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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Moolaadé

"Nenhuma menina será mais cortada!"

"Moolaadé" (2004) último filme dirigido por Ousmane Sembene (Faat Kiné - 2001) é um grito de liberdade contra uma suposta cultura religiosa, uma realidade cruel e bruta da qual meninas passam em prol da "purificação", a mutilação genital não é uma prática exclusiva do Islamismo, que aliás não está no Alcorão, é uma prática sem fundamento e selvagem que inferioriza a mulher. Em alguns lugares se a mulher não for circuncidada são excluídas da sociedade, este filme levanta questões importantes e impacta pela violência que essas mulheres passam, e certamente um meio de promover a rejeição a este ato.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
Nesta aldeia a única que enfrenta fortemente as Salindana, as mulheres que cortam as meninas, é Collé, tanto que não permitiu que sua filha passasse por isso, com a ajuda das outras duas esposas de seu marido, principalmente a mais velha, acolhe quatro meninas em sua casa e invoca o moolaadé, onde uma fita colocada no portão impede a entrada. A cada dia a situação se complica, os homens do vilarejo não aceitam que desmereçam o poder deles e mandam que o marido de Collé a chicoteie a fim de proferir as palavras que quebrem o moolaadé, mas ela aguenta firme e permanece lutando. A união das mulheres se intensifica quando a morte de uma criança se dá durante essa prática, da qual a própria mãe a sequestrou durante o açoite e a levou. Usando qualquer tipo de faca e feito no meio do mato, sem nenhum tipo de assepsia muitas não suportam e morrem, as outras sobrevivem com traumas físicos e psicológicos horrorosos. São cortados os pequenos e grandes lábios, além do clitóris em alguns casos, por estética e também por acreditarem que assim a gravidez será mais fácil. A cena em que Collé morde o dedo de tanta dor durante a relação sexual com o marido, devido as consequências da violência sofrida quando pequena é uma das mais fortes, juntamente com a que é açoitada.

É o retrato de tradições misóginas que vão sendo perpetradas por ignorância, mas graças a mulheres como Collé estão aos poucos sendo extintas. Em vários países em que esta prática é comum está sendo ilegalizada. É complicado redefinir uma cultura, há o embate entre direitos humanos e o valor antropológico, quando mulheres se opõem a este ritual são excluídas pelos homens por não terem sido purificadas, são rejeitadas pelo fato de rejeitarem um costume ancestral. Sem informação dificilmente se toma consciência, como demonstrado no filme o rádio foi um grande aliado, os homens até tentaram impedi-las, mas com o companheirismo e a busca por maior expressividade acabou se formando uma aliança capaz de resultados significativos. A cena final exemplifica um começo da liberdade feminina com o canto e a coragem.

"Moolaadé" é um levante feminista, a personagem Collé tão resistente e consciente é uma figura para se inspirar.
Ousmane Sembene compôs uma narrativa bela, envolvente, direta, prioriza o discutir de ideias, um filme político rico, lúcido e necessário.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Noivas - Nyfes - Νύφες

"Noivas" (2004) de Pantelis Voulgaris (Mikra Anglia - 2013) é um filme grego baseado em fatos reais que fala sobre o amor proibido.
Estamos em 1922. Niki é uma das 700 noivas encomendadas pelo correio, que navegam da Grécia para Nova Iorque a bordo de um navio para se juntar aos seus pré-arranjados imigrantes maridos. Um fotógrafo americano também está no navio. Ela encontrará seu novo marido em Chicago; ele está indo de volta para casa e de volta para seu casamento fracassado. Essas jovens gregas, búlgaras, romenas, armênias e turcas veem no casamento uma maneira de fugir da guerra greco-turca e começar uma nova vida, a maioria conhece seus noivos apenas por fotografias. O fotógrafo americano Norman Harris (Damian Lewis) está triste, pois suas fotos da guerra foram rejeitadas pelo jornal. Niki (Victoria Haralabidou) em última hora substituiu a irmã mais velha que rejeitou a ideia do casamento arranjado. Ele está na primeira classe, ela na terceira, mas no desenrolar os dois se conhecem e de imediato surge um encantamento. Niki é uma ótima costureira e por intermédio de Norman arranja trabalho na primeira classe. A paixão que acontece é forte, porém proibida. Niki defende a honra de sua família e não permitirá que o que sente estrague tudo. A honra ao nome da família é um valor bastante explorado no filme. 
A história é muito bem contada e é impossível não se prender a ela, a cada cena nos apaixonamos mais por Niki, uma mulher de semblante duro, mas de extrema delicadeza. Histórias de amor proibido sempre rendem algumas lágrimas e nesse não é diferente, as personagens são perfeitamente delineadas, observamos o drama de cada uma, o medo, a angústia, o sofrimento, e a esperança. Algumas são feitas de boba e acabam caindo em mãos erradas, são exploradas e infelizmente não têm o que fazer. São perdas, decepções, amores, incertezas, uma avalanche de sentimentos.

