quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O Homem que Mudou o Mundo (The Gathering Storm)
Dificilmente um outro período na História da humanidade será marcado por um personagem tão crucial como o século XX o foi por Winston Churchill. "The Gathering Storm" retrata o quão importante foi esta figura emblemática.
Chartwell, Inglaterra, 1934. Em sua casa Winston Churchill (Albert Finney), que agora tem 60 anos, está enfrentando problemas privados e públicos. No aspecto particular, a violenta queda da bolsa fez a fortuna de sua família ser severamente atingida e, no público, o político que foi o mais dinâmico membro do Parlamento, com um dom de oratória que manteve a Câmara dos Comuns sempre no centro das atenções, é visto agora como um alguém muito ultrapassado. Porém, o idoso estadista se recusa a parar, continuando a falar aquilo que pensa, apesar de receber críticas até mesmo do seu partido. Em relação à ascensão de Adolf Hitler e do nazismo, ele vê nisto uma ameça nova para a segurança da Europa e da Grã-Bretanha, mas como a grande maioria dos seus compatriotas concorda com o primeiro-ministro, Stanley Baldwin (Derek Jacobi), que abomina fazer qualquer coisa que poderia conduzir a outra Guerra Mundial, as advertências de Winston passam despercebidas. É quando Ralph Wigram (Linus Roache), um dos aliados políticos de Churchill, lhe mostra um documento ultrassecreto que diz que Hitler ordenara que os donos de aviões civis registrassem as aeronaves no Ministério da Aeronáutica. Winston Churchill vê que isto pode ser o que precisa para fazer seus críticos levarem Hitler seriamente.
Albert Finney encarnou perfeitamente o personagem, ele é o próprio Churchill, emocionante sua atuação, digna e esplendorosa. "The Gathering Storm" (2002) é um filme coproduzido pela BBC - HBO e retrata os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, e nos permite observar o quão grandioso era Winston Churchill, ele próprio sabia disso e fazia questão de lembrar as pessoas de seu convívio. Interessante também era a relação com a esposa Clementine, e o quanto esta o amava.
Conhecer um pouco mais da História sob olhares diferentes é sempre engrandecedor, assim como poder ver os anos que antecederam a atroz II Guerra. Notável era a personalidade de Churchill, arrogante, mau-humorado mesmo quando fazia piada e sempre impaciente, isso tudo por conta de sua depressão e o fato de não se sentir amado pela família.
Winston Churchill foi um estadista britânico, famoso principalmente por ser o primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. No período entre guerras se dedicou fundamentalmente à redação de diversos tratados. No entanto, a entrada de Grã-Bretanha na Segunda Guerra marcou sua hora decisiva, ao ser eleito primeiro-ministro em 1940, devido a desastrosa política levada ao cabo por seu predecessor Neville Chamberlain. O exemplo de Churchill e sua incendiária oratória lhe permitiram manter a coesão espiritual do povo britânico nas horas de prova suprema que significaram os bombardeios sistemáticos da Alemanha sobre Londres e outras cidades do Reino Unido. Em 1953, Churchill recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, por suas memórias de guerra e seu trabalho jornalístico. Foi o primeiro a cunhar o termo "cortina de ferro" para ilustrar a separação entre Europa comunista e a ocidental.
A sequência "Into the Storm" (Tempos de Tormenta) foi lançada em 2009, Churchill é interpretado por Brendan Gleeson e a história oferece um olhar íntimo sobre como nasce um herói, quando Churchill estava na plenitude do comando e da eficiência. O filme mostra o processo que o tornou um grande líder em tempos de guerra.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
3 Extremos (Saam Gaang Yi)
"Três Extremos" (2004) é um filme que reúne três histórias distintas, a primeira é do diretor japonês Takashi Miike, "Box" fala sobre uma mulher (Mitsuru Akaboshi) assombrada por pensamentos constantes sobre a morte da irmã gêmea. A segunda é do diretor chinês Fruit Chan, "Dumplings" narra a busca eterna da juventude, uma atriz (Miriam Yeung) que, desesperada para rejuvenescer e atrair de novo a atenção do marido ausente, contrata uma cozinheira (Bai Ling), que lhe promete preparar uma iguaria não apenas deliciosa, mas que tem o dom mágico do rejuvenescimento. E a terceira é do coreano Park Chan-Wook, "Cut" é sobre um diretor de cinema (Lee Byung-Hun), feito refém por um homem misterioso, que lhe põe em uma sinuca de bico: se quiser evitar que a esposa pianista (Kang Hye-Jeong) perca os dedos, precisa estrangular uma criança, presa no mesmo quarto. As histórias mostram as misérias humanas e o quão longe chegamos para obter aquilo que desejamos.
