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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Werewolf (Wilkolak)
"Werewolf" (2018) dirigido por Adrian Panek (Daas - 2011) é um filme chocante que possui inúmeros elementos ameaçadores, a ambientação e sua atmosfera cruel só ressalta o real terror, aliás, um gênero muito subjetivo e amplo, aqui o horror é terrivelmente pesado misturando inocência, traumas, miséria e incertezas. A história gira em torno da tristeza e dor de oito crianças de diferentes idades presas num campo de concentração no final da Segunda Guerra Mundial, sozinhas e ameaçadas o tempo todo a tensão predomina e sempre se espera por algo violento.
Oito adolescentes mantidos em campos de concentração nazistas são libertados por russos. Eles são entregues aos cuidados de Jadwiga num local abandonado na floresta polonesa e, além de carregarem diversos traumas, terão que enfrentar fome, sede e um grupo de violentos lobos.
Esse grupo de crianças acaba sendo libertado pelas tropas russas e se instalam num casarão em meio a floresta, lá ficam à mercê dos precários cuidados de uma mulher, os alimentos são escassos e nada aparenta esperança apesar da tal libertação, ao contrário, esse local termina por ser uma outra espécie de prisão. Lidando como podem com a fome e a sede o grupo também tem seus conflitos, dentre eles um excluído que praticava perante aos soldados um ritual de se deitar e levantar os fazendo gargalhar e que acabou os salvando da execução, solitário vai nutrindo ódio e vingança, além de ter a seu favor os cães vorazes que os espreitam. O único a tentar domar essas feras é esse menino, pois quando estava no campo observou a maneira dos soldados com os cães, estes que serviam para destroçá-los. Cada criança visualiza a situação de um jeito e observamos como a subjugação os afetou delineando traços de suas personalidades, afinal eles só conheciam esse modo de vida e para a sobrevivência é preciso às vezes tomar decisões um tanto extremas, desse cenário em que a sobrevivência impera e a necessidade de alguém se declarar líder, há algo de "O Senhor das Moscas", de William Golding.
Sombrio e estranho, uma história com uma abordagem interessante sobre o holocausto, acompanhar as crianças tentando sobreviver neste ambiente selvagem, largados em meio a floresta sujos e famintos com os pijamas listrados perturba e as questões surgem, por exemplo, será que o mal penetrou nelas estando em contato com tanta violência? O menino de rosto duro chamado Wladek nos deixa atordoados com as suas atitudes, mas mesmo assim não podemos julgá-lo e tão pouco não se compadecer, afinal o que ele deseja é ser aceito e ser libertado de vez.
Há cenas impressionantes, como quando lambem gotas de chuva escorrendo pela parede, ou quando Wladek come óleo de motor pensando ser comida, ele fica nervoso por ter se enganado enquanto os outros lhe atacam, as atuações das crianças impressionam pela força e credibilidade dada a cada personalidade, todas têm diferentes visões sobre os acontecimentos e a partir do momento que descobrem o meio pelo qual Wladek conseguiu amansar os cães elaboram juntos uma fuga.
"Werewolf" é um filme intenso, não há grandes reviravoltas, mas delineia o amadurecimento num cenário hostil e exibe com potência o terror vivido por eles.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
O Rei (The King)
"O Rei" (2019) dirigido por David Michôd (Reino Animal - 2010, Flesh and Bone - 2015) é um drama épico livremente baseado em eventos históricos e adaptado da peça Henrique V, de Shakespeare. Uma produção poderosa que passa por intrigas de poder políticas e familiares com violência, beleza e questionamentos.
Após a morte de seu pai, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, obrigado a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França.
Uma ótima surpresa, tanto em seu visual como na condução, é um filme que enche os olhos, mas que também promove reflexões acerca de todo o emaranhado provocado pela ânsia de poder. Acompanhamos a decadência do rei (Ben Mendelsohn), uma figura cruel e do qual o filho que o sucederá rejeita, então o rei deixa claro que a coroa será do outro filho que possui o desejo de ascender de maneiras não tão inteligentes, mas acaba que depois da morte do rei e do filho mais novo Henry é coroado, este que antes vivia uma vida simples de boêmio junto de seu fiel amigo e antigo cavaleiro Falstaff (Joel Edgerton). Todos os personagens possuem características marcantes e se entrelaçam numa trama permeada de intrigas, negociações e artimanhas, Henry é completamente avesso aos planos de guerra e se distancia do pai justamente por isso, mas quando se torna rei se depara e é obrigado a pensar nessas questões e fica de frente a difíceis decisões e cujas pessoas que o rodeiam não são confiáveis, o jogo de poder vai acontecendo e seu processo de amadurecimento é confuso e solitário, sua posição não lhe permite amizades sinceras, em meio a tantas desconfianças ele nomeia Falstaff como seu marechal e na decorrência dos fatos vai se tornando numa pessoa dura e amarga, tão próximo da figura do pai que tanto detestava. O magnetismo de Chalamet impressiona e a ótima interação entre os personagens o torna um épico diferente em que o peso das escolhas tem muito mais ênfase do que qualquer ação e violência, apesar de que as sequências de embates são incríveis e denotam também grande carga dramática, não só a estética prevalece, há uma gama de questões envoltas.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.
O roteiro escrito pelo próprio diretor David Michôd em parceria com Joel Edgerton é bem estruturado e se revela como um poderoso thriller político juntamente com o amadurecimento de um jovem de ideais pacifistas que se vê obrigado a assumir a coroa e aconselhado a não se mostrar fraco inicia uma guerra desnecessária.
"O Rei" é um filme solene, retrata os bastidores do reino, as tramas, estratégias e negociações, a solidão e o tédio; a transformação. Todos os sentimentos são transmitidos pelo olhar de Henry, sempre pensativo e angustiado, as poucas cenas de embate são impecáveis e dolorosas, é rico na ambientação e inteligente no desenrolar.
