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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Dégradé

"Dégradé" (2015) escrito e dirigido pelos irmãos Arab Nasser e Tarzan Nasser é uma obra forte e eficaz em retratar a realidade de mulheres que vivem próximas a Faixa de Gaza, o ponto de vista feminino aumenta o terror de todas as consequências dos inúmeros conflitos e opressões diárias. É aflitivo, caótico e claustrofóbico.
Christine (Victoria Balitska), uma russa que vive em Gaza, gerencia um salão de beleza vizinho ao quartel-general de uma gangue. No pátio que separa os dois, Ahmed, um dos chefes locais, exibe com orgulho o leão que acaba de roubar do zoológico da cidade. Quando a polícia inicia uma operação para libertar o animal, o clima na região fica tenso, deixando Christine, sua filha, uma assistente e dez clientes sitiadas no salão. Em meio ao fogo cruzado, ela precisa preparar uma noiva e opinar sobre os problemas amorosos de suas clientes. Tudo isso enquanto o leão cochila logo ao lado.
Acompanhamos intimamente durante algumas horas várias mulheres em um salão de beleza localizado numa região perigosa e que é palco de muitos conflitos, enquanto esperam sua vez discutem, conversam e enfrentam os mais variados problemas, Christine se desdobra para atendê-las e tem a missão de preparar uma noiva que está sob os olhares atentos da sogra que dita o como deve ser o corte de seu cabelo, a opressão está por todas as partes, as conversas vão ganhando tons sombrios à medida que a confusão lá fora aumenta. São mulheres diferentes entre si, mas todas carregando pesos de suas histórias, Christine luta para manter seu salão, ela diz que ali é melhor que o lugar que veio, mesmo faltando energia dá um jeito e junto de sua assistente Wedad (Maisa Abd Elhadi), que sofre pelo romance com Ahmed e seus rompantes, lida com as clientes sem paciência, especialmente, Eftikhar (Hiam Abbass), seu comportamento antipático revela uma faceta de angústia por estar envelhecendo, a todo momento se olha no espelho e se compara com as mais novas. Dentre todas a que mais se sobressai é Safia (Manal Awad) e seus diálogos engraçados com a mais religiosa do grupo, ela toma um remédio à base de ópio e, claro, que essa sua forma de agir acaba revelando algo triste, entre essas mulheres há uma grávida que a qualquer momento pode dar à luz, só que não há como sair, estão confinadas nesse pequeno estabelecimento por conta do conflito que toma proporções caóticas onde grupos rivais se enfrentam, além da presença de um leão.

A história dá preferência aos diálogos e o ponto de vista que cada uma tem do entorno faz o espectador se aproximar da realidade da região de uma maneira única e verdadeira, as relações com os maridos, a beleza, a família, religião e política e seus diversos grupos armados nos dá uma abrangência para compreender a dificuldade de se viver nesse local opressivo. A tensão permeia todo o desenrolar, sempre se espera pelo pior e os nervos ficam à flor da pele, os cabelos que nunca são concluídos, as mulheres que impacientemente aguardam sua vez, a energia que cessa e os tiros e explosões lá fora, um verdadeiro inferno.

"Dégradé" é uma obra afitiva e que retrata com potência a tamanha instabilidade de se viver na Faixa de Gaza, os conflitos entre os grupos radicais e seus ataques levando qualquer um que esteja por perto, não vemos absolutamente nada do que acontece lá fora, sentimos o desespero junto dessas mulheres que confinadas tentam se controlar e continuar o processo de se arrumarem, algo tão corriqueiro em qualquer parte do mundo, mas que nesse local se transforma numa tour de force, deveras uma pequena e sincera amostra do quão opressiva é a vida da mulher palestina, seja diante dos grandes e inúmeros conflitos, nas relações amorosas e até mesmo nas pequenas atividades diárias. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Omar

"Omar" (2013) de Hany Abu-Assad (Paradise Now - 2005) é um filme marcante que retrata a realidade conflituosa entre Israel e Palestina e o como a vida das pessoas são afetadas por conta disso.
Um drama político entrelaçado a uma história de um casal de apaixonados, o jovem Omar e Nadia, irmã de Tarek, um velho amigo que dirige uma célula de resistência nos territórios ocupados. Os jovens se veem no meio do conflito entre o serviço secreto israelense e os guerrilheiros palestinos. Ambos são igualmente impiedosos. Para visitar Nadia, Omar precisa escalar o muro construído para separar os territórios. Acompanhamos a dura realidade de Omar (Adam Bakri), um padeiro palestino que se arrisca ao pular o muro que separa os territórios para encontrar seus amigos de infância Tarek (Eyad Hourani) e Amjad (Samer Bisharat), que fazem parte da resistência contra a ocupação, e juntos armam ataques ao serviço secreto de Israel, mas o seu principal motivo ao enfrentar tanto perigo é Nadia (Leem Lubany), irmã de Tarek. Ele sonha em se casar com ela e em breve pedirá a sua mão ao amigo. Tudo muda quando um deles atira em um dos soldados de Israel e a força policial vai atrás deles, Omar é pego e torturado para que entregue os seus companheiros, porém ele se mantém calado, só que o Agente Rami (Waleed Zuaiter) ao se disfarçar de muçulmano e amigo consegue uma simples frase de Omar que mudará a sua vida por completo. Eles sabem quem é o cabeça, e então dão a liberdade a Omar com a condição de que ele descubra o paradeiro de Tarek. Omar se encontra numa grande encruzilhada ao se ver nos dois lados.
A relação entre Omar, Tarek e Amjad se complica quando cresce a suspeita de que um deles poderia ter sido o delator, a tensão é enorme. A subtrama envolvendo Nadia dá algumas reviravoltas, Omar deseja se casar com ela, eles trocam cartas e juras de amor, além dele se arriscar todos os dias para vê-la, mas algumas situações o faz ficar com o pé atrás. Revelações são feitas e ficamos tristes por Omar e a questão que fica é: Quem realmente era seu inimigo?