"Três Extremos" dá sequência ao filme "Três" (2002) também seguindo a mesma linha, porém lançado ao grande público bem depois, devido ao sucesso de "Três Extremos". Os temas são perturbadores e qualquer um fugiria deles, mas os realizadores os colocam bem na nossa frente, mostrando o lado mais pérfido do ser humano, o ultrapassar da barreira, a loucura que o toma quando algo lhe invade a mente. Seja remorso, inveja, ou vingança.
É interessante notar as diferenças entre eles, na história japonesa há aquele terror melancólico, puxado para o sobrenatural, na chinesa se observa o apreço das imagens, as cores, as expressões, a protagonista ao mastigar sua refeição da beleza, e no coreano, para quem conhece Park Chan-Wook sabe de sua capacidade para criar histórias de vingança e violência, e mesmo assim conseguir colocar humor na trama.
"Box" é uma história surreal marcada por um momento de inveja e traição, protagonizada por uma jovem tradutora, que tem pesadelos constantes devido a uma situação trágica de sua infância. A força da culpa é expressada da forma mais dolorida. É recheado de simbolismos, de ritmo lento às vezes não sabemos se ela sonha ou vive a realidade, o remorso é por um acontecimento no circo onde ela e sua irmã se apresentavam, sentindo inveja do carinho que sua irmã recebia do pai, ela reagiu impulsivamente causando um acidente, este que a perseguirá pelo resto da vida. Estranhamente seus sonhos e sua realidade podem estar conectados. Imagens de culpa são expostas na tela, há momentos de claustrofobia e muita melancolia. "Box" é um delírio real.
"Dumplings" é para mexer com nosso psicológico e nosso estômago. Uma atriz rica e balzaquiana preocupa-se com a sua vaidade. Sabe que seu marido já não sente mais atração por ela, então decide recorrer a um método um tanto quanto excêntrico. Ela procura uma famosa cozinheira de bolinhos que promete trazer o viço da juventude novamente, mas para isso é preciso aceitar as suas condições, é necessário que ela saiba que o ingrediente principal são fetos, considerados altamente nutritivos. Até onde você iria para ter sua juventude de volta? Uma crítica explícita sobre os limites da vaidade, e a loucura que muitos se submetem em nome dela. "Dumplings" virou um longa-metragem chamado "Escravas da Vaidade" (2004).
"Cut" é sobre um diretor famoso, rico e bonito que é feito de refém por um de seus figurantes, este revoltado por sempre fazer papéis que nunca são vistos, declara que não gosta da cara de bonzinho do diretor. O figurante arquiteta um plano do qual inclui a mulher do diretor amarrada com os dedos presos nas teclas do piano, tudo que o refém tem que fazer é estrangular uma criança sentada no sofá para salvá-la, claro que nem tudo é simples assim, o diretor tenta convencê-lo que não é perfeito, seus valores são colocados em xeque, mas não adianta muito, alguns dos dedos da mulher já foram cortados. É uma trama bem elaborada com reviravoltas espetaculares. Com muito humor negro, a inveja, o ódio, a vingança e a violência se faz presente.
"Três Extremos" serve, sobretudo, para conhecermos três tipos de técnicas de direção, onde todos desconstroem seus personagens a fim de mostrar suas loucuras ocultas, o lado do qual evitamos pensar que existe em cada um de nós. Mesmo que as histórias pareçam bizarras, é inevitável não pensar sobre. O fato de fazer alguém sofrer para obter o que se quer, viver com a culpa, o preço pago para ser bonita e admirada, lidar com a inveja, esconder seus medos, viver de acordo com a imagem criada para si. É uma sucessão de pensamentos que esses três curtas apresentam. É cinema da melhor qualidade!
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Camelos Também Choram (Die Geschichte Vom Weinenden Kame)
"Camelos Também Choram" (2003) está entre os documentários mais lindos e emocionantes que já vi, retrata uma cultura totalmente desconhecida a nós e um tanto quanto excêntrica. Sabemos que para as comunidades que vivem no deserto os camelos são essenciais, e este documentário explora exatamente isso, as adversidades de se viver em um ambiente inóspito, sem muito com o que se preocupar, além das necessidades básicas, e o camelo está entre elas.