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
20 Filmes de Sobrevivência (20 Survival Movies)
Segue uma lista com intensos e impressionantes filmes com o tema sobrevivência. Deserto, mar, gelo, floresta, espaço, apocalipse, guerras e situações-limite que fazem o ser humano se desafiar e tentar vencer as extremas dificuldades. Confira:
20- "No Deserto" (Al Desierto - 2017) Argentina
Cobertos de poeira, encurralados pela sede, vestidos com suas melhores roupas, Julia e Armando atravessam o deserto da Patagônia. Caçam, fazem fogo e dormem sob o céu aberto. Lentamente, o cativeiro ao ar livre foi transformado em um teste de sobrevivência. Por que esta vida inesperada seria menos desejável do que dias atrás, quando Julia estava trabalhando como garçonete no cassino de uma cidade do petróleo?
Um grupo de fugitivos de um campo de concentração na Sibéria durante a 2ª Guerra Mundial planeja chegar até a Índia. Em 1940, pegos pelo regime stalinista, sete prisioneiros aproveitam-se da nevasca para fugir de Gulag Soviético. A liberdade desses homens tem um preço: eles têm poucas chances de chegarem a um lugar seguro sem serem pegos novamente e correm risco de morte.
18- "Kursk" (2018) França/Bélgica
Baseado em fatos reais. A tragédia do Kursk, o submarino nuclear russo que naufragou em 12 de Agosto de 2000. Os tripulantes precisam sobreviver às águas geladas do Mar de Barents enquanto esperam por um resgate que pode não chegar por causa do descaso das autoridades.
17- "Styx" (2018) Alemanha
A transformação de uma forte mulher em seu belo mundo durante uma viagem de vela. Quando se torna a única pessoa a vir em auxílio de um grupo de refugiados naufragados no alto mar, ela vê os limites de sua importância e da empatia de seu ambiente cultural. Ela é deixada escorregar impotente de um pesadelo para o outro, e no final é forçada a reconhecer que não há maneira de combater as crueldades da vida real. Só o acaso pode salvá-la.
16- "O Túnel" (Teo-neol - 2016) Coreia do Sul
Jung-su dirige para casa. No caminho, algo inacreditável acontece: um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. O episódio gera um frenesi na mídia local e um repórter consegue fazer uma entrevista com Jung-su por celular. Em poucos dias uma série de erros primários no resgate colocam-no em uma situação ainda mais complicada, deixando-o sem comida, sem água e incomunicável. Os dias passam, as buscas não progridem e todos começam a perder as esperanças, enquanto sua família é forçada a tomar uma difícil decisão, sem saber se Jung-su está vivo ou morto.
15- "Trapped" (2017) Índia
Shaurya se apaixona por uma colega de trabalho, mas o problema é que depois de se envolverem Shaurya fica sabendo que Noorie está com um casamento arranjado. Ele, que mora em um pequeno apartamento com mais quatro amigos, precisa encontrar outro lugar para viver, pois em 24 horas terá a chance de cancelar o contrato de casamento dela. Shaurya não consegue achar nenhum lugar pra alugar até que de repente um homem desconhecido oferece a ele um apartamento acima do vigésimo andar em um prédio que foi embargado durante a construção e está em alguma disputa judicial. Numa sequência de azar Shaurya fica preso no apartamento sem água, eletricidade e comunicação, travando uma angustiante batalha pela vida.
14- "Selva" (Jungle - 2017) Austrália/Colômbia
Baseado em fatos reais, "Jungle" conta a história do mochileiro israelense Yossi Ghinsberg (Daniel Radcliffe) que, acompanhado de dois amigos, viaja até a cidade de La Paz na Bolívia para o que seria uma aventura inesquecível. Guiados pelos caminhos desconhecidos da Amazônia por um austríaco que mora no local há anos, os amigos embarcam numa viagem pela selva que se transforma em um pesadelo de onde nem todos voltarão com vida. O filme exibe momentos de muita tensão e o cansaço do personagem transpassa a tela, uma ótima e crível interpretação de Radcliffe que em todos os instantes captura nossa atenção, seja na ansiedade e impulsividade de querer adentrar a Amazônia, no receio quando percebe que as coisas não saíram como previsto e depois abandonado na selva buscando sobreviver e manter a mente sã. A entrega do ator se deu através do físico também, a fragilidade humana perante à natureza é impressionante. Saiba+
13- "Geração Roubada" (Rabbit-Proof Fence - 2002) Austrália
Molly Craig (Everlyn Sampi) é uma jovem australiana de 14 anos que, em 1931, ao lado de sua irmã Daisy (Tianna Sansbury), de 10 anos, e sua prima Gracie (Laura Monaghan), de 8 anos, foge de um campo do governo britânico da Austrália, criado para treinar mulheres aborígenes para serem empregadas domésticas. Molly guia as meninas por quase três mil quilômetros através do interior do país, em busca da cerca que o divide e que a permitiria voltar para sua aldeia de origem, de onde foram tiradas dos braços de suas mães. Na jornada elas são perseguidas pelos homens do terrível governador A. O. Neville (Kenneth Branagh), o qual não admite que as meninas não estejam de acordo com o ditado pela sabedoria branca e cristã.
12- "A Tartaruga Vermelha" (La Tortue Rouge - 2016) Bélgica/França/Japão
Após sobreviver a um naufrágio, um homem se vê em uma ilha completamente deserta. Lá ele consegue se manter, através da pesca, e tenta construir uma jangada que lhe permita deixar o local. Só que, sempre que ele parte com a embarcação, ela é destruída por um ser misterioso. Logo ele descobre que a causa é uma imensa tartaruga vermelha, com quem manterá uma relação inusitada.
11- "River" (2015) Canadá/EUA
Em Laos, um médico voluntário americano torna-se fugitivo depois de ajudar uma jovem brutalmente atacada. Quando o corpo do agressor aparece à beira do Rio Mekong, as coisas rapidamente ganham proporções inesperadas.
10- "Náufrago" (Cast Away - 2000) EUA
Chuck Noland (Tom Hanks) - um engenheiro de sistemas da FedEx obcecado pela extrema pontualidade - tem sua vida abruptamente mudada quando um acidente de avião o leva a uma ilha remota e isolada. Enquanto luta para sobreviver, ele descobre que sua jornada pessoal está apenas começando. Clássico absoluto! Wilsonnnn.