A trilha sonora é um primor, carregada de emoção. O roteiro se desenrola de maneira agradável e acabamos nos envolvendo demais, e esteticamente é impecável, tanto a ambientação como a fotografia é de encher os olhos, um dos momentos mais marcantes é quando Norman dá a ideia de fotografar todas as noivas.
É uma imensidão de sonhos e desespero. Os olhares de cada uma dizem tanto! Um lindo retrato sobre tradições, honra, paixões e perdas. É um filme delicado, sensível e muito bem produzido, aliás Martin Scorsese foi um dos produtores. Vale a pena descobrir essa joia rara do cinema grego, um romance bonito e capaz de deixar qualquer um com os olhos marejados.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Mundo (Shijie)

 
"O Mundo" (2004) de Jia Zhang-Ke (Mountains May Depart - 2015) retrata a China moderna e o quanto ela ainda é fechada, apesar de sua ocidentalização.
O parque Mundo fica na região central de Pequim e é o lugar onde os visitantes podem ver monumentos internacionais sem sair da cidade, ele exibe várias réplicas em menor proporção da Torre Eiffel, do Arco do Triunfo, do Big Ben, da Torre de Pisa, das Torres Gêmeas, do Taj Mahal, das Pirâmides do Egito, etc. Nesse falso universo acompanhamos a vida de alguns jovens, todos solitários, desamparados e sem perspectivas. Essa falsificação do mundo reflete muito bem o como os chineses se sentem em relação a suas vidas, em muitos diálogos dizem que não precisam sair de lá para ver o mundo e assim continuam a exercer atividades falsas em um lugar falso.
Alguns personagens se sobressaem, Tao vive suas fantasias no parque, a jovem dançarina e seu namorado fazem performances em frente à réplica do Taj Mahal, da Torre Eiffel e do Big Ben. Mas a relação dos dois está num impasse, pois Tainsheg sente-se atraído pela bela designer Qun que ele encontrou numa viagem. Enquanto isso, a jovem Xiaowei questiona seu futuro, já que o namorado Niu é um irresponsável. Todos eles formam o retrato de uma nova geração sem horizontes de futuro.
O filme é monótono, assim como a vida dos jovens representados, a sensação de vazio é enorme, Tao se apega a seu namorado e sente medo que ele a traia, inclusive diz que é capaz de matá-lo, Tainsheg se encanta por uma mulher mais velha que copia as roupas que fazem sucesso no ocidente. A história caminha sem grandes eventos, mostra-se o cotidiano no parque, as apresentações, o trabalho de segurança de Tainsheg e os relacionamentos confusos entre eles. Outro personagem que se destaca mesmo aparecendo pouco é irmãzinha, apelido de um amigo de infância de Tainsheng, que sai do interior para tentar trabalhar em obras, infelizmente seu desfecho não é satisfatório e vemos o como as pessoas se portam diante o fato, inclusive os familiares.
O diretor prima em retratar a realidade atual da China e o quanto seu desenvolvimento é rápido e abrupto. "O Mundo" disserta sobre a incomunicabilidade, a solidão, os avanços tecnológicos e o capitalismo. Jia Zhang-Ke é brilhante ao expor as relações humanas, o vazio e a sensação de deslocamento dos jovens chineses.

