resolver, problemas com o clube, coisas ocultas que Farid fazia e além disso, sua filha Julie (Amandla Stenberg) vem morar em Paris e tentar criar laços com o pai, mas é uma tarefa muito difícil e nenhum dos dois estão preparados, ela acaba indo morar na casa da viúva de Farid, Amira (Leïla Bekhti).
A trama policial acaba desviando muito o tom da série, é uma lástima infelizmente, acaba perdendo muito o contexto dramático dos personagens que são ricos e densos em suas mais diversas camadas, isso se deve a excelência das interpretações, inclusive os integrantes da banda são músicos na vida real que nunca interpretaram. A parte musical é linda e empolgante e por isso nem importa tanto as decaídas que o roteiro dá. Outro ponto positivo é que a história é repleta de diversidade, a Paris retratada é recheada de culturas, onde imigrantes lutam pelo seu espaço ao lidar com preconceito e desigualdade. 
 
A minissérie tem episódios marcantes, vibrantes, melancólicos e apesar da trama escorregar no lado policial tem fascinantes cenas em que a música impera nos proporcionando beleza ao ver a paixão que exala dos músicos, mais orgânico impossível. As histórias se desenrolam de maneira contida e por mais que soe arrastada em alguns pontos vale muito assisti-la.
 
"The Eddy" é uma minissérie vibrante pelo jazz e tocante pelas histórias que acompanhamos, até poderia se aprofundar em mais personagens, as diversas personalidades são apaixonantes, mas também complexas e caóticas, e mesmo que hajam desentendimentos e conflitos o afeto sempre norteia essas relações. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Filha Perdida (The Lost Daughter)

"A Filha Perdida" (2021) dirigido por Maggie Gyllenhaal e estrelado por Olivia Colman exibe as complexidades do feminino entre simbolismos e passagens que nos faz refletir sobre a maternidade e a enorme responsabilidade que cai sobre a mulher, tanto no quesito de estar fisicamente presente suprindo as necessidades do filho, como nas emoções tendo que até muitas vezes fingir e suprimir seus próprios anseios. É a tal da romantização da maternidade. O fato é que sentimentos são complexos e cada um tem seus próprios meios de lidar com eles. Mergulhamos junto a Leda em suas lembranças, um recorte verdadeiro e sem floreios de uma mãe.
Ao mesmo tempo que é um filme introspectivo e lento também é exuberante e potente, tanto na incrível presença de Olívia Colman que nos remexe por dentro ao observamos seus medos e desejos enquanto exerce a maternidade, quanto na sensação que causa durante a sua estadia no litoral em que fica obcecada por Nina (Dakota Johnson) e sua filhinha. Leda é uma mulher elegante, erudita, que decide passar as férias à beira-mar, um local idílico inicialmente, onde busca calma, mas esse cenário é quebrado quando surge uma grande e barulhenta família que praticamente toma conta da praia. Ela observa cada passo e ato de Nina e sua filha, relembra seu passado e realmente não dá para perceber claramente o interesse dela nas duas, memórias afetivas, compadecimento ou apenas diversão em ver as birras da menina, tudo fica ainda mais estranho, principalmente, quando a garotinha "perde" a boneca. O episódio em que a menina se perde e Leda a encontra acaba aproximando essa família dela e daí surge um cenário nebuloso.
É mostrado nos entremeios o passado de Leda, que não consegue conciliar sua carreira e a maternidade, ela almeja conquistar sucesso, menospreza o marido e não pensa duas vezes ao abandonar as duas filhas com ele. Segue seu caminho na universidade, aproveita sua vida e então volta para as meninas, e isso é dito por ela sem um pingo de arrependimento, não há nada que a faça sentir remorso, suas lembranças são apenas lembranças. Ela possui angústias, mas é de cunho egoísta, age de maneira impulsiva e até grosseira, quando observa Nina e sua filhinha relembra dos perrengues vividos no passado, no peso da responsabilidade e na inabilidade em ser mãe. Essas questões são muito exploradas e garante ao espectador repensar na pressão que acompanha a maternidade, o quanto a mulher é julgada por seus atos e escolhas e o como não há a compreensão de que esta continua sendo mulher com desejos e anseios para além de ter que criar os filhos. O abandono e a infidelidade quando vem do lado da mulher pesa imensamente mais e ao ver Leda tão dona de si e agindo deliberadamente causa impacto.