09- "A Luz no Fim do Mundo" (Light of My Life - 2019) EUA
Em uma realidade pós-apocalíptica, onde quase toda a população feminina foi devastada, um pai (Casey Affleck) precisa proteger sua filha (Anna Pniowsky) do caos que se espalhou pela sociedade. Ela é a única menina sobrevivente de que se tem notícia e, mesmo dez anos após a pandemia que tirou a vida de todas as mulheres, incluindo sua mãe (Elisabeth Moss), Rag e seu pai ainda precisam lutar diariamente por sobrevivência.
08- "Compra-me um Revólver" (Cómprame un Revolver - 2018) México
Em um México atemporal onde as mulheres estão desaparecendo, uma garota chamada Huck usa uma máscara para esconder seu gênero. Ela ajuda seu pai, um viciado atormentado, a cuidar de um campo de beisebol abandonado, onde os narcotraficantes se reúnem para brincar. O pai tenta protegê-la como ele pode. Com a ajuda de seus amigos, um grupo de garotos perdidos que têm a habilidade de se camuflar no deserto ventoso, Huck tem que lutar para superar sua realidade e derrotar o chefe da máfia local.
07- "Matança Necessária" (Essential Killing - 2010) França/Polônia/Hungria/Irlanda
Um guerreiro afegão é capturado, interrogado, torturado e transportado para uma destinação desconhecida na Europa, numa imensa paisagem coberta de neve. Aproveitando-se de um acidente, escapa e se vê livre, mas perdido num ambiente hostil. Inicia-se uma perseguição com helicópteros, soldados e cães pela floresta. Sem água ou comida, ele enfrenta uma árdua jornada para sobreviver e permanecer livre. Mostra a luta de um homem pela sobrevivência em seu estado mais animal. O personagem de Vincent Gallo não solta uma palavra, mas sabemos que é um afegão chamado Mohammed. Capturado pelo exército dos EUA é torturado e interrogado e depois é conduzido para a prisão. Na viagem acontece um acidente com o comboio, um deles capota e Mohammed consegue fugir. Depois disso começa o martírio em que Mohammed luta para não ser recapturado, além de tentar encontrar algo para comer a fim de manter-se vivo. Saiba+
06- "Arctic" (2019) Islândia
Um homem fica perdido no Ártico e está prestes a ser socorrido. Contudo, um acidente trágico faz com que ele perca sua aguardada oportunidade de resgate. É aí que ele precisa decidir entre ficar relativamente seguro em seu acampamento ou seguir numa jornada incerta para escapar.
05- "Utoya - 22 de Julho" (Utoya 22. Juli - 2018) Noruega
No pior dia da história norueguesa moderna, Kaja (Andrea Berntzen) se diverte com sua irmã mais nova Emilie (Elli Rhiannon Müller Osbourne), doze minutos antes da primeira bomba chegar ao acampamento de verão na ilha Utøya. Foi o segundo ataque terrorista de Anders Behring Breivik, em menos de duas horas, e matou 69 pessoas. Kaja representa o pânico, medo e desespero dos 500 jovens enquanto busca sua irmã na floresta. É um excelente trabalho em que a veracidade dos acontecimentos machuca o espectador, o desespero domina a cada som de tiro juntamente com o semblante apavorado dos jovens. Saiba+
04- "Sibéria, Meu Amor" (Sibir, Monamour - 2011) Rússia
Monamour é um vilarejo isolado em meio à floresta boreal da Sibéria. O lugar é cercado por cães selvagens que devoram quem ousa se aproximar. É lá onde moram o menino Leshka e seu avô, Ivan. Leshka toma um dos cães como seu melhor amigo e vive na esperança de que seu pai retorne, depois de dois anos de ausência. De tempos em tempos, seu tio Yuri traz comida e suprimentos para lá. Mas este é atacado pelos cães e desaparece, e Leshka e Ivan se veem isolados do mundo. Ao ver o avô atirar no seu cachorro, o menino foge e cai num poço. Agora,o avô precisa achar ajuda.
03- "Jîn" (2013) Turquia
No sopé dos territórios curdos da Turquia, Jin (Deniz Hasgüler), uma jovem rebelde de 17 anos, foge de seu grupo de guerrilha para tentar voltar à sua família e à vida normal. Se escondendo de seus companheiros, a quem ela é agora uma traidora, e o exército turco, que a vê como uma terrorista, Jin, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho, se refugia com os animais da floresta, que estão lutando a sua própria maneira na brutalidade da guerra. Andando sozinha pelas montanhas e pela floresta o caminho se mostra cruel, as explosões de bombas são constantes e as perseguições incansáveis. Saiba+
02- "High Life" (2018) UK/França/Alemanha/Polônia
Um grupo de criminosos aceita um acordo para trocar suas penas pela participação em uma missão espacial à procura de energias alternativas, mas a viagem toma rumos inesperados quando uma tempestade de raios cósmicos atinge a nave. Acompanhamos Monte (Robert Pattinson), sozinho em uma nave espacial rodeado apenas por uma desolação assustadora e um silêncio profundo, ele cuida de sua bebê, Willow, enquanto mantém uma rotina para dominar o desespero, a narrativa inicial intriga com seus mistérios e aos poucos a história vai se descortinando, a linha do tempo se quebra a todo instante para que compreendamos os motivos de Monte estar solitário na nave. A tripulação desta nave, todos condenados à pena de morte, tiveram a escolha de poder participar de uma experiência espacial cuja missão era encontrar o buraco negro mais próximo da Terra, na esperança de obterem liberdade se deparam com um imenso vazio cruel e bizarro. Saiba+
01- "Para Sama" (For Sama - 2019) UK/Síria
Uma mulher jovem luta contra a guerra com amor e maternidade, ao longo de cinco anos na Síria. Uma jornada íntima e épica para a experiência feminina da guerra. Uma carta de amor de uma jovem mãe para sua filha, o filme conta a história da vida de Waad al-Kateab através de cinco anos da revolta em Aleppo, como ela se apaixona, se casa e dá à luz Sama, enquanto o cataclísmico conflito se ergue em volta dela.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society)
"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" (2018) dirigido por Mike Newell (O Amor nos Tempos do Cólera - 2007), baseado na obra homônima de Annie Barrows e Mary Ann Shaffer, retrata o poder dos livros em unir as pessoas e o como as histórias conseguem abraçá-las em suas solidões, a afinidade criada a partir da literatura enquanto o caos reinava é o mote principal e em seguida conhecemos uma outra parte, que também sofreu perdas por conta da guerra e que através do destino se uniu a essa família.
Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. O clube, criado antes de existir de fato, foi formado de improviso, como um álibi para proteger seus membros dos alemães. O que nenhum dos integrantes da Sociedade imaginava era que os encontros pudessem trazer consolo e esperança e, principalmente, auxiliar a manter a mente sadia. As reflexões e as discussões a respeito das obras os livraram dos pensamentos sobre as dificuldades que enfrentavam.
Juliet é uma escritora em ascensão, apesar de estar sendo reconhecida pelo seu segundo livro, seu maior orgulho é o primeiro livro, uma biografia crítica de Anne Brontë, a guerra também levou parte de si, ela perdeu os pais, mas segue firme e busca inspiração para seu novo livro, e é através de algumas cartas trocadas com um desconhecido que a encontra, Dawsey Adams (Michiel Huisman) pede auxílio sobre um exemplar de contos infantis de Shakespeare de Charles e Mary Lamb, Juliet entusiasmada com a história da Sociedade descrita por Dawsey lhe dá o livro de presente e logo se convida para conhecê-los, Juliet arruma as malas e no dia de sua partida seu noivo Mark (Glen Powell), a pede em casamento e coloca um anel em seu dedo, ela aceita e vai em busca do que seria seu próximo livro, porém não é bem isso que acontece, ao chegar lá todos a recebem bem, mas existem coisas das quais só pertencem a eles, segredos e tristezas que só essa família formada a partir da dificuldade e do amor aos livros entendem.
O que se sucede é que Juliet se torna uma curiosa compulsiva e acaba até irritando com tantas perguntas, faltou um pouco de sensibilidade e delicadeza, talvez pela preocupação da personagem em escrever seu próximo livro a fez se comportar assim. Com o passar do tempo o convívio e a experiência do lugar a fez se sentir como se fosse parte deles, mas esse sentimento dela não é tão natural, pelo menos não transpassa desse modo ao espectador. A motivação e o elo que ela forma com todos ali não causa empatia, o que salta aos olhos são outros personagens, que infelizmente não são tão bem explorados, como a maravilhosa Isola (Katherine Parkinson), que confecciona seu próprio gim e se torna uma companheira para Juliet, ela é dona de cenas inspiradas, alegres, mas que contém grande melancolia, o gentil Eben Ramsey (Tom Courtenay) e outro que pouco aparece e que gera interesse é o editor de Juliet, interpretado pelo ótimo Matthew Goode.
Os traumas da guerra, o amor à literatura, o reconhecer-se no outro, são temas que são abordados com carinho e uma pitada de bom humor, somos introduzidos ao horror que eles vivenciaram, escolhas que tomaram, como o caso de Elizabeth (Jessica Brown Findlay) tida como uma filha para Amelia (Penelope Wilton), que é atormentada pelas perdas, Juliet vai a fundo e de pouco a pouco descobre o que aconteceu com Elizabeth e decide que o que escreverá sobre eles não será publicado.
O filme é um pouco longo e perde o ritmo em algumas partes, mas possui cenas dotadas de sensibilidade, conversas afetuosas e tomadas espetaculares da natureza do local, a fotografia é linda e exuberante, um verdadeiro deslumbre.
"Nosso clube do livro nas sextas à noite se tornou nosso refúgio. É uma liberdade particular perceber que o mundo se torna cada vez mais escuro à sua volta, mas que só é necessária uma vela para enxergarmos novos mundos se revelando. Foi isso que encontramos na nossa sociedade."
"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" tem seus enfeites, mas no todo é um filme delicado que tem no vínculo da amizade e na admiração pelos demais seu maior triunfo, o romance fica em segundo plano e se concentra lá pelo final, mas não anula o que importa, a inspiração da figura feminina, Elizabeth e sua determinação, suas escolhas em tempos tão terríveis, a exaltação à literatura e o poder dos livros em unir as pessoas, no aconchego das histórias, nos aprendizados e na riqueza que elas proporcionam.
Destaque para os personagens do clube da casca de batata, principalmente, Eben, o criador da torta, Isola e suas especiarias para fazer seu gim e os debates acalorados sobre os livros, e o bônus dos créditos finais em que recitam trechos de algumas obras, como "Ao Farol", de Virgínia Woolf, "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson, "A Tempestade", de Shakespeare, "Jane Eyre", de Charlotte Brontë e "A importância de ser Fiel", de Oscar Wilde.
Disponível no catálogo da Netflix!
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Ethel & Ernest
"Ethel e Ernest" (2016) dirigido por Roger Mainwood apesar de ter como pano de fundo a II Guerra é um filme muito singelo e leve, o retrato de um doce e real casal vivendo as incertezas e novidades de sua época. Uma terna homenagem de Raymond Briggs aos seus pais, desenhado à mão, com base na sua premiada graphic novel, é uma descrição íntima e carinhosa da vida e dos tempos dos seus pais, dois londrinos comuns que vivem repletos de acontecimentos extraordinários.
1928. Em Londres, o leiteiro Ernest Briggs casa-se com Ethel, dando origem ao pequeno Raymond, em 1934. Quando a Segunda Guerra eclode, o menino, agora com cinco anos, é evacuado junto às tias em Dorset, enquanto Ernest junta-se ao serviço de bombeiros, chocado com a carnificina que vê. Com o retorno de Raymond, eles celebram a entrada dele para a escola de gramática e o nascimento do Estado-Providência. Raymond forma-se na faculdade de arte e obtém um lugar de professor. Pai e filho consolam-se quando Ethel morre, mas logo após Raymond estará de luto por causa do pai dele também.