"O Mundo" tem um tom documental e uma fotografia exuberante em cores vibrantes, os personagens são distantes uns dos outros mesmo se relacionando, são sentimentos distorcidos por uma realidade que aprisiona e que sequer exibe uma luz que indique um caminho melhor. O parque é uma ilusão, os visitantes se exibem diante das réplicas, fotografam e dão a volta pelos cinco continentes em um dia, esquecem-se de seus problemas e se deslumbram com sonhos, assim como a própria propaganda prega. É um filme interessante e que propõe refletir sobre a rapidez agressiva com que a China cresce e o como isso reflete na população. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Brothers (Brødre)

Susanne Bier é expert em elaborar filmes densos sobre relações familiares, mas sem jamais apelar para sentimentalismos, suas histórias captam a essência da realidade, onde poderia acontecer com qualquer um. São situações em que é necessário lidar com circunstâncias da vida. "Brodre" acerta em cheio ao retratar o drama pelo aspecto psicológico, o como a violência da guerra age sobre a pessoa que a vivenciou, e para aqueles que estão ao lado convivendo.
Michael (Ulrich Thomsen) é um militar dinamarquês exemplar, casado com Sarah (Connie Nielsen) e pai de duas filhas. Ele é enviado com sua tropa para uma missão da ONU no Afeganistão. Seu irmão Jannik ( Nicolaj Lie Kaas), ao contrário, é a ovelha negra da família, recém-saído da prisão e com um histórico de irresponsabilidades. Logo ao chegar na zona de conflito o helicóptero de Michael é abatido e ele é dado como morto. Jannik, surpreendentemente, passa então a confortar a família do irmão, o que faz com que sua relação com Sarah ganhe um novo sentido. Mas Michael não morreu e quando ele retorna as coisas estão diferentes.
O desenvolvimento dos personagens é rápido, mostra como os irmãos são diferentes entre si e o relacionamento deles com a família, logo Michael se despede e vai para a guerra, imediatamente o helicóptero em que está despenca e é dado como morto. A partir de então Jannik assume uma postura mais madura e conforta a família do irmão, essa relação vai se estreitando, o que inicialmente nos faz sentir raiva, pois a situação é óbvia, o irmão se aproveitando para chegar mais perto da mulher abalada, que por sinal é muito linda. Mas conforme o desenrolar observamos a diferença entre um filme comum que descambaria para esse lado, e pelo primor da direção de Susanne Bier que coloca os sentimentos que permeiam as relações em foco, onde nem tudo é simples.
Ulrich Thomsen já é bem conhecido do público, fez muitos filmes americanos, mas destaco sua atuação em "The Silence" - 2010, do qual faz um pedófilo, é simplesmente incrível. Em "Brodre" interpreta Michael, um pai de família carinhoso, cheio de qualidades, o irmão mais velho protetor, mas a guerra lhe fez retirar de si sentimentos horríveis, e as ações geradas vão o perseguir a ponto de mudá-lo completamente. Quando retorna já não é mais o mesmo Michael, está fechado, irritadiço e ainda por cima percebe uma grande mudança em sua casa. Suas filhas parecem não ficar tão felizes por seu retorno, o que o faz gritar e amedrontá-las. As cenas chegam de forma austera, e do nada Michael pergunta a Jannik se está transando com Sarah, daí em diante tudo se transforma em desconfiança e violência.

A câmera evidencia a todo momento os olhares, e quando a emoção é posta pra fora é dilacerante, muito real. O violino pontua o drama e este vem estérico, de uma vez, como um grito. O interessante que o filme não expõe se Sarah realmente tem um caso com Jannik, são sentimentos implícitos, como quando Jannik sobe a escada enquanto Sarah toma banho, e a seguir desce correndo. Há sentimentos complexos envolvidos, e é evidente que Jannik respeita Michael.
Há um remake americano chamado "Entre Irmãos" do diretor Jim Sheridan, não sei se conseguiu captar todas as nuances de "Brodre", mas não há dúvidas de que tenha largas diferenças.

