quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Outra Margem (Gagma Napiri)

"A Outra Margem" (2009) dirigido pelo georgiano George Ovashvili, nos conta uma emocionante e comovente história. Tedo e sua mãe são refugiados da Abecásia, região da Geórgia, escapando da chamada "limpeza étnica". Doente, o pai de Tedo foi obrigado a ficar para trás. Agora, mãe e filho vivem numa cabana abandonada no subúrbio de Tbilisi, a capital georgiana. Tedo é aprendiz de mecânico e sua mãe trabalha como balconista. Muitos anos se passaram desde a mudança deles, mas Tedo ainda não consegue se adaptar ao novo ambiente. Ele se culpa por não conseguir contribuir financeiramente para melhorar a situação deles e tem sérias dificuldades em aceitar a vida que sua mãe leva. Ver sua mãe com um amante foi a gota d'água e ele decide voltar para casa atrás de seu pai. Ele espera que isso irá resolver todos os seus problemas e trazer seus sonhos de volta.
Na sua jornada, ele passa por diversas aventuras e cruza com variadas pessoas que o fazem entender mais sobre a vida. Tedo encontra muitas pessoas pelo caminho e por vezes não é bem recebido pelo fato de ser refugiado, ele sofre duros golpes, e quando acha que já viu de tudo, ao chegar no lugar onde pensa encontrar seu pai, percebe que era tudo fruto de sua imaginação, seu pai constituiu outra família para poder ficar no lugar onde se encontra, e Tedo se vê sozinho e abalado pelos acontecimentos.
Às vezes é melhor ficar onde estamos, porque podemos encontrar coisas que não queremos, desenterrar um passado pode custar caro, a Tedo custou a sua ilusão e um futuro incerto. Pouco sabemos sobre a guerra civil na Geórgia e seus sistemas separatistas. É um assunto atual, porém pouco explorado. Tedo faz parte dessa história e nos mostra o quão difícil é viver nesse meio. Na verdade pouco importa a guerra para Tedo, ele só quer encontrar o pai, um caminho do qual é pior que qualquer guerra, a sensação da esperança sendo arrancada de forma brusca é a mesma.
Esse é um tipo de cinema que vale muito a pena conferir. "A Outra Margem" ganhou mais de 27 prêmios ao redor do mundo. Isso se deve a atuação do garoto e de sua expressão física e emocional. Nos arrebata de maneira suave e natural. No início o vemos tentando ganhar dinheiro, assistente de um mecânico, depois furtando junto com outro menino, tudo para ajudar sua mãe, mas nervoso por ela estar saindo com outro homem, decide sair sozinho em busca de um pai que nem sabe se está vivo. Percorre trechos perigosos, se depara com pessoas estranhas, algumas o recebem e o ajudam, outras o agride moralmente e fisicamente, ele está literalmente jogado no mundo, a mercê dos perigos da guerra.

Ao chegar no lugar desejado percebe que tudo foi ilusão, mas nessa jornada aprendeu muitas coisas com as pessoas que encontrou, algo que levará para vida inteira. O final é bonito e inevitável não se emocionar.
"A Outra Margem" é um longa diferente de um país esquecido, cheio de poesia e humanidade conta a linda história de uma criança descobrindo a vida em tempos difíceis. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Inocência (Innocence)

Baseado na história do escritor alemão Frank Wedekind, o filme se passa num mundo imaginário, onde garotas são educadas separadas da família e o ensino se baseia na dança, na educação física e na biologia. Depois de conhecer sua nova escola, isolada no meio de uma floresta, a menina Iris, de seis anos, logo percebe a regra primordial a ser seguida: a obediência. Mas quando descobre que uma das alunas mais velhas deixa a escola todas as noites para uma reunião secreta, ela arrisca seu futuro para tentar desvendar o mistério. Frágil é o tempo da inocência, sempre à espera de quebrar no nascimento das primeiras perguntas, que insistem em romper a visão pura e despreocupada de um mundo mais simples e belo. A chegada de Iris inicia um novo ciclo, as fitas coloridas colocadas no cabelo são trocadas anunciando uma nova ordem, e Bianca, a mais velha, prepara-se para abandonar o bosque, anunciando a partida para um mundo exterior.
Mademoiselle Edith (Marion Cotillard) é a professora primária, coxa. Mademoiselle Eve (Hélène de Fougerolles) é a professora de balé que molda as meninas segundo uma educação rígida, na qual ensina que a única e possível metamorfose da beleza é delicada e aplaude-se com asas. E toda a menina que voa para além do seu casulo num corpo ainda de menina tem o seu destino traçado a sangue.
Não se sabe de onde vieram, quem são os pais, nem quem as traz para este lugar, trazidas dentro de um caixão elas vivem estrategicamente distribuídas por cinco casas no meio de uma estranha floresta. "Inocência" tem um clima de conto de fadas, mas diferente dos convencionais ele contém angústias e um desejo de descoberta insaciável.
A fotografia é inebriante, rodeada por um verde hipnotizante, a natureza e o chilrear dos pássaros, as meninas pulam corda, afastadas do mundo externo vivem conforme são conduzidas, mas o desejo de sair dali aparece em algum momento e decisões tem que ser tomadas, se cruzarem a linha e aventurarem-se ao desconhecido consequências serão atribuídas,
As dúvidas do amadurecimento, as incertezas que corroem traz a fragilidade em cada uma das personagens. As repostas não são dadas, o final aberto nos dá o poder de decifrá-las, são metáforas e simbolismos sobre o estágio mais difícil e bonito da vida. É delicado e misterioso, são múltiplas sensações sentidas.