É um filme meigo, o traços do desenho passam essa sensação e nos apegamos aos personagens, desde quando Ethel e Ernest se conhecem, o primeiro encontro, o casamento, a casa que escolhem morar, o nascimento do filho, as tantas novidades que surgem, como o fogão a gás, e neste aspecto o longa é bastante informativo e acompanhamos junto dos personagens uma série de acontecimentos que a guerra provocou, a pacata vida do casal se modifica, Ernest de leiteiro é obrigado a servir o corpo de bombeiros e assim presencia muita violência e dor, por outro lado, é muito agradável vê-lo ligar o rádio e ouvir as notícias perto de sua amada, que é alheia e pouco entende e que também se incomoda com as modernidades. Enquanto Ethel e Ernest enfrentam as consequências da guerra e vivem em meio a tantas incertezas, o pequeno Raymond aproveita a vida no campo com as tias, quando o tormento da guerra termina e ele volta, tudo o que os pais desejam é que estude num bom colégio, porém Raymond decepciona-os escolhendo estudar artes, mas, claro, que com o tempo teriam muito orgulho do filho, que se torna um incrível professor e um ilustrador de sucesso.
Toda a trajetória de Ethel e Ernest nos é mostrada com suavidade, desde a juventude à velhice, as modificações não só externas, mas também físicas. Uma graça Ernest jovem entregando leite de porta em porta e sua alegria ao mostrar para Ethel as novas utilidades domésticas que estavam surgindo.
A narrativa segue de maneira muito interessante, praticamente didática ao que se refere ao contexto da guerra, as mudanças conforme os anos e o como esse casal conseguiu superar todas as adversidades sem deixar que nada estragasse a relação. A personalidade durona, mas amável de Ethel, a felicidade e empolgação de Ernest, tudo isso retratado com bastante credibilidade e muito carinho, isso se deve as vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn que imprimiram todas essas características aos personagens.
"Ethel e Ernest" é um filme afável, o delicado traço de Briggs traz as suas memórias, seus pais ganham vida novamente, eis a magia. Uma animação singular cheia de detalhes importantes e com uma aura emotiva e nostálgica. Outra beleza é a canção "In the Blink of an Eye", composta por Paul McCartney especialmente para o longa.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)
"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.
É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões.
O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!
quinta-feira, 2 de março de 2017
A Passageira (Magallanes)
"A Passageira" (2015) dirigido pelo ator peruano Salvador del Solar é um filme instigante que tem como pano de fundo as consequências dos conflitos entre o governo, os civis e os revolucionários comunistas no Peru, é um assunto dolorido e a trama gira em torno dos males causados, as feridas abertas, mas o diretor soube trazer uma história atual em que incute críticas sociais e problemas que assolam praticamente toda a América Latina.
Certa tarde, Magallanes (Damián Alcázar) reconhece a passageira que sobe em seu táxi. É Celina (Magaly Solier), mulher que conheceu há mais de 20 anos em circunstâncias completamente diferentes. Em busca de redenção, ele fará tudo o que puder para ajudá-la a superar a difícil situação pela qual está passando. Magallanes não sabe, porém, que Celina prefere perder tudo a ser ajudada por ele.
Adaptado do livro "La Pasajera" de Alonso Cueto, Magallanes é interpretado pelo talentoso Damián Alcázar, recentemente visto em "Narcos", ele é um dos grandes atores mexicanos, vide "A Lei de Herodes" e "A Ditadura Perfeita". Neste, ele protagoniza um homem solitário e de feições sérias, um ex-soldado que sobrevive como taxista e uma espécie de cuidador e motorista particular do seu ex-coronel (Federico Luppi), que está sofrendo de Alzheimer. Um dia, Magallanes se depara com uma moça de origem indígena e a reconhece, é Celina, quando jovem foi prisioneira por mais de um ano no quartel em Ayacucho, servindo de escrava sexual para o coronel. Ele a deixa no local indicado e não a olha no rosto, a moça é bastante humilde e se desdobra para poder pagar as dívidas e cuidar de seu filho com deficiência. Magallanes vê uma possibilidade de se redimir de seu passado ao tentar ajudar Celina, mas o que vem a seguir é uma espiral problemática.
Adaptado do livro "La Pasajera" de Alonso Cueto, Magallanes é interpretado pelo talentoso Damián Alcázar, recentemente visto em "Narcos", ele é um dos grandes atores mexicanos, vide "A Lei de Herodes" e "A Ditadura Perfeita". Neste, ele protagoniza um homem solitário e de feições sérias, um ex-soldado que sobrevive como taxista e uma espécie de cuidador e motorista particular do seu ex-coronel (Federico Luppi), que está sofrendo de Alzheimer. Um dia, Magallanes se depara com uma moça de origem indígena e a reconhece, é Celina, quando jovem foi prisioneira por mais de um ano no quartel em Ayacucho, servindo de escrava sexual para o coronel. Ele a deixa no local indicado e não a olha no rosto, a moça é bastante humilde e se desdobra para poder pagar as dívidas e cuidar de seu filho com deficiência. Magallanes vê uma possibilidade de se redimir de seu passado ao tentar ajudar Celina, mas o que vem a seguir é uma espiral problemática.
Magallanes a partir de uma foto antiga encontrada decide com a ajuda de sua irmã chantagear o filho do seu ex-coronel, um advogado de grande prestígio (Christian Meier). Mas ele não imagina os desdobramentos dessa sua ideia de golpe. Interessante que no início parece completamente justificável e vemos o seu empenho em ajudar Celina, claramente ele era apaixonado por ela, mas nada é simples e conforme a trama vai se revelando novos dilemas aparecem, muitas questões morais vêm à tona.
O filme tem um roteiro elaborado e prima pela quebra de expectativas, o drama é intenso e dolorido e o suspense que se instaura garante grandes momentos de tensão, há cenas simbólicas também, por exemplo, quando Celina dá de cara com seu passado e corre morro acima, um belo e encantador trabalho visual.