É um drama intenso, envolvente, cru e realista, o maior mérito do filme está no foco da mudança drástica que acontece em Michael, e o como isso afetou sua família. Quando ele volta espera encontrar um refúgio para poder amenizar suas dores causadas pela guerra, e pelas ações que foi obrigado a cometer, mas sua família acreditou que estava morto, seguiu em frente, e por isso as circunstâncias se dão de forma tão difíceis.
Repleto de sutilezas o clima é tenso. O longa da ótima Susanne Bier é de uma grandeza emocional sem tamanho.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

3 Extremos (Saam Gaang Yi)

"Três Extremos" (2004) é um filme que reúne três histórias distintas, a primeira é do diretor japonês Takashi Miike, "Box" fala sobre uma mulher (Mitsuru Akaboshi) assombrada por pensamentos constantes sobre a morte da irmã gêmea. A segunda é do diretor chinês Fruit Chan, "Dumplings" narra a busca eterna da juventude, uma atriz (Miriam Yeung) que, desesperada para rejuvenescer e atrair de novo a atenção do marido ausente, contrata uma cozinheira (Bai Ling), que lhe promete preparar uma iguaria não apenas deliciosa, mas que tem o dom mágico do rejuvenescimento. E a terceira é do coreano Park Chan-Wook, "Cut" é sobre um diretor de cinema (Lee Byung-Hun), feito refém por um homem misterioso, que lhe põe em uma sinuca de bico: se quiser evitar que a esposa pianista (Kang Hye-Jeong) perca os dedos, precisa estrangular uma criança, presa no mesmo quarto. As histórias mostram as misérias humanas e o quão longe chegamos para obter aquilo que desejamos.
"Três Extremos" dá sequência ao filme "Três" (2002) também seguindo a mesma linha, porém lançado ao grande público bem depois, devido ao sucesso de "Três Extremos". Os temas são perturbadores e qualquer um fugiria deles, mas os realizadores os colocam bem na nossa frente, mostrando o lado mais pérfido do ser humano, o ultrapassar da barreira, a loucura que o toma quando algo lhe invade a mente. Seja remorso, inveja, ou vingança.
É interessante notar as diferenças entre eles, na história japonesa há aquele terror melancólico, puxado para o sobrenatural, na chinesa se observa o apreço das imagens, as cores, as expressões, a protagonista ao mastigar sua refeição da beleza, e no coreano, para quem conhece Park Chan-Wook sabe de sua capacidade para criar histórias de vingança e violência, e mesmo assim conseguir colocar humor na trama.

"Box" é uma história surreal marcada por um momento de inveja e traição, protagonizada por uma jovem tradutora, que tem pesadelos constantes devido a uma situação trágica de sua infância. A força da culpa é expressada da forma mais dolorida. É recheado de simbolismos, de ritmo lento às vezes não sabemos se ela sonha ou vive a realidade, o remorso é por um acontecimento no circo onde ela e sua irmã se apresentavam, sentindo inveja do carinho que sua irmã recebia do pai, ela reagiu impulsivamente causando um acidente, este que a perseguirá pelo resto da vida. Estranhamente seus sonhos e sua realidade podem estar conectados. Imagens de culpa são expostas na tela, há momentos de claustrofobia e muita melancolia. "Box" é um delírio real.

"Dumplings" é para mexer com nosso psicológico e nosso estômago. Uma atriz rica e balzaquiana preocupa-se com a sua vaidade. Sabe que seu marido já não sente mais atração por ela, então decide recorrer a um método um tanto quanto excêntrico. Ela procura uma famosa cozinheira de bolinhos que promete trazer o viço da juventude novamente, mas para isso é preciso aceitar as suas condições, é necessário que ela saiba que o ingrediente principal são fetos, considerados altamente nutritivos. Até onde você iria para ter sua juventude de volta? Uma crítica explícita sobre os limites da vaidade, e a loucura que muitos se submetem em nome dela. "Dumplings" virou um longa-metragem chamado "Escravas da Vaidade" (2004).

"Cut" é sobre um diretor famoso, rico e bonito que é feito de refém por um de seus figurantes, este revoltado por sempre fazer papéis que nunca são vistos, declara que não gosta da cara de bonzinho do diretor. O figurante arquiteta um plano do qual inclui a mulher do diretor amarrada com os dedos presos nas teclas do piano, tudo que o refém tem que fazer é estrangular uma criança sentada no sofá para salvá-la, claro que nem tudo é simples assim, o diretor tenta convencê-lo que não é perfeito, seus valores são colocados em xeque, mas não adianta muito, alguns dos dedos da mulher já foram cortados. É uma trama bem elaborada com reviravoltas espetaculares. Com muito humor negro, a inveja, o ódio, a vingança e a violência se faz presente.

