quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Outro Lado da Esperança (Toivon Tuolla Puolen)

"O Outro Lado da Esperança" (2017) dirigido por Aki Kaurismäki (O Porto - 2011) tem estilo único e é rico em elementos, a mescla de drama, comédia e música dá muito certo e marca pela sinceridade e sensibilidade, sempre com temas atuais e frágeis da sociedade, a maneira que seu roteiro se desenrola, as situações e as reações das pessoas, tudo com um toque de humor irônico e muita música, e que bom gosto musical tem esse diretor! O filme não foge do peso do tema, refugiados que pedem asilo na Europa, e demonstra apuro e inteligência mostrando os lados, estereótipos e identidade. É simples, despojado e transfere uma sensação de melancolia e acolhimento.
Khaled (Sherwan Haji) fugiu da guerra na Síria e foi buscar asilo na Europa. Depois de percorrer vários países, solicita a permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã desaparecida, e consegue a ajuda de um pequeno comerciante, Wisktröm (Sakari Kuosmanen), que aceita empregá-lo em seu pequeno restaurante.
Khaled fugiu do caos que assola seu país, a Síria, após muito percorrer pelos mais diversos países acaba desembarcando sem querer na Finlândia, o humor é um grande aliado do roteiro e os personagens tem tons caricatos e frios, mas isso é mais que positivo, encaixa-se perfeitamente, só que o clima melancólico permeia também a narrativa, o personagem perdeu toda a sua família e procura pela única irmã, determinado Khaled busca ajuda e asilo ao país, cujo tem fama de ser igualitário. As cenas de entrevista são ótimas e demonstram perfeitamente a situação calamitosa dos refugiados, enquanto o outro lado escuta e anota friamente sem estabelecer qualquer vínculo. Khaled não conhece outro sentimento a não ser dor e tristeza, vive de forma apática e quando o colega do abrigo lhe diz que precisa ser mais simpático não entende o que ele quer dizer, ou quando diz não entender piadas, os intervalos musicais refletem a solidão de Khaled e do outro lado, apesar de distantes compartilhando do mesmo sentimento está o carrancudo Wisktröm, que no decorrer demonstra afeição e humanidade. Wisktröm sem uma palavra arruma suas coisas e larga sua esposa bêbada, em um jogo de poker ganha uma boa quantia e compra um restaurante, uma nova vida está a caminho, mas não é fácil manter os clientes, para isso recebe a ajuda de seus três funcionários, as mudanças constantes de fachadas e identidade culinária são extremamente irônicas e marcam a confusão e o problema de adequação. Depois de delinear esses dois personagens tão diferentes, mas próximos em seus sentimentos o encontro se dá de forma até bruta, porém Wisktröm se rende e cria empatia por Khaled. Wisktröm escolhe se isolar dos demais, já Khaled é refém do isolamento, a situação parece improvável e até forçada, só que a mistura dos elementos e a forma que os personagens reagem e conduzem as situações transforma o filme em algo especial, há candura em meio a tanta dor e solidão. 

Somente um diretor como Kaurismäki consegue equilibrar comédia e drama com fineza, um tema tão pesado narrado com tanta despretensiosidade e carinho. É agridoce, denso, irônico, crítico e esteticamente peculiar, sem deixar de mencionar a trilha sonora diegética que cria e insere emoção, os diálogos pontiagudos que refletem a atualidade, a questão de se sentir refém das escolhas dos outros, de não pertencer a nenhum lugar, de não darem o devido valor a sua história, de ser apenas mais um, tudo contribuindo para a desistência e a nulidade. O olhar de Khaled invade nosso ser, por detrás de toda a sua languidez existe um oceano de tristeza, mas também de gentileza e amor. 

"O Outro Lado da Esperança" é direto em sua abordagem e retrata os absurdos dos mecanismos da sociedade, Khaled é impassível ao fazer o relato de sua situação, ele conta os detalhes das atrocidades e da confusão de não saber quem ataca quem e porquê, a sua peregrinação, a violência de todos os lados, grupos anti-imigração, neonazistas e etc, a busca pela irmã e enquanto isso espera miseravelmente a possível aprovação de estadia, e entre muitos percalços conhece Wisktröm, que lhe fornece abrigo, trabalho e como não há outra forma, a ilegalidade. Pode parecer ingênuo acreditar que no meio de tanta violência, barreiras e rótulos haja um pouco de compaixão, acolhimento e dignidade, mas sabe-se que em algum lugar reside a esperança, senão do que vale estar vivo e persistir com tanta coragem como Khaled? 

Um comentário:

  1. Do diretor eu assisti apenas aos dois "Os Cowboys de Leningrado".

    Ele tem um estilo diferente e irreverente.

    Abraço

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