O que vemos é o caminho de descoberta individual que se chama crescimento, e tudo é envolvido em enigmáticos quadros de deslumbramento visual. "Inocência" é uma espécie de fábula sobre a preservação desta, sobre a passagem da infância para a fase adulta, é um filme cheio de sentimento e poesia, tudo se encaixa perfeitamente: interpretação, ambiente, cenário, figurino, e o clima nos dá a possibilidade de sentir coisas que talvez já esquecemos, ou até nunca tínhamos sentido antes.
"Inocência" é um filme do qual não é possível ver tudo com nitidez, é como um véu aderido ao corpo, vê-se, mas apenas seus relevos, assim nos dá a chance de reconstruir tudo o que acontece.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar da Esquina (Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade)

Dirigido pelo búlgaro Stephan Komandarev, este longa magnífico nos conta a bela história de Aleksander Georgiev, apelidado de Sashko (Carlo Ljubek). O garoto veio ao mundo no dia 15 de setembro de 1975, em algum lugar dos Balcãs, "onde a Europa termina, mas nunca começa", a gentil e suave Yana (Ana Papadopulu) dá a luz a Sashko, a mulher grita de dor e seu marido Vasil (Hristo Mutafchiev), conhecido como "Vasko", espera ansioso por notícias no corredor do hospital. Enquanto isso, a avó de Sashko (Lyudmila Cheshmedzhieva) sai à caça de açúcar para preparar quitutes para celebrar o nascimento do neto, e o avô do garoto prestes a nascer, chamado por todos de Bai Dan (Miki Manojlovic), confronta um adversário para se tornar o novo rei do gamão local. Em um corte rápido, a história de Sashko pula para o momento em que ele viaja com os pais por uma estrada de acesso à cidades da Alemanha. Eles sofrem um acidente e Sashko perde a memória. Com a ajuda de Bai Dan, ele faz uma viagem de encontro a sua própria identidade e aos valores de sua família.
Esta maravilha prima por cada detalhe, nada está fora do lugar. O personagem de Miki Manojlovic é o mais cativante, um avô que faz de tudo para que seu neto consiga recuperar a memória, e ele o faz da maneira mais linda do mundo. Com uma bicicleta tandem (bicicleta de dois lugares), viaja e passa por lugares a fim de poder reacender algo na mente do seu neto. São paisagens estonteantes, uma fotografia impactante, inevitável não escorrer lágrimas de nossos olhos. Há um tom de esperança latente, algo libertador e energizante. Um nascer de novo. O avô mostra que a vida é parecida com o jogo de gamão. Repleta de escolhas, e se observar atentamente sempre vamos encontrar uma saída. O jogo e a vida, carregados de estratégias, derrotas e vitórias. É admirável observar a relação de amor entre avô e neto, e um tabuleiro de gamão.
Em paralelo a toda essa história somos levados a infância de Sashko com seus pais, que viveram durante anos como emigrantes na Itália num campo de exilados vítimas do comunismo, e onde sofreram enquanto expatriados. O avô Bai Dan no início diz: "O mundo é grande e a salvação espreita ao virar da esquina", frase que dá título ao filme. Por mais complicada que seja uma realidade, o mundo é muito grande e nele estão todas as oportunidades e possibilidades. Em uma cena demonstra como a incrível chegada de açúcar vinda de Cuba, tão distante da pequena Bulgária, pode ter salvado a festa de nascimento de seu primeiro neto. Uma poesia simples cheia de sentimento e otimismo, é um filme que nos acaricia, que nos proporciona sentir algumas coisas esquecidas, liberdade de espírito, amor puro sem influências externas, pois Sashko no hospital não reconheceu seu avô, mas o amou desde o início.