Magaly Solier interpreta com solidez sua personagem, admirável a sua força e conduta diante da tentativa de redenção de Magallanes, uma ótima oportunidade de reflexão sobre perdão. Há uma cena em especial de Magaly que realmente nos tira o ar, quando na delegacia faz um desabafo em sua língua natal, o quíchua, não há legendas e não são necessárias, a entendemos perfeitamente, ela fala no idioma da dor e isso é universal.
Uma grande estreia na direção de Salvador del Solar, um drama envolvente com pitadas de suspense e uma reflexiva crítica social.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
13 Minutos (Elser)
"13 Minutos" (2015) dirigido por Oliver Hirschbiegel (A Queda! As Últimas Horas de Hitler - 2004) traz mais uma história sobre o nazismo, dessa vez retrata o inconformismo e a ousadia de um único homem, que por pouco poderia ter acabado com Hitler.
Uma biografia de Georg Elser, o homem que tentou matar Adolf Hitler. Em 8 de novembro de 1939, Elser implantou uma bomba atrás de um púlpito usado por Hitler, em Munique. Mas o Führer deixou o local mais cedo que o esperado, contrariando o plano que poderia ter evitado a Segunda Guerra Mundial.
Elser é interpretado por um inspirado Christian Friedel, um carpinteiro e músico pacato que percebe os horrores que estão por vir e decide agir por conta própria. A história tem em si duas partes que se alternam, a primeira consiste neste atentado, a sua prisão, interrogatórios e torturas, pois os nazistas não acreditavam que ele teria arquitetado tudo sozinho. E a segunda se dá por flashbacks mostrando a vida e a personalidade de Elser. O romance entre Elser e Elsa (Katharina Schüttle) toma uma boa parte da narrativa, ela é uma mulher casada com um alcoólatra violento que termina se aliando aos nazistas, Elser pela primeira vez apaixonado necessita estar ao lado dela, então aluga um quarto na casa deles enquanto trabalha pesado, mas mesmo assim não tem condições de tirá-la de lá. A situação financeira é precária e sua antipatia com o regime só acentuam os problemas.
O interessante da trama é mostrar um homem inconformado, um sujeito consciente do meio em que vive. Apartidário, mesmo que seus amigos sejam comunistas e ataquem os nazistas da sua pequena cidade, ele segue evitando qualquer tipo de violência, mas a cada discurso de Hitler vai percebendo mudanças, seja no modo de pensar de seus vizinhos, na demissão daqueles que não seguem o regime e logo a violência vai surgindo e Elser vê a nuvem negra pairando no ar, assim se empenha ao máximo para dar um fim nisso. As cenas de interrogatórios e torturas são inúmeras e provocam angústia, o som ajuda a acentuar a violência que cometem contra Elser. A narrativa está comprometida em nos mostrar o porquê de seu ato e não o como ele elaborou seu plano. Os nazistas não acreditavam de forma alguma que apenas um homem seria capaz de tal façanha.
O interessante da trama é mostrar um homem inconformado, um sujeito consciente do meio em que vive. Apartidário, mesmo que seus amigos sejam comunistas e ataquem os nazistas da sua pequena cidade, ele segue evitando qualquer tipo de violência, mas a cada discurso de Hitler vai percebendo mudanças, seja no modo de pensar de seus vizinhos, na demissão daqueles que não seguem o regime e logo a violência vai surgindo e Elser vê a nuvem negra pairando no ar, assim se empenha ao máximo para dar um fim nisso. As cenas de interrogatórios e torturas são inúmeras e provocam angústia, o som ajuda a acentuar a violência que cometem contra Elser. A narrativa está comprometida em nos mostrar o porquê de seu ato e não o como ele elaborou seu plano. Os nazistas não acreditavam de forma alguma que apenas um homem seria capaz de tal façanha.
O que o filme quer expor é o como um regime autoritário se instala, aos poucos colocando ideias que seriam a salvação para um país, as pessoas descontentes e cansadas do mais do mesmo terminam por aderir, primeiro mudando o modo de pensar inserindo regras em "prol" do bem-estar coletivo, aquele que não vai de encontro a esses ideais toma consciência do perigo. Elser sentiu esse perigo com os discursos e a maneira com que Hitler estava conduzindo, a população estava se tornando cega. Foi por 13 minutos que Hitler se salvou, e aí refletimos se caso esse plano tivesse dado certo, será que as coisas iriam para um outro rumo, ou haveriam sucessores?
"13 Minutos" é um longa que traz um recorte curioso de um tema já tão desgastado no cinema, a Segunda Guerra, mas que se for mais a fundo propõe uma discussão de extrema importância, que é estar lúcido e contestar as ideologias políticas, pois seguir cegamente um partido será sempre sinal de maus tempos.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Sob a Sombra (Under the Shadow)
"Sob a Sombra" (2016) dirigido pelo estreante Babak Anvari é um filme de terror iraniano calcado no drama psicológico e em ricos simbolismos. A inovação está em colocar o contexto político dos anos 80, o conflito militar entre Irã/Iraque em evidência, o terror das explosões de bombas é misturado a uma abordagem sobrenatural da lenda Djinn, um espírito que exerce grande força decisiva sobre pessoas ou locais.
Teerã, 1988. A guerra entre Irã e Iraque ressoa pelo seu oitavo ano. Uma mãe e sua filha ficam pouco a pouco dilaceradas com as campanhas de bombardeio sobre a cidade junto com a sangrenta revolução do país. Lutando diariamente para ficarem juntas em meios aos terrores, um misterioso mal ronda o apartamento onde elas moram.