Omar é um personagem cativante, ele tem um lado ingênuo em relação ao amor e a amizade, até mesmo depois de levar violentos golpes da vida. "Omar" é recheado de cenas de ação e constantemente vemos o protagonista fugindo e pulando obstáculos. Adam Bakri tem grande naturalidade ao atuar, impossível não se encantar por ele. O filme mescla muito bem o lado político e conflituoso com o romance, é uma trama simples, mas com muitas reviravoltas que envolvem medo, raiva e traição. Não há clichês, a história é dura e o final impactante nos faz pensar no quão sofrido deve ser morar em um local desses em que a paz infelizmente está longe de chegar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Paradise Now

"Paradise Now" (2005) é um filme palestino que retrata um pouco do conflito que há na região de Israel, a guerra santa vem acontecendo há centenas de anos e ainda hoje causa muitas mortes. Os muçulmanos enfrentam judeus sob a forma de terrorismo e é aí que entra os homens-bomba. Aqui no ocidente temos uma visão um pouco distorcida sobre os ideais dessas pessoas, não conseguimos entender como um ser humano se sacrifica em prol de uma religião ou política. Os enxergamos como loucos, fanáticos, violentos, ignorantes, e a mídia contribui extremamente para que tenhamos essa ideia, mas o que acontece realmente não sabemos, pois vivemos numa cultura adversa e completamente distante. Esse filme nos faz chegar perto desses caras, vemos tudo pelos olhos deles, sem a distorção que provavelmente um filme americano faria, os colocando do lado do ódio. Em "Paradise Now" observamos a realidade vivida e os motivos que levam homens a se entregarem em nome de um ideal.
Dois jovens amigos palestinos, Khaled e Said, são recrutados para cometerem um atentado suicida em Tel Aviv. Após a última noite com as famílias, sem se despedirem, são levados à fronteira com as bombas atadas à volta do corpo. No entanto, a operação não ocorre como esperado e eles se perdem um do outro. Separados, são confrontados com o seu destino e as suas próprias convicções. Said e Khaled são amigos desde pequenos e trabalham juntos, a vinda de um dos líderes do terrorismo muçulmano convocando os dois para uma missão de repente os assusta, mas apesar de serem pegos de surpresa, era exatamente o que queriam, ir os dois juntos. Enfim, o destino estava chamando por eles.
O filme tem cenas excepcionais e tensas, como quando Said se perde do amigo ao se deparar com os inimigos na fronteira, ele anda pela cidade com a bomba acoplada ao corpo, o outro volta à base e a retira, os líderes acham que Said é um traidor por não ter voltado, e então Khaled vai em busca de seu amigo. Said fica confuso e nós esperamos que tudo exploda a qualquer momento, pois ele está desesperado com a situação. Ele tenta entrar em Israel e a cena em que ele desiste de entrar num ônibus por visualizar crianças e pessoas inocentes é impressionante.

Os terroristas fazem uma interpretação muito fria do Alcorão, eles costumam citar trechos aos seus seguidores e os fazem recitá-los antes da ação, é como se fosse uma música que os acalmassem e acreditassem de fato no que estão fazendo. O Alcorão não pode ser resumido em trechos, ele é complexo e contraditório e muitos acreditam que Alá quer que eles combatam o inimigo sob a forma de violência. Além da religião, há o aspecto político também, e a Palestina sofre demais com a economia, o estado permanente de guerra na região desde a criação do Estado de Israel em 1948, a destruição gerada pelos conflitos inviabiliza o crescimento econômico do país e o comércio é prejudicado pelo controle de Israel sobre as fronteiras palestinas.
Interessante que Khaled é o mais convicto em executar a missão, até faz discurso para a mídia, mas conforme o desenrolar muda de ideia, principalmente pela conversa que tem com Suha, mulher da qual se interessou, ela apresenta uma outra visão: Será que esses atos de fato mudarão alguma coisa?

É um filme humano que mostra que os homens-bomba não são monstros, eles têm medo, muitas vezes são pessoas manipuladas que veem neste ato algo maior, alguns acreditam até em anjos os levando para o paraíso se realizarem a tal missão.
Há discursos que nos fazem compreender pelos menos um pouco a situação desse povo, elucida sobre o aspecto de ideais e da necessidade de se fazer algo para mudar a atual conjuntura, mesmo que seja sacrificando a si mesmo. "Paradise Now" é válido por mostrar homens-bomba sob a perspectiva deles próprios.