Merecedor de todos os elogios possíveis, "O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar da Esquina" é uma joia rara. Às vezes nos esquecemos que o mundo é grande e que podemos encontrar possibilidades diversas, ficamos estagnados a apenas um único caminho, uma única memória, a uma única vida. Descobrir o que somos e o que nos cerca, e o que vai além disso tudo é a maior aventura e alegria que o ser humano pode sentir. Desbravar novos mundos dentro de si e fora também. Sempre vão haver saídas, basta saber olhar e ter a mente mais aberta. Assim aconteceu com Sashko, recuperou a memória depois de uma tragédia, e percebeu que a vida poderia oferecer várias coisas para ele, tanto boas quanto más, porém ele escolheu a alternativa certa, foi em busca de seus sonhos e ouviu que o seu coração pedia.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Uma Amizade sem Fronteiras (Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran)

Adaptação do livro "Senhor Ibrahim e as Flores do Corão", de Éric-Emmanuel Schmitt. O filme mostra a amizade de um garoto judeu, Moisés, e um pequeno comerciante turco muçulmano, Monsieur Ibrahim, em um bairro muito pobre de Paris. O menino Moisés (Pierre Boulanger), apelidado de Momo, mora com seu pai em um prédio do outro lado da rua do Sr. Ibrahim (Omar Sharif). O pai de Moisés (Gilbert Melki) possui poucos recursos e se comporta de maneira super rude com o filho, fazendo o garoto cozinhar e se virar para trazer comida para casa. Momo então começa a efetuar pequenos furtos na loja do Sr. Ibrahim, que saca a malandragem do garoto, mas deixa quieto. Longe de brigar ou repreender o menino, o pequeno comerciante oferece pequenos mimos para Momo buscando uma aproximação. Monsieur Ibrahim dá amor paterno e ensina o conhecimento do Alcorão para ele, recebendo em troca o amor e o respeito. Uma das coisas que Momo aprende com Sr. Ibrahim é que sorrir não é um luxo só para ricos, como pensava; é a chave para abrir o coração das pessoas.
No decorrer da trama Moisés acaba por perder o pai e fica totalmente só, e quem lhe dá todo o apoio que precisa é Ibrahim, algumas vezes subjugado até mesmo pelo garoto. Moisés passa pelas dificuldades da perda, as incompreensões da adolescência e até mesmo pelo seu primeiro amor. O filme se passa na década de 60, portanto a trilha sonora é algo a parte e dá uma alegria a mais, o rock twist predomina. Momo ainda muito jovem tenta um encontro com as messalinas da rua azul, e a música que toca é um clássico de Timmy Thomas, um soul que fala sobre o sonho da união entre os povos usando frases impactantes.
É uma história que nos convida a conhecer uma amizade da qual supera qualquer estigmatização, um amor de dois seres solitários que precisam de carinho e cuidados, um entendendo o problema do outro sem se preocupar com suas crenças e tradições. Momo sentia falta de um pai que lhe ensinasse o que fazer e o que dizer, em fase de crescimento ele insistia em paquerar algumas prostitutas, na maioria das vezes se saia bem, o que dá um tom bem divertido ao filme.
São personagens que juntos vão reconstruindo uma vida, se amparando e assim suprindo suas necessidades. Uma bela atuação de Omar Sharif, mostrando toda a sua sabedoria e calma diante a uma explosão de hormônios em que vive Momo. Ibrahim repete suas máximas, filosofias e regras, e diz ao menino o que está escrito no Corão. No final a gente entende como essa ligação entre eles supera tão facilmente as distâncias culturais. É revigorante assistir algo assim, exibir um amor paterno criado pelo carinho dado de maneira simples e natural, um entendimento maior sobre o outro e a espontaneidade com que se absorve cada detalhe.

Ibrahim adota Momo que se mostra radiante por se tornar seu filho, os dois embarcam numa viagem rumo a Turquia em busca das origens de Ibrahim. Nesse ponto, o filme se torna melancólico e nos dá uma grande lição.
"Uma Amizade sem Fronteiras" traz reflexões filosóficas e espirituais de modo que não pareça sermão, é usada uma linguagem sensível que mostra a religião na forma de esperança em que as pessoas possam conviver em paz independente do que acreditam.
De ritmo leve e envolvente nos conta uma história comovente, mas também divertida, nos faz repensar atitudes e o quanto vale a pena fazer alguém feliz.