Shideh (Narges Rashidi) tenta recuperar o direito de voltar e concluir seu curso de medicina, anos atrás ela foi expulsa da faculdade por estar envolvida em manifestações políticas, porém seu pedido é negado, a situação da guerra só piora e seu marido médico formado é chamado para trabalhar na linha de frente em outra cidade, então Shideh e sua filha Dorsa (Avin Manshadi), ficam sozinhas no apartamento tendo de lidar com esse terrível cotidiano violento. O marido diz para elas saírem de lá e irem à casa de sua mãe, Shideh reluta e permanece em seu lar. Um dia, um míssil atinge o prédio e mata uma pessoa e ainda destrói boa parte da infraestrutura, Shideh não arreda o pé do local, enquanto os outros moradores se vão, o teto da sala está rachando e além do mais algo estranho começa a atormentar sua filha, a boneca preferida dela desaparece e a menina não irá a lugar algum sem ela, a atmosfera sombria, o medo e a tensão predomina. Dois tipos de situações assustadoras, o pavor das bombas e o do desconhecido que habita o apartamento, os alarmes do toque de recolher são constantes e há uma cena em que aterrorizadas por eventos sobrenaturais, Shideh sai às pressas com sua filha para rua e se esquece de colocar o véu e vai presa, o que nos faz lembrar da opressão vivida pelas mulheres no país. Aliás, o filme é recheado de metáforas envolvendo essas questões.
Destaque para a movimentação de câmera, todo o horror que a história possui advém disso, são cenas que produzem um efeito bastante aterrorizante. A essência do filme, talvez, se explique com uma frase dita por uma das personagens, de que as pessoas podem se convencer de que qualquer coisa é real se elas quiserem.
Destaque para a movimentação de câmera, todo o horror que a história possui advém disso, são cenas que produzem um efeito bastante aterrorizante. A essência do filme, talvez, se explique com uma frase dita por uma das personagens, de que as pessoas podem se convencer de que qualquer coisa é real se elas quiserem.
A ambientação é ótima, o uso das cores, só podia não ter o tão famigerado jump scare e alguns outros clichês do gênero, a cena do lençol, por exemplo. Mas, deixando isso de lado o filme inova colocando o contexto da guerra entre Irã e Iraque e a forma como a personagem se introduz no universo permeado pela lenda do Djinn, fazendo uma analogia inteligente do como o moralismo religioso engole as pessoas, especialmente as mulheres.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
O Presidente (The President)
"O Presidente" (2014) do sublime diretor e ativista Mohsen Makhmalbaf (Gabbeh - 1996, O Silêncio - 1998) retrata com imensa sensibilidade uma fábula sobre a destituição de um ditador e a substituição de uma violência por outra gerada a partir do ódio, da desordem e do desejo de vingança. Mohsen com um olhar inteligente e amplo nos oferece um ponto de vista difícil, porém essencial de que a violência seja qual for nunca será o caminho, a vingança contra o seu opressor é tão cruel quanto aquela sofrida.
Numa aldeia fictícia do Cáucaso, o Presidente (Mikheil Gomiashvili) em fuga tem apenas a companhia do neto (Dachi Orvelashvili) de cinco anos. Um golpe de Estado aconteceu e o ditador agora circula pelas terras que um dia governou disfarçado de músico. Pela primeira vez ele se aproxima realmente da gente que por tanto tempo liderou, finalmente conhecendo aquele que era seu povo.
Numa aldeia fictícia do Cáucaso, o Presidente (Mikheil Gomiashvili) em fuga tem apenas a companhia do neto (Dachi Orvelashvili) de cinco anos. Um golpe de Estado aconteceu e o ditador agora circula pelas terras que um dia governou disfarçado de músico. Pela primeira vez ele se aproxima realmente da gente que por tanto tempo liderou, finalmente conhecendo aquele que era seu povo.
O filme é todo composto por belas cenas de imenso impacto, ele já se inicia mostrando o poder concentrado na figura de um homem cruel, mas que exibe carinho por seu neto, a humanização do personagem, com um simples telefonema ordena que as luzes da cidade se apaguem, o menino brinca com o poder que lhe é oferecido e a repete até que de repente a ordem de acender não seja concedida, é o início da revolução. A família do governante pega um avião para outro país e o menino aos prantos não deseja ir, como ainda o Presidente não tinha noção da proporção dos acontecimentos fica com o neto, a situação se agrava rapidamente com os cidadãos em fúria e é obrigado a fugir, se disfarçando de músico. A jornada é humanista, mas não permite a redenção ao tirano, ele se vê diante do povo que sofreu com a suas maldades, antes a opulência o afastava da realidade, apenas ordenava, não via o sofrimento, agora relegado à miséria sente medo rodeado por uma população com sangue nos olhos para matá-lo, sua sensibilidade é ativada, mas principalmente por conta da convivência com seu neto. O medo o domina, ele vai fugindo e cada canto que se esconde continua oprimindo as pessoas, por exemplo, na casa do senhor que corta sua barba e cabelo. Interessante observar a gradativa despersonalização do garoto, antes um menino mimado que se exibia com títulos e honras, em sua inocência vai deixando de lado esses costumes, por muitas vezes comete deslizes ao se dirigir ao avô com pompa e elegância e fazer continências.
Por se passar em um lugar fictício essa fábula pode ser encaixada em qualquer sociedade, a mensagem é de como o poder transforma os seres humanos, e que é preciso tomar cuidado com políticos que exibem falácias agradáveis, que dizem o que queremos ouvir diante de situações críticas, onde nada mais parece funcionar o desejo de um líder cresce, se a população der poder suficiente, é certo que não acabará bem.
Por se passar em um lugar fictício essa fábula pode ser encaixada em qualquer sociedade, a mensagem é de como o poder transforma os seres humanos, e que é preciso tomar cuidado com políticos que exibem falácias agradáveis, que dizem o que queremos ouvir diante de situações críticas, onde nada mais parece funcionar o desejo de um líder cresce, se a população der poder suficiente, é certo que não acabará bem.
A reflexão sobre o poder e a violência é pertinente e causa um mal-estar, apesar da sensibilidade que o diretor imprime, a história é pesada e os alívios cômicos que perpassam algumas cenas é algo como um riso desesperado. Lidar com um personagem mal que não poupa a população da fome, trabalhos infantis, estupros e muita violência enquanto esbanja em seu palácio e logo após a derrocada se infiltrar disfarçado e conviver com essas pessoas dilaceradas e ainda tentando salvar seu pequeno neto - a inocência em meio a tanta odiosidade, é deveras muito complexo. Aproximamo-nos dele e à medida que a história avança e as pessoas compartilham as suas misérias que foram causadas por esse ditador, gera estranheza perante essa situação de humanização, mas percebemos que o ódio nunca é o caminho, é preciso refletir para percorrer de outra maneira, a violência que essa população quer cometer contra ele é também perversa, é um ciclo interminável de crueldades, é necessário parar para questionar. O filme propõe que pensemos nestes limites.