"Três Extremos" serve, sobretudo, para conhecermos três tipos de técnicas de direção, onde todos desconstroem seus personagens a fim de mostrar suas loucuras ocultas, o lado do qual evitamos pensar que existe em cada um de nós. Mesmo que as histórias pareçam bizarras, é inevitável não pensar sobre. O fato de fazer alguém sofrer para obter o que se quer, viver com a culpa, o preço pago para ser bonita e admirada, lidar com a inveja, esconder seus medos, viver de acordo com a imagem criada para si. É uma sucessão de pensamentos que esses três curtas apresentam. É cinema da melhor qualidade!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Whisky

"Whisky" (2004) nos faz lembrar que é preciso olhar com mais carinho para o cinema latino, sabemos que a Argentina tem se destacado com muito vigor e inteligência abrangendo um grande público, o Chile também tem nos presenteado com maravilhas, assim como Colômbia, Peru e Uruguai, que apesar de produzir pouco sabe fazer cinema de qualidade, simples mas eficaz.
"Whisky" é um filme monótono, repetitivo, de sorriso amarelo igual aos dos retratos que colocamos em cima dos móveis, para que quem os veja perceba que ali moram pessoas "felizes". Os personagens são pessoas comuns completamente vazias por circunstâncias da vida e de qualquer forma não querem mudar sua rotina, preferem continuar numa repetição diária e sem graça. Dirigido pela dupla Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella (este suicidou-se em 2006), é um filme que fala sobre solidão com boas doses de um bom humor amargo.
Em Montevidéu vive Jacobo (Andres Pazos), um homem de 60 anos que vive sozinho desde a morte de sua mãe. Desde então sua única alegria na vida é a pequena fábrica de meias que possui. Marta (Mirella Pascual) é uma mulher de 48 anos que é o braço direito de Jacobo na fábrica, onde trabalha como supervisora. Marta e Jacobo possuem uma espécie de dependência mútua, apesar dos assuntos entre eles sempre ficarem em torno do trabalho. Até que um dia Herman (Jorge Bolani), o irmão de Jacobo, avisa que irá a Montevidéu para participar da matzeiva, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman não vai a Montevidéu há mais de 20 anos, tendo faltado até mesmo no funeral de sua mãe, sendo que também tem uma pequena fábrica de meias, localizada no Brasil.
A visita de Herman desperta em Jacobo a velha competição existente entre os irmãos, desse modo ele faz uma proposta a Marta: que ela seja sua esposa durante a visita de Herman. Marta aceita a proposta. Ela passa então a morar no apartamento de Jacobo, onde ambos passam a se dedicar em enganar Herman durante sua estadia. Marta trabalha para Jacobo na fábrica de meias, de certo modo ele depende dela para que as coisas sigam seu rumo diário, depois da notícia da vinda do irmão de Jacobo, este resolve fazer a proposta para que ela fique em sua casa por uns dias, ela muito prestativa aceita, talvez por realmente gostar do patrão, ou simplesmente porque não tem mais nada na vida para se ocupar. Com a chegada de Herman ela se transforma, vemos em seus olhos um fio de esperança, no passeio que os três fazem a um hotel percebemos o quanto de vida há naquela mulher. Jacobo por sua vez não dá o braço a torcer, seus olhares de soslaio para Marta indicam que ele se importa, mas não é capaz de mudar o que há tanto tempo se solidificou.

Herman é o típico judeu que pensa em trabalhar, trabalhar e ganhar dinheiro, é mais alegre que o irmão, construiu uma família de verdade, expandiu os negócios, mas ao final descobrimos que não é tão feliz, pois não consegue aproveitar os benefícios de suas longas horas de trabalho. Quando Herman vai embora, Jacobo volta para sua rotina, Marta arruma suas coisas e vai embora com um grande vazio e desesperança, um choro amargo a invade, como se a vida fosse um fardo. O filme fala pelas entrelinhas, mas sabemos exatamente o desfecho de cada um deles.
"Whisky" conquistou vários prêmios internacionais, entre os quais se destaca o prêmio da crítica da mostra "Um Certo Olhar" do Festival de Cannes de 2004. Neste mesmo ano, o filme foi uma das sensações do Festival de Gramado, ganhando os kikitos de melhor filme latino, melhor atriz (Mirella Pascual) e prêmio do júri popular.
"Whisky" é a palavra que um dos personagens do filme, um fotógrafo, pede para as pessoas dizerem, para que se apresentem sorrindo nas fotos, ou seja, uma falsa ilusão.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Inocência (Innocence)