Uma excelente obra que mostra que a maternidade não é plenitude e sim um misto de sentimentos e tomadas de decisões que causam uma série de traumas, claro que também é mostrado o lado bom e simples, como a repetida cena das meninas pedindo para a mãe descascar a laranja sem que quebre a casca. A sinceridade e a contemplação marcam a história que possui simbolismos e questões pertinentes, além de um elenco maravilhoso, cujo protagonismo de Olivia Colman, que apesar de silenciosa possui rompantes que perturbam.
 
"A Filha Perdida" é uma adaptação do romance da escritora Elena Ferrante e marca a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal que com perspicácia e franqueza coloca as aflições, a ansiedade, o medo e a dificuldade da mulher em ser muitas, pode até ser chocante porque esse lado quase nunca é discutido, mas na verdade é aliviante e abre novas perspectivas sobre a tão idealizada maternidade.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

The Innocents (De Uskyldige)


"The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.
Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso.
Acompanhamos a adaptação e as experiências geradas a partir da amizade que nasce entre Ida, Ben (Sam Ashraf) e Aisha (Mina Yasmin Bremseth Asheim), todos de alguma forma desajustados e solitários, os pais de Ida dão mais atenção a sua irmã Anna (Alva Brynsmo Ramstad), por conta do autismo, são pais que não veem os filhos, não sabem o que se passa e todo o tempo das crianças dispensado nos arredores do prédio surgem ideias de brincadeiras que quando executadas desencadeiam reações diferentes em cada, além disso, descobrem que possuem poderes, Ben consegue mover objetos, Aisha consegue ler pensamentos, e esta cria um laço com Anna, que desenvolve-se a partir dessa conexão. Esse elo de certa forma alimenta Ida e ela vai se modificando, entendendo a empatia, ao contrário de Ben, que utiliza seu poder para cometer maldades para aqueles que lhe fizeram alguma coisa. O desenvolvimento da história é interessante, misteriosa e pende para reflexões diversas, principalmente sobre a moralidade na infância, que a partir das experiências e observações vai se formando e quando um adulto não dá suporte se transforma num caos interno, isso é muito explícito em Ben, ele não tem a bússola moral ainda, é desprovido de afeto e não sabe lidar com críticas e brincadeiras, seu instinto é revidar e tendo um poder que aumenta junto com sua raiva não tem como se desenvolver de forma sadia, mas não podemos julgá-lo malvado justamente por ele não ter essa consciência. Já Aisha é uma menina mais sensível e observadora, a empatia já está instalada nela, perceba que se importa com os outros ao redor e quer unir forças para dar um fim no que Ben começou. E, Ida, que antes não se importava com Anna e se sentia excluída percebe a mãe e os outros de forma diferente. Seu olhar se amplia e outras nuances aparecem.

"The Innocents" é um filme magnífico que mesmo tendo cenas pesadas e incômodas não perde a sutileza nem a humanidade das crianças em meio a um cenário frio e desesperançoso. Com atuações impecáveis, o elenco infantil cria perfeitamente a sensação de tensão e angústia devido o descontrole que vem através de seus poderes. Especialmente a pequena Ida - Rakel Lenora Fløttum, que contracena com sua mãe Ellen Dorrit Petersen, consegue expressar uma gama de sentimentos complexos que ora revira o estômago, como na cena do gato, e ora encanta, como na cena final, que é um belo exemplo de um despertar de união de forças.
 
O filme é um misto de terror/suspense/drama que combina elementos perturbadores e reflexivos na mesma proporção, lento em seu desenvolvimento, mas uma experiência cinematográfica incrível, que certamente não irá sumir após algum tempo, é um filme marcante, intenso e que exemplifica de maneira incômoda a falta de moralidade na infância.