Há uma fêmea em particular prestes a dar à luz, que protagoniza toda a história, porém após o parto tão sofrido, ela rejeita o potrinho albino. Então a comunidade tenta de qualquer jeito que a mãe aceite o filhote, mas nada funciona e isso se reflete em seus olhinhos desesperados.
O camelo realmente é um animal curioso, os povos acostumados a eles contam diversas lendas de como foram criados por Deus. Resistentes e leais, apenas espreitam o horizonte sem fim do deserto. É impressionante a determinação das pessoas em fazerem que a mãe o aceite, é feito de tudo, rituais e mais rituais, mas o melhor fica para o final. Segundo a tradição, quando um camelo recém-nascido é recusado pela sua mãe, um músico é chamado para emocioná-la, que com lágrimas nos olhos, aceita então o pequeno camelo.
O documentário também mostra o conflito e a aceitação entre gerações, não somente entre os camelos, mas também entre a família dos nômades. São quatro gerações unidas por um estilo de vida que ainda existe na Mongólia. O episódio de quando um dos filhos, após uma viagem à cidade, pede aos pais que tenham uma TV em sua barraca é um exemplo. Um dos membros mais velhos diz: "Passará a gastar o dia inteiro vendo as imagens no vidro. Isso não é bom!". A sabedoria do homem mais velho não é ouvida, pois nos mais novos o efeito da vida moderna acaba influenciando. A família de fato é verdadeira, vive naquele ambiente e daquela maneira, assim como as situações retratadas, todas acompanhadas pela dupla de diretores, que originalmente queriam fazer um filme sobre o povo do deserto, uma vez que os antepassados da diretora Byambasuren Davaa vem desta linhagem; o drama do jovem camelo rejeitado foi apenas um acontecimento registrado pela câmera.
O estilo de vida totalmente desprendido dos nômades nos chama bastante atenção, tudo é muito simples e verdadeiro, a nossa realidade parece ser ridícula e pequena diante ao mundo deles, afinal não precisamos de muito para sobreviver, mas o documentário é livre de julgamento.
Os camelos são animais melancólicos que parecem sempre esperar por algo, é comum vê-los fitando incansavelmente o horizonte. O registro de amor que esse povo tem pelo animal é singelo e inesquecível.
O documentário busca humanizar o camelo, um animal tão distante da nossa realidade, e de forma completamente leve nos fascina diante o fato de que camelos também choram, e sim, por questões emocionais.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Como Estrelas na Terra (Taare Zameen Par)
Ser professor deveria ser uma das profissões mais gratificantes, mas não é bem isso que vemos, passar conhecimento é uma dádiva, um dom. Ensinar é uma arte e nela reside o amor, sem ele os ensinamentos não servem de nada.
Ensinar à base de regras e cabresto só faz a criança odiar aprender, elas decoram, mas não compreendem, por isso existe toda uma técnica para lidar com o ensino, óbvio que é necessário disciplina, mas não quer dizer que para isso é preciso castrar a imaginação de uma criança, que é fundamental para a aprendizagem.
Sabemos que cada criança é única, na infância já dá para perceber o adulto que se tornará, portanto, é nesta fase que o conhecimento deve ser passado não como dever, mas como prazer, para mais tarde se tornar autoconfiante na vida. Hoje em dia se formam apenas seres humanos automatizados, importando-se apenas com o dinheiro que a profissão escolhida lhe trará, o amor pelo trabalho não existe. No filme fica claro a crítica de que os pais não podem gerar expectativas nos filhos, moldando seu destino, pressionando com uma carreira a seguir, a verdade é que cada um tem suas qualidades e potenciais, afinal somos diferentes e todos têm desejos.
Na história Ishaan é um garoto de oito anos que não possui muitos amigos. Vive com sua família em um conjunto habitacional na Índia. Ishaan apresenta muitas dificuldades na escola, tendo sido reprovado no ano anterior. Já seu irmão é o melhor da classe, tendo sucesso nos esportes também. Após uma reunião com os professores de Ishaan, que informam aos pais que o menino não apresenta avanços na escola, eles decidem enviar o garoto a um colégio interno para que seja disciplinado e consiga êxito nos estudos. Após um período em que se torna cada vez mais triste e solitário, sofrendo severas punições dos professores, Ishaan conhece o professor Nikumbh, que além do trabalho no colégio, leciona também em uma escola para crianças com necessidades especiais. É o professor Nikumbh que descobre que Ishaan tem dislexia e dessa forma o ajuda, e daí por diante ele começa a compreender o mundo da leitura e da escrita e vê sua infância tomar um rumo diferente.