Baseado na história do escritor alemão Frank Wedekind, o filme se passa num mundo imaginário, onde garotas são educadas separadas da família e o ensino se baseia na dança, na educação física e na biologia. Depois de conhecer sua nova escola, isolada no meio de uma floresta, a menina Iris, de seis anos, logo percebe a regra primordial a ser seguida: a obediência. Mas quando descobre que uma das alunas mais velhas deixa a escola todas as noites para uma reunião secreta, ela arrisca seu futuro para tentar desvendar o mistério. Frágil é o tempo da inocência, sempre à espera de quebrar no nascimento das primeiras perguntas, que insistem em romper a visão pura e despreocupada de um mundo mais simples e belo. A chegada de Iris inicia um novo ciclo, as fitas coloridas colocadas no cabelo são trocadas anunciando uma nova ordem, e Bianca, a mais velha, prepara-se para abandonar o bosque, anunciando a partida para um mundo exterior.
Mademoiselle Edith (Marion Cotillard) é a professora primária, coxa. Mademoiselle Eve (Hélène de Fougerolles) é a professora de balé que molda as meninas segundo uma educação rígida, na qual ensina que a única e possível metamorfose da beleza é delicada e aplaude-se com asas. E toda a menina que voa para além do seu casulo num corpo ainda de menina tem o seu destino traçado a sangue.
Não se sabe de onde vieram, quem são os pais, nem quem as traz para este lugar, trazidas dentro de um caixão elas vivem estrategicamente distribuídas por cinco casas no meio de uma estranha floresta. "Inocência" tem um clima de conto de fadas, mas diferente dos convencionais ele contém angústias e um desejo de descoberta insaciável.
A fotografia é inebriante, rodeada por um verde hipnotizante, a natureza e o chilrear dos pássaros, as meninas pulam corda, afastadas do mundo externo vivem conforme são conduzidas, mas o desejo de sair dali aparece em algum momento e decisões tem que ser tomadas, se cruzarem a linha e aventurarem-se ao desconhecido consequências serão atribuídas,
As dúvidas do amadurecimento, as incertezas que corroem traz a fragilidade em cada uma das personagens. As repostas não são dadas, o final aberto nos dá o poder de decifrá-las, são metáforas e simbolismos sobre o estágio mais difícil e bonito da vida. É delicado e misterioso, são múltiplas sensações sentidas.

O que vemos é o caminho de descoberta individual que se chama crescimento, e tudo é envolvido em enigmáticos quadros de deslumbramento visual. "Inocência" é uma espécie de fábula sobre a preservação desta, sobre a passagem da infância para a fase adulta, é um filme cheio de sentimento e poesia, tudo se encaixa perfeitamente: interpretação, ambiente, cenário, figurino, e o clima nos dá a possibilidade de sentir coisas que talvez já esquecemos, ou até nunca tínhamos sentido antes.
"Inocência" é um filme do qual não é possível ver tudo com nitidez, é como um véu aderido ao corpo, vê-se, mas apenas seus relevos, assim nos dá a chance de reconstruir tudo o que acontece.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Casa Vazia (Bin-Jip)

