sábado, 9 de janeiro de 2016

Rainha do Mundo (Queen of Earth)

"Meu ponto é... você pode sair do ciclo de uma pessoa. Mas não pode sair do seu."

"Rainha do Mundo" (2015) dirigido por Alex Ross Perry (Cala a Boca Philip - 2014) é um terror psicológico que no seu decorrer se intensifica e modifica sentimentos, como a amizade em inveja e acolhimento em uma troca de farpas. A atmosfera de tensão se dá do começo ao fim e alucinamos junto com Catherine, vivida por Elisabeth Moss, numa atuação soberba. Ela e Virginia (Katherine Waterston) são melhores amigas e cresceram juntas. Todos os anos vão relaxar na casa do lago que pertence a família de Virginia, as duas usufruem dos privilégios que possuem e não há muito para se preocupar, até que a vida de Catherine desmorona com o abandono do namorado e a morte do pai, desolada pede ajuda a sua amiga, que a leva até a casa do lago. Porém, a confiança das duas está abalada, devido os mal-entendidos e acontecimentos sucedidos no ano passado. O ambiente que era para se tornar um abrigo a Catherine acaba se transformando num inferno, lembranças surgem e sua mente vai ficando perturbada, principalmente quando surge Rich (Patrick Fugit), o vizinho de Virginia que insiste em chamar Catherine de mimada, entre outras coisas.
Virginia exibe um semblante duro, sua preocupação com a amiga é distante e sempre faz questão de criticá-la, não entendemos o porquê se comporta assim, já que são melhores amigas. O passado se mistura com o presente compondo um mosaico de situações, e a partir daí Catherine sente os sinais de depressão e loucura. O clima do filme é claustrofóbico, apesar do ambiente dizer o contrário, o lago, a floresta seria sinônimo de liberdade e renovação, os closes são de tirar o fôlego e frisa o estado psicológico da protagonista, não sobra espaço pra mais nada. A trilha sonora destoante também contribui para perturbar. A atuação de Elisabeth Moss é intensa, pesada, nossos sentimentos para com ela mudam muito, sua degradação psicológica é agoniante.
O filme tem um quê de anos 70, devido o diretor não trabalhar com o digital. É preciso imergir na atmosfera do filme, sua narrativa talvez não agrade muito, principalmente por não haver respostas. Os dilemas, as frustrações e neuroses são colocados pra fora, e às vezes com longos diálogos com a câmera estática.

Virginia e Catherine são mimadas, uma é de família burguesa, a outra é assistente, a sombra do pai artista. Preocupadas com seus umbigos e por causa da amizade antiga se permitem criticar uma à outra, interessante notar os olhares entre elas quando há os desabafos, existe uma competição e inveja misturada a preocupação e carinho. 
São personagens desagradáveis, dependentes, inseguras, egoístas e que não sabem lidar com as pessoas. Não é difícil lembrar de alguém assim vendo o filme, qualquer um deve ter aquele amigo que conta as suas conquistas ou derrotas, mas que nunca te ouve, que surta quando você não responde, mas quando é a sua vez finge que está ocupado. Com certeza existe um buraco imenso nessa pessoa que precisa ser preenchido com elogios e mais elogios. Catherine necessita sempre se reafirmar como artista por causa da figura de seu pai. Rich é quem de fato a desestabiliza, toca no seu ponto fraco, há uma cena lá pelo final do filme completamente desconcertante entre eles.

"Rainha do Mundo" não é um grande filme, mas quando se é absorvido por ele se torna uma experiência forte. É um longa que prima pela atmosfera tensa e aterrorizante, entre silêncios e histerias acompanhar a trajetória de insanidade da protagonista não é pra qualquer um. 

Um comentário:

  1. Um filme que me peguei não gostando e que em seu decorrer, ato final e reflexão pós-filme acabou demonstrando suas qualidades, o diretor soube dissecar o quanto uma amizade* é complexa e digo não no termo mais raso da palavra, mas o relacionamento, amor, afeto, altruísmo, solidariedade...
    Uma boa escolha para aqueles momentos que queremos pensar como você disse naqueles "amigos" que o são somente em uma via de mão única (que querem que as coisas fluam somente para o lado deles) e como estudou Freud essa tal amizade não passa lá no fundão de nossa consciência de puro interesse, para todos nós, não adianta negar.

    *Amizade (do latim amicus; amigo, que possivelmente se derivou de amore; amar, ainda que se diga também que a palavra provém do grego) é uma relação afetiva, a princípio, sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas. Em sentido amplo, é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Neste aspecto, pode-se dizer que uma relação entre pais e filhos, entre irmãos, demais familiares, cônjuges ou namorados, pode ser também uma relação de amizade, embora não necessariamente.

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