"Como Estrelas na Terra" é um longa que todos os professores e pais deveriam assistir, para compreender que seus alunos/filhos são únicos e especiais, e também entender a dislexia, pois muitos a desconhecem e nem sabem que existe. Quando julgar uma criança por ser preguiçosa, é preciso verificar se está tendo algum problema de aprendizado e concentração.
O cinema indiano é fascinante, os roteiros são elaborados, criativos, inteligentes e belíssimos, e por mais que os filmes sejam longos, beirando a três horas, não é cansativo, neste o desenvolvimento é muito natural e emocionante, as músicas são inseridas todas no contexto da história, o que faz ser ainda mais bonito. O garotinho no início realmente nos dá uma certa raiva, sua desconcentração, desleixo e falta de jeito é mostrada de forma real, pois é assim que as crianças com dislexia agem, e os pais acreditando ser frescura ou vagabundagem, só pioram a situação. Por isso é necessário ter professores qualificados para entender os sinais da criança com o problema. Aamir Khan faz um professor super dedicado e totalmente apaixonado pela sua arte de ensinar, percebe o potencial do menino com a pintura e a utiliza para impulsioná-lo de modo que dê confiança e assim conseguindo aprender as outras matérias.
Vale muito a pena conferir este longa, principalmente para as escolas seria uma opção maravilhosa. A história nos faz chorar e sorrir, mas sobretudo, aprender, mesmo que saibamos de cor e salteado tudo que está sendo mostrado.
A dislexia é caracterizada por dificuldade na aprendizagem da decodificação das palavras. Pessoas disléxicas apresentam dificuldades na associação do som à letra e também costumam trocar letras, por exemplo, b com d, ou mesmo escrevê-las na ordem inversa. A dislexia, contudo, é um problema visual, envolvendo o processamento da escrita no cérebro, sendo comum também confundir a direita com a esquerda. Disléxicos costumam ter o lado direito do cérebro mais desenvolvido que o esquerdo. Com isso, possuem facilidade para atividades ligadas à criatividade e empreendimentos.
Por curiosidade alguns famosos disléxicos: Winston Churchill, Agatha Christie, Walt Disney, Leonardo Da Vinci, Einstein, Charles Darwin, Thomas A. Edison, Vincent van Gogh, Napoleão Bonaparte, George Washington, Pablo Picasso, Tom Cruise e Whoopi Goldberg.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Os Infratores (Lawless)
Baseado em fatos reais, o longa tem como inspiração o livro "The Wettest County in the World", de Matt Bondurant, neto de Jack Bondurant.
A história é sobre os irmãos desta família, que vivem no Condado de Franklin, Virginia. Na década de 1930, o cenário é o da lei seca. Os irmãos são Jack (Shia Labeouf), o mais novo que tem sempre de provar o seu valor aos outros. Forrest (Tom Hardy), o mais velho; chefe da família, e Howard (Jason Clarke), o mais temido dos três, muito por seu comportamento explosivo. A família tem um bar, mas suas atividades se resumem a fazer um Whisky clandestino de boa qualidade. Atividade que apesar de ilegal, é amplamente aceita e difundida entre as pessoas da região. O problema se inicia com a chegada do corrupto agente federal de Chicago, Charley Rakes (Guy Pearce), que deseja organizar o comércio de bebidas daqueles caipiras, fazendo valer a sua autoridade sobre um xerife, que também não concorda com os métodos deles.
Mesmo que o filme não aborde fatos da lei seca, é muito competente, pois mostra o lado dos pequenos produtores da época. A família é marcada por uma lenda, indestrutíveis os irmãos Bondurant tocam um negócio clandestino muito bem aceito pelas pessoas, ninguém se mete, e até eles acreditam na própria lenda. Jack, o mais novo é quem muda o rumo da história, mesmo que não acreditem que consiga seguir os passos da família foi ele que expandiu os negócios.
Os atores coadjuvantes também estão ótimos, Guy Pearce como Charles Rakes é extremamente caricato e excêntrico, seus trejeitos e figurino dizem tudo. Mia Wasikowska faz o par romântico de Jack, uma moça doce e singela. Jessica Chastain faz uma prostituta que trabalha no bar da família e que se envolve com o durão Forrest. Só Gary Oldman teve uma participação pequena, o ator faz um mafioso da cidade grande que determina regras.