 
Kim Ki-Duk é um diretor que se exprime através de imagens conforme o decorrer da narrativa, privilegiando a estética visual em detrimento dos diálogos, o espectador tira suas próprias conclusões em determinar o sentido metafórico que essas imagens representam.
Tae-suk é um jovem que vagueia na sua moto em busca de casas vazias onde possa ficar alguns dias até que os donos regressem. Nunca rouba ou estraga nada dentro da casa. Simplesmente, guarda-a durante alguns dias, arruma objetos estragados e até lava a roupa. Um dia, invadindo uma casa rica encontra o seu destino, uma mulher casada chamada Sun-hwa, que sofre tormentos nas mãos do seu marido. Enquanto Tae-suk se esgueira pela casa, Sun-hwa esconde-se no escuro e espreita-o silenciosamente. Nessa noite, Tae-suk acorda petrificado quando descobre Sun-hwa a olhar para ele. Vai embora. Mas mesmo depois de partir, Tae-suk não consegue deixar de pensar nos olhos tristes e suplicantes de Sun-hwa. Quanto mais tenta esquecê-la, mais vívida se torna a imagem daquela mulher.
É difícil classificar "Casa Vazia". Será um filme sobre amor? Tratando-se de uma abordagem espiritual entre dois seres? Todas essas questões surgem quando o assistimos. Mas a verdadeira beleza do longa está na contemplação do silêncio. Com poucos diálogos, os protagonistas tem a tarefa de elevar o filme às custas da expressividade facial. Tal como em "Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera" - 2003, o realizador coreano apresenta um retrato de caracterização de personagens baseando-se em diversos aspectos metafóricos e simbólicos. Em "Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera" a água simbolizava o elemento condutor da vida e as estações do ano simbolizavam as várias etapas da vida. Em "Casa Vazia" destaca-se o simbolismo de um taco de golfe, o Ferro 3, curiosamente este é o taco mais forte e pesado que existe. Com este objeto ele se vinga do marido de Sun-hwa por tê-la agredido, e é através deste objeto que o amor à primeira vista acontece, pois ela se sente protegida ao ver ele atacando o seu marido.
Este filme é para ser sentido e não entendido, o tanto de sentimentos envolvidos, frustrações, desespero nos protagonistas, sabe-se só de olhá-los, não requer explicações, está tudo lá na face dos personagens. 
A ideia de família desaparece e reina a inevitabilidade da solidão e do silêncio. O lar passa a ser fugidio, e de casa em casa busca-se um lar, busca-se uma vida qualquer. Mas mesmo assim nas circunstâncias mais adversas como na prisão, o personagem sente-se em casa, tendo um lar, porque a sociedade pode lhe tirar tudo, menos uma coisa: sua liberdade. Algumas vezes soa como um filme sobre um processo de resistência. Isso fica claro na cena da prisão em que, enquanto o guarda violenta o protagonista, ele encontra formas de resistir, de transcender à violência daquele mundo, até se tornar semi-invisível, imaterial, como a tradição das artes marciais japonesas.

No filme todo só existe uma música tocada, todas as vezes que eles chegam em alguma casa ligam o toca CD sempre de maneira ritualizada. A música é Gafsa (Nome de uma cidade da Tunísia), de uma cantora e compositora belga que canta em árabe, Natacha Atlas.
Tae-suk vai treinando para se tornar uma entidade capaz da invisibilidade e assumir e viver a vida dos outros. Lá pelo final Sun-hwa sabe que ele está ali na casa dela, mas não o vê e sabendo que está atrás, abre os braços e vai andando de costas até prendê-lo contra a parede. Quando o marido sai os dois se encontram, sobem numa balança que marca 0Kg, nesse momento eles estão livres de todo o peso, desmaterializados e ao mesmo tempo completos.

"Somos todos casas vazias à espera de alguém que nos abra a porta e nos liberte."

terça-feira, 8 de maio de 2012

Edukators (Die Fetten Jahre Sind Vorbei)