"O Presidente" é uma obra impactante que prima pelo debate e consciência, o regime extremista é sempre uma má escolha, o diretor sabe do que está falando, viveu na pele torturas e atentados, os filmes de Mohsen Makhmalbaf precisam ser vistos, são essenciais.
Destaque para a emocionante interpretação do pequeno Dachi Orvelashvili, é pra aplaudir de pé, suas inocentes ações causam tensão e toda a sua composição, olhares e gestuais são incríveis. O filme gera angustia e é delicadamente aflitivo.
"Reações violentas geram violência e, portanto, paz gera paz. Nossa responsabilidade, como artistas, é difundir o conhecimento. Só a cultura nos salva." (Mohsen Makhmalbaf)
Destaque para a emocionante interpretação do pequeno Dachi Orvelashvili, é pra aplaudir de pé, suas inocentes ações causam tensão e toda a sua composição, olhares e gestuais são incríveis. O filme gera angustia e é delicadamente aflitivo.
"Reações violentas geram violência e, portanto, paz gera paz. Nossa responsabilidade, como artistas, é difundir o conhecimento. Só a cultura nos salva." (Mohsen Makhmalbaf)
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Uma História de Loucura (Une Histoire de Fou)
"Uma História de Loucura" (2015) dirigido por Robert Guédiguian (As Neves do Kilimanjaro - 2011, O Fio de Ariane - 2014) é um filme humanista que coloca dois personagens distintos frente a frente, um conto de generosidade e um admirável trabalho no que confere a seu contexto histórico e do qual a trama se baseia, o genocídio armênio, este que foi um episódio horroroso da História, mas que não é lembrado e nem estudado como deveria. O filme levanta questões importantes sobre terrorismo, conflitos étnicos e a luta dos armênios pela reparação histórica.
O filme inicia-se com um prólogo em preto e branco que explica que existem outros tipos de guerras, elas continuam em decorrência de tanta intolerância e violência. "Eu penso que os momentos mais importantes da História não aconteceram nas guerras, nem em palácios, nem em corredores de parlamentos, mas em cozinhas, em quartos de casais e quartos de crianças. Talvez seja por isso que quando as guerras começam, elas nunca têm fim. Elas continuam de outras formas." No início do século XX, Talaat Paxa, turco responsável pelo massacre armênio é morto com um tiro na cabeça pelo sobrevivente armênio Soghomon Tehlirian, que acaba sendo absolvido pelo tribunal alemão e se torna um herói. Essa execução foi muito mais do que uma vingança, foi um elaborado plano da chamada Operação Nêmesis.
Após essa introdução a história anda duas gerações, no final dos anos 70 e centra-se em Aram (Syrus Shahidi), um rapaz de Marselha, de origem armênia que tem como ídolo Tehlirian, ele não é passivo como seu pai, então se embrenha na luta armada e explode o carro do embaixador turco em Paris. Um jovem ciclista que estava por perto fica gravemente ferido. Enquanto ele tenta entender o que aconteceu, a mãe de Aram entra em seu quarto de hospital e pede perdão. Daí observamos o drama de Gilles (Grégoire Leprince-Ringuet) que perde os movimentos das pernas e a sua obsessão por Aram depois que Anouch (Ariane Ascaride) o visita no hospital. Ele confuso com a nova situação vai parar na casa da família de Aram, que o hospedam e o tratam com carinho, Anouch tentará uma ponte entre os dois, no que ocasionará consequências inesperadas. Aram vive o cotidiano da guerrilha e com o tempo se questiona se vale a pena tirar vidas de inocentes em prol da visibilidade da luta. O filme propõe ao espectador que é preciso rever nossos conceitos perante os outros, nos colocarmos na pele e saber que cada um tem a sua própria motivação na vida.
O diretor Robert Guédiguian sempre com olhar afetuoso retrata as transformações que seus personagens sofrem por conta das escolhas. Outro ponto a acrescentar nesta belíssima e importante obra, é o diálogo que acontece sobre o modo que se vira uma página, a mãe de Aram diz: "existem páginas que nunca viramos". O genocídio armênio precisa ser lembrado, estima-se segundo registros oficiais que entre 600 mil e 1,8 milhão de pessoas foram mortas, enquanto outras centenas de milhares ficaram sem pátria. Não dá para acreditar que este pedaço da História ainda seja negado ou omitido por diversos países, inclusive a Turquia.
"Uma História de Loucura" tem a excelente qualidade de fazer que o espectador veja todos os ângulos da história e se coloque no lugar dos personagens, não julgando se está certo ou errado, mas simplesmente questionando a si próprio sobre o que faria em tal situação. A loucura parece não estar no ódio e na intolerância, mas no ato de ser gentil com o outro, esta parece ser a maior insanidade nos dias de hoje.
O diretor Robert Guédiguian sempre com olhar afetuoso retrata as transformações que seus personagens sofrem por conta das escolhas. Outro ponto a acrescentar nesta belíssima e importante obra, é o diálogo que acontece sobre o modo que se vira uma página, a mãe de Aram diz: "existem páginas que nunca viramos". O genocídio armênio precisa ser lembrado, estima-se segundo registros oficiais que entre 600 mil e 1,8 milhão de pessoas foram mortas, enquanto outras centenas de milhares ficaram sem pátria. Não dá para acreditar que este pedaço da História ainda seja negado ou omitido por diversos países, inclusive a Turquia.
"Uma História de Loucura" tem a excelente qualidade de fazer que o espectador veja todos os ângulos da história e se coloque no lugar dos personagens, não julgando se está certo ou errado, mas simplesmente questionando a si próprio sobre o que faria em tal situação. A loucura parece não estar no ódio e na intolerância, mas no ato de ser gentil com o outro, esta parece ser a maior insanidade nos dias de hoje.
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