Nos simpatizamos logo de cara com os personagens e torcemos pelos fora da lei, há muito sangue, violência e romance. Essa é a história de pessoas simples que não se curvavam diante as autoridades corruptas da época, continuavam com suas rotinas, mesmo que isso acarretasse em violência, na verdade, a história nos conta sobre lealdade, família, amizade e amor. Os três diferentes entre si se protegiam cada um à sua maneira.
Todos nós conhecemos as grandes figuras que despontaram no mercado negro na época da lei seca (uma das medidas políticas mais infelizes criadas), Al Capone é a mais notória desta fase. Mas de fato nunca se abordou os pequenos produtores, famílias, neste caso os Bondurant, envoltos em uma lenda e num ambiente rural. Destaque para Tom Hardy como Forrest, quieto, líder do negócio e jeito simples, que acreditava piamente na lenda criada pelas pessoas em relação a eles. Shia Labeouf como Jack se faz interessante, diferente dos irmãos não é violento, é mais humano e visionário, tanto que ele abre uma destilaria longe dos olhos das autoridades, escondida no meio da floresta e começa a ganhar bastante dinheiro.
A história em certos pontos é exagerada, mas se desenvolve bem, em meio a tanto filmes de gangsteres "Os Infratores" dirigido por John Hillcoat, do pós-apocalíptico "A Estrada" (2009), tem seus méritos, sem glamour nenhum ficamos encantados com a família Bondurant.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Motores Sagrados (Holy Motors)
"Holy Motors" (2012) é um filme inicialmente confuso, mas para olhos atentos ele contém críticas, pensamentos e uma porção de simbolismos. Após 13 anos sem dirigir um longa-metragem, o francês Leos Carax retorna às telas com um filme feito especialmente para quem não quer se acostumar com o mais do mesmo, para aqueles que buscam um cinema diferenciado e recheado de "porquês". O título na tradução literal é "Motores Sagrados" e reverencia o cinema por aquilo que faz dele uma arte: a reprodução mecânica do movimento da vida.
A trama não segue padrões de começo, meio e fim, mas propõe uma sucessão de histórias que tem como fio condutor o incrível ator Denis Lavant. Numa limusine que circula por Paris, o milionário Monsieur Oscar troca de roupas, de disfarces, tornando-se ora uma velha mendiga, ora um assassino brutal, ora um amante nostálgico, ora um pai melancólico. As imagens dão o tom de mistério, nos instiga a saber sobre aquele homem que troca de roupa e de rosto toda vez que entra em sua limusine. O filme inicia com o próprio diretor Leos Carax. Ele caminha por um quarto com um papel de parede de uma floresta, ao fundo ouvem-se animais e pássaros. Na cena seguinte, somos levados a uma sala de cinema onde os espectadores dormem enquanto assistem a uma projeção na tela. Isso tudo representa a banalização do cinema, somos conduzidos a ver sempre o mesmo, um show de efeitos especiais que não querem dizer absolutamente nada. Já as produções que querem dizer algo, geralmente levam a maioria ao mais profundo sono, é como se o artista não precisasse mais ter o dom, mas sim uma bela imagem artificial que chame o público. Parece que a arte de fazer surpreender não existe mais, o deslumbrar-se diante a uma imagem. E é isso que "Holy Motors" simbolicamente critica. Mas a minha visão preferida do filme é a de que usamos máscaras no nosso dia a dia para nos relacionar com diferentes pessoas, pois não falamos e não agimos da mesma forma com todos. Para cada um existe uma máscara, um código, e no fim nem sabemos mais quem somos na essência. Oscar se despe de si mesmo para interpretar, somos levados a diversos lugares, onde ele representa seus papéis para conseguir cumprir suas missões. A bordo da limusine podemos ver ele como realmente é, em seus intervalos conversando com sua motorista vemos que ela também consegue ser ela mesma, onde expõe suas lembranças e ideias, pois no final ela coloca uma máscara ao sair da limusine, para o mundo ela se fecha e esconde-se, já a bordo ela é quem é.
Em uma dessas missões Sr. Oscar representa um tipo esquisito que come flores e passeia pelos esgotos da cidade, (sim, vemos Paris completamente diferente), ele acaba saindo em um cemitério, onde está havendo um ensaio fotográfico, lá a modelo apenas posa, sem nenhuma expressão facial, de repente ele a sequestra e a leva para um lugar onde desconstrói sua beleza e come dinheiro. Uma crítica clara a esse mercado que mecaniza as pessoas e as tornam fúteis, a ostentação por dinheiro e o fingimento de que não existe mais nada além daquilo. Ali naquele submundo a criatura estranha equipara-se a modelo, quando destrói a imagem dela criada pela beleza estereotipada. Sem dúvidas essa é uma das melhores cenas.