Jan (Daniel Brühl) e Peter (Stipe Erceg) moram juntos e, secretamente, são os Edukators, dupla revolucionária que invade mansões vazias, mudam de lugar todos os móveis e deixam misteriosos bilhetes com mensagens, como: "Seus dias de abundância estão contados". Jule (Julia Jentsch), namorada de Peter, encara privações financeiras desde que bateu seu carro no Mercedes de um ricaço, o empresário Hardenberg (Burghart Klaußner), e foi condenada a ressarci-lo pelo caríssimo conserto, o que ela considera uma tremenda injustiça. Afinal, terá de trabalhar durante sua vida inteira para pagar o prejuízo de 100 mil, enquanto que esse carro não faz a mínima diferença para o empresário.
Quando Peter viaja para Barcelona, Jan e Jule se aproximam e o rapaz se comove com o drama dela, então resolvem invadir a mansão de Hardenberg para lhe dar uma lição. Mas os dois acabam tendo problemas e devem recorrer à ajuda de Peter para sequestrar o empresário. É quando eles começam a perceber que seus ideais, apesar de estarem corretos, não cabem mais no mundo de hoje, especialmente depois de descobrirem que o empresário fora um militante como eles na década de 70. Ainda por cima eles têm de lidar com um triângulo amoroso no grupo.
Ao mesmo tempo em que "Edukators" procura uma solução para o capitalismo e as corporações, como as que usam mão de obra infantil para fabricar tênis que custam centenas de reais, soluções pacíficas acabam não dando resultado. O filme mostra que as mudanças devem acontecer primeiro em nós mesmos para que, depois, possamos mudar algo lá fora. "Edukators" não é uma apologia à revolução, muito menos ao fato de que ela não exista mais. O filme de Hans Weingartner (A Cabana - 2011), que também foi um revolucionário em sua juventude, mostra por meio de um inteligente roteiro, que é melhor agirmos a simplesmente pensarmos na ação. Nem sempre a ação é bem-sucedida, mas pelo menos aprendemos.
O filme poderia ser manipulador e fazer do milionário um vilão detestável e dos jovens nossos heróis, mas não é o que acontece. Para quê trabalhar tanto e acumular coisas que nem se tem tempo para usufruir? O milionário diz que é da natureza humana competir e querer juntar mais e mais. Tal justificativa é das mais furadas, já que nada é natural, tudo é construído. Somos condicionados a acreditar que o que dizem é o certo. E o que é natural não pode ser combatido. O filme humaniza o ricaço a tal ponto que ficamos com pena, mas o final nos dá um tapa na cara e diz: "Há pessoas que nunca mudam".

O sistema capitalista precisa dos pobres para que hajam os ricos, se não for dessa forma, não funciona, o ritmo é quebrado. É revoltante ver pessoas morando em verdadeiros palácios, usando roupas de marca, carros luxuosos, iates, enquanto crianças passam fome e adoecem; ou mesmo a pessoa comum que trabalha 12 horas por dia para ganhar um salário miserável. As melhores ideias permanecem, por isso é importante não nos acomodarmos, mesmo que pense que não interfira na sua vida, pois de algum modo reflete, seja na TV, fazendo com que acredite que está tudo no lugar, na política e afins. É importante se mexer e buscar entender como funciona o sistema e se posicionar. A alienação da sociedade precisa terminar, por isso filmes como esse são sempre bem-vindos. Esse é o cinema alemão contemporâneo!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Operário (The Machinist)

Christian Bale como Trevor Reznik está irreconhecível, ele emagreceu aproximadamente 30 kg e surpreendeu na atuação, seu personagem há mais de um ano não dorme, não se alimenta direito, e sente no corpo e na mente o resultado de sua insônia, fazendo com que ele nem saiba mais o que é real ou alucinação.
Trevor trabalha em uma indústria e tem uma vida aparentemente normal, se não fosse o fato de não dormir há um ano. Envergonhado por causa de seu problema, se isola e torna-se cada vez mais paranoico, depois de se envolver em um acidente do qual o colega perde um braço, ele acaba achando que todos estão conspirando para demiti-lo. Todos o culpam pelo ocorrido, mas ele nem sabe quem é Ivan (o cara que perdeu o braço), e passa a procurá-lo, nessa busca ele conhece a prostituta que sonha se casar com ele, a mulher da cafeteria aonde vai todos os dias e fora isso ele mantém um joguinho de forca na porta da geladeira, que durante o filme são preenchidas e onde tudo se encaixa.
Impressionante o clima sombrio que o filme tem, fazendo com que os sentimentos do personagem realcem ainda mais aos nossos olhos curiosos, e nos perguntemos durante todo o filme: o que será que vai acontecer e que rumo essa história vai tomar? É daquelas histórias para se juntar todas as peças e ir descobrindo aos poucos. O personagem demora para perceber que está surtando, já nós sabemos desde o início que está tudo errado na cabeça dele.

Esse filme é um suspense e um Thriller psicológico muito bem produzido. Com influências de Crime e Castigo e O Idiota de Dostoiévski, é uma trama pra lá de envolvente, repleta de mistérios e coroada pela maravilhosa atuação de Christian Bale.