O filme nos dá aquele chacoalho, pois não podemos nos acomodar, nos acostumar com que nos é dado em demasia, e isso reflete tanto ao cinema com os filmes que são jogados aos montes, e a nossa própria vida. Quanto de nós realmente é nosso? Será que estamos sendo honestos conosco? O pior é viver a vida inteira trocando de máscaras para sermos aceitos, deixamos-nos ser conduzidos pelos outros, sem nem ao menos nos perguntar aonde estamos indo na verdade.
"Holy Motors" causa diversas impressões, é um filme completamente abrangente e cada vez que se pensa nele as possibilidades aumentam. É genialidade na melhor forma. A estética inova em cada cena, uma das mais lindas é um tipo de balé, onde duas pessoas cobertas por luzinhas no mais completo breu interagem numa espécie de êxtase, num sexo virtual. Kyle Minogue faz uma ponta no filme e canta melancolicamente, numa das cenas que o protagonista faz ele mesmo. Pode ser interpretado como surreal, mas é impossível ficar indiferente, é preciso assisti-lo diversas vezes para captar toda sua abrangência. Difícil falar deste longa, mas é super recomendado e uma experiência única a se levar para vida toda.
"Holy Motors" passeia por vários caminhos e nos instiga, ele vai muito além do gostar ou não. Está além de adjetivos que o qualifiquem, ou rótulos como pseudo-cult, pretensioso e afins, está a frente disso tudo. E não demora muito para perceber o quão amplo pode ser, basta ter a mente aberta e absorvê-lo, tirar a venda dos olhos, desconstruir nosso olhar perante o cinema e buscar a essência do deslumbramento, e os questionamentos diante a vida.
Somos repletos de clichês e os utilizamos a nosso próprio benefício. A sociedade robotizada é explicitada de tal forma que há uma cena em que ele simula uma volta ao lar e abraça macacos, como se dissesse que precisamos voltar ao primitivo, que falta humanidade, e a beleza dos atos já não funcionam mais. Há também a visão de que os atores podem viver a vida que quiserem dentro do cinema, é uma das inúmeras possibilidades que o filme aborda, mas se apegar a uma é se fechar para tantas outras. "Holy Motors" pode ser considerado um dos melhores filmes da atualidade. Livre-se de preconceitos, rótulos, clichês, todas as predefinições e mergulhe de cabeça nesta obra tão singular e abrangente.
A trama não segue padrões de começo, meio e fim, mas propõe uma sucessão de histórias que tem como fio condutor o incrível ator Denis Lavant. Numa limusine que circula por Paris, o milionário Monsieur Oscar troca de roupas, de disfarces, tornando-se ora uma velha mendiga, ora um assassino brutal, ora um amante nostálgico, ora um pai melancólico. As imagens dão o tom de mistério, nos instiga a saber sobre aquele homem que troca de roupa e de rosto toda vez que entra em sua limusine. O filme inicia com o próprio diretor Leos Carax. Ele caminha por um quarto com um papel de parede de uma floresta, ao fundo ouvem-se animais e pássaros. Na cena seguinte, somos levados a uma sala de cinema onde os espectadores dormem enquanto assistem a uma projeção na tela. Isso tudo representa a banalização do cinema, somos conduzidos a ver sempre o mesmo, um show de efeitos especiais que não querem dizer absolutamente nada. Já as produções que querem dizer algo, geralmente levam a maioria ao mais profundo sono, é como se o artista não precisasse mais ter o dom, mas sim uma bela imagem artificial que chame o público. Parece que a arte de fazer surpreender não existe mais, o deslumbrar-se diante a uma imagem. E é isso que "Holy Motors" simbolicamente critica. Mas a minha visão preferida do filme é a de que usamos máscaras no nosso dia a dia para nos relacionar com diferentes pessoas, pois não falamos e não agimos da mesma forma com todos. Para cada um existe uma máscara, um código, e no fim nem sabemos mais quem somos na essência. Oscar se despe de si mesmo para interpretar, somos levados a diversos lugares, onde ele representa seus papéis para conseguir cumprir suas missões. A bordo da limusine podemos ver ele como realmente é, em seus intervalos conversando com sua motorista vemos que ela também consegue ser ela mesma, onde expõe suas lembranças e ideias, pois no final ela coloca uma máscara ao sair da limusine, para o mundo ela se fecha e esconde-se, já a bordo ela é quem é.
Em uma dessas missões Sr. Oscar representa um tipo esquisito que come flores e passeia pelos esgotos da cidade, (sim, vemos Paris completamente diferente), ele acaba saindo em um cemitério, onde está havendo um ensaio fotográfico, lá a modelo apenas posa, sem nenhuma expressão facial, de repente ele a sequestra e a leva para um lugar onde desconstrói sua beleza e come dinheiro. Uma crítica clara a esse mercado que mecaniza as pessoas e as tornam fúteis, a ostentação por dinheiro e o fingimento de que não existe mais nada além daquilo. Ali naquele submundo a criatura estranha equipara-se a modelo, quando destrói a imagem dela criada pela beleza estereotipada. Sem dúvidas essa é uma das melhores cenas.
O filme nos dá aquele chacoalho, pois não podemos nos acomodar, nos acostumar com que nos é dado em demasia, e isso reflete tanto ao cinema com os filmes que são jogados aos montes, e a nossa própria vida. Quanto de nós realmente é nosso? Será que estamos sendo honestos conosco? O pior é viver a vida inteira trocando de máscaras para sermos aceitos, deixamos-nos ser conduzidos pelos outros, sem nem ao menos nos perguntar aonde estamos indo na verdade.
"Holy Motors" causa diversas impressões, é um filme completamente abrangente e cada vez que se pensa nele as possibilidades aumentam. É genialidade na melhor forma. A estética inova em cada cena, uma das mais lindas é um tipo de balé, onde duas pessoas cobertas por luzinhas no mais completo breu interagem numa espécie de êxtase, num sexo virtual. Kyle Minogue faz uma ponta no filme e canta melancolicamente, numa das cenas que o protagonista faz ele mesmo. Pode ser interpretado como surreal, mas é impossível ficar indiferente, é preciso assisti-lo diversas vezes para captar toda sua abrangência. Difícil falar deste longa, mas é super recomendado e uma experiência única a se levar para vida toda.
"Holy Motors" passeia por vários caminhos e nos instiga, ele vai muito além do gostar ou não. Está além de adjetivos que o qualifiquem, ou rótulos como pseudo-cult, pretensioso e afins, está a frente disso tudo. E não demora muito para perceber o quão amplo pode ser, basta ter a mente aberta e absorvê-lo, tirar a venda dos olhos, desconstruir nosso olhar perante o cinema e buscar a essência do deslumbramento, e os questionamentos diante a vida.
Somos repletos de clichês e os utilizamos a nosso próprio benefício. A sociedade robotizada é explicitada de tal forma que há uma cena em que ele simula uma volta ao lar e abraça macacos, como se dissesse que precisamos voltar ao primitivo, que falta humanidade, e a beleza dos atos já não funcionam mais. Há também a visão de que os atores podem viver a vida que quiserem dentro do cinema, é uma das inúmeras possibilidades que o filme aborda, mas se apegar a uma é se fechar para tantas outras. "Holy Motors" pode ser considerado um dos melhores filmes da atualidade. Livre-se de preconceitos, rótulos, clichês, todas as predefinições e mergulhe de cabeça nesta obra tão singular e abrangente.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
A Riviera Não é Aqui (Bienvenue Chez les Ch'tis)
"A Riviera Não é Aqui" (2008) é uma das comédias francesas mais aclamadas, e não é à toa já que o tom usado é deveras muito engraçado. Só que a graça do filme deve ser ainda maior para quem é francês. "Bienvenue Chez les Ch'tis" título original faz referência ao sotaque da população que vive mais ao norte da França, eis a palavra abreviada Ch'tis do título. O sotaque é recheado de chiados e gírias, praticamente um novo idioma para os franceses que habitam o sul. Uma boa dica é assistir o filme dublado, assim podemos dar muitas risadas, pois não faz sentido a nós o original, já que não conhecemos a região e suas esquisitices. Não sou muito fã de filme dublado, prefiro legendado, mas dou crédito aos dubladores, é uma profissão não muito reconhecida e os filmes de comédia tendem a ser bons. E este é um deles.
A história é a seguinte: o diretor de uma agência de correios em Salon-de-Provence (no sul da França), Philippe Abrams (Kad Merad), sonha em ser transferido para a bela Riviera Francesa, para agradar a sua esposa, Julie, de natureza depressiva. Para vencer os concorrentes que também almejam a transferência, o personagem articula uma fraude que resulta em consequências desastrosas. A punição do funcionário fraudulento é ser transferido para Bergues, uma pequena cidade no norte do país. Para o casal, essa nova realidade é um pesadelo, pela iminência de partir em direção a uma região fria e encontrar uma população de hábitos e linguajar completamente diferentes dos seus.
Já na chegada as confusões começam, na primeira noite na casa do carteiro Antoine Bailleul (Danny Boom, também diretor), responsável por aguardar Philippe na cidade, o constrangimento diante os hábitos alimentares a que tem que se submeter para se socializar, e sobretudo, a graça com o peculiar dialeto chamado "Ch'ti". Mas com o tempo o vilarejo se torna agradável aos seus olhos antes preconceituosos. O sentimento de outrora que não deixava ele ficar, agora não permite que ele parta. Assim ele vai ter que resolver um grave problema, pois a sua mulher pensa que ele está odiando o lugar, mas a verdade é que está amando a solicitude do povo. Na sua cabeça o lugar era o pior do mundo, frio de congelar a alma, comidas estranhas, idioma ininteligível. E agora como dizer a mulher o contrário? E o pior, ele não quer mais ir embora.
O choque cultural é algo que sempre dá certo dentro do cinema, mesmo que esse seja de regiões tornou-se um grande elemento para o sucesso. O tom de comédia ajuda e nos faz simpatizar com os habitantes que eram vítimas de preconceito por parte dos franceses, digamos da "cidade grande", onde se evidencia apenas o status social. Mas quando nosso protagonista se vê diante de pessoas simples, que se importam umas com as outras, e que o desejo de vida é outra, isso acaba mexendo com ele, a pensar no que realmente importa. Barreiras são ultrapassadas, e o que é um sotaque em meio a tanto carinho e amor?
As interpretações são exageradas e caricatas, chegando ao histérico, mas logo os ânimos se acalmam. As piadas são ótimas, principalmente as que vem com o sotaque, imagino o quão engraçado é para os franceses. E deve ser por isso o motivo do sucesso estrondoso na época (2008), uma das maiores bilheterias no país.
É uma boa opção de comédia fora dos padrões. Junta-se o útil ao agradável se ainda por cima amar o cinema francês, somos brindados com ótimas paisagens, e um retrato pouco conhecido, já que os franceses sempre são tão elegantes e cheios de charme. Aqui eles são estridentes e bem maluquinhos.
Como já dito, assistir o filme dublado não faz mal, pois o sotaque ganha um ótimo tom, por exemplo, o S acaba ganhando som de X, foras as gírias engraçadíssimas, "hã, biloute?!"
"A Riviera Não é Aqui" é uma sátira muito divertida que mostra o quanto somos preconceituosos, julgando-se melhor por morar num lugar que dizem ser superior que o outro. Grande engano!
O choque cultural é algo que sempre dá certo dentro do cinema, mesmo que esse seja de regiões tornou-se um grande elemento para o sucesso. O tom de comédia ajuda e nos faz simpatizar com os habitantes que eram vítimas de preconceito por parte dos franceses, digamos da "cidade grande", onde se evidencia apenas o status social. Mas quando nosso protagonista se vê diante de pessoas simples, que se importam umas com as outras, e que o desejo de vida é outra, isso acaba mexendo com ele, a pensar no que realmente importa. Barreiras são ultrapassadas, e o que é um sotaque em meio a tanto carinho e amor?
As interpretações são exageradas e caricatas, chegando ao histérico, mas logo os ânimos se acalmam. As piadas são ótimas, principalmente as que vem com o sotaque, imagino o quão engraçado é para os franceses. E deve ser por isso o motivo do sucesso estrondoso na época (2008), uma das maiores bilheterias no país.
É uma boa opção de comédia fora dos padrões. Junta-se o útil ao agradável se ainda por cima amar o cinema francês, somos brindados com ótimas paisagens, e um retrato pouco conhecido, já que os franceses sempre são tão elegantes e cheios de charme. Aqui eles são estridentes e bem maluquinhos.
Como já dito, assistir o filme dublado não faz mal, pois o sotaque ganha um ótimo tom, por exemplo, o S acaba ganhando som de X, foras as gírias engraçadíssimas, "hã, biloute?!"
"A Riviera Não é Aqui" é uma sátira muito divertida que mostra o quanto somos preconceituosos, julgando-se melhor por morar num lugar que dizem ser superior que o outro. Grande engano!
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