"O coração de um homem é como um pássaro enjaulado. Quando você dança, seu coração canta... e então sobre aos céus."

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens)

Em 1984 milhares de judeus etíopes foram levados para Israel com a finalidade de escaparem da fome e miséria que abundava em seu país. Salomon é enviado pela sua mãe católica a uma viagem que salvará sua vida, a única maneira do seu filho sobreviver. Uma difícil decisão, mas que deu a ele a chance de ter uma vida mais digna. Sua mãe sabia o que estava fazendo ao entregar Salomon para que ele pudesse sair daquele flagelo que assolava milhões na Etiópia. A Operação Moisés era a oportunidade de um futuro. A mulher que o acompanhou fazendo o papel de sua mãe era da tribo dos Falashas, judeus etíopes que são da linhagem da Rainha de Sabá e, consequentemente, tinham lugar garantido em Israel. E foi justamente nas mãos dos judeus, que tem todo um histórico de perseguição, que ele aprendeu o que é o preconceito. Chegando em Israel, Salomon finge ser judeu para que possa ficar no país, assim seu nome passa a ser Schlomo e é adotado por uma família de esquerda que desconhece a sua verdadeira religião e a existência da sua mãe. Ao longo do seu crescimento, Schlomo vive atormentado com o seu passado triste, com a mãe que deixou pra trás e com o racismo do qual acaba por ser vítima. A única esperança deste jovem é um dia poder voltar a sua terra e ver a sua verdadeira mãe.
Schlomo mesmo diante a tanta fartura de alimentos, recusa-se a comer, a cena do seu primeiro banho de chuveiro, e seu empenho em não deixar a água escorrer pelo ralo é uma das mais comoventes. Sua família o coloca para estudar o Torá acreditando que é judeu e sua mãe adotiva luta para que o respeitem, pois o preconceito religioso e o da cor da sua pele será uma batalha que ambos irão enfrentar dali para frente.
Em sua trajetória de vida, dois homens contribuíram muito em sua formação, um patriarca de sua terra natal e o avô da família que o adotou. Ambos ensinaram os verdadeiros valores, as verdadeiras bagagens que se deve levar ao longo da vida.
Não querendo comprar guerra, até por imposição do pai adotivo, que o queria lutando, ele vai estudar medicina em Paris. Ao se formar, acaba embarcando numa guerra que não era dele. E nela se vê impedido de atender alguém, e por ambos os lados numa guerra estúpida, se descuida e termina ferido, mas se recupera e volta para casa com Sarah, que o esperou por dez anos, porém havia muito o que contar a ela sobre sua vida, e a mentira que segurou por todos esses anos. É impossível não se compadecer com a história desse garoto, ela o perdoa e o incentiva a voltar para sua terra natal e encontrar sua mãe novamente.

"Va, Vis et Deviens" é algo como "Vá, Viva e Transforme-se". A questão da tradução do título para "Um Herói do Nosso Tempo" não incomoda, Schlomo de fato é um herói, ainda menino num país estranho, tendo que mentir para ser aceito, enfrentando diversos preconceitos, conseguiu o amor de uma família, casou-se, tornou-se médico e retornou ao seu país em busca de sua mãe, que por sinal é uma das cenas mais impactantes.
Esse filme serve para que vejamos que o preconceito é algo absolutamente ridículo, inútil e degradante para o ser humano. O roteiro combina conflitos étnicos e religiosos com a determinação de uma criança em atingir seu sonho, representando a busca por uma identidade, mostra como uma pessoa pode ultrapassar todas as dificuldades da vida, mesmo quando todos parecem querer derrubar-lhe. Schlomo, conseguindo conciliar sua formação cristã com os novos conhecimentos judaicos, luta contra todo o tipo de preconceito e perdoa quem o ofende, pois acredita que há algo melhor na vida.

Os conflitos atuais no mundo vêm da questão da identidade e da aceitação do outro. O fanatismo mundial, seja muçulmano, cristão ou judaico vem do fato de que não aceitamos o outro, a diferença. A partir do momento que entendermos que somos diferentes uns dos outros e que isso independe de crença, religião ou da cor da pele, que somos indivíduos com características únicas, com capacidades e dificuldades, acho que talvez algo possa ser mudado no mundo. É uma lição de compaixão, de solidariedade para com o outro, valores dos quais estamos esquecendo dia após dia com uma vida cada vez mais egoísta.
Um retrato poético da busca de uma identidade e de uma vida que possa ser vivida de sua própria maneira.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Terra Firme (Terraferma)

"Terra Firme" é uma espécie de alegoria sobre a política italiana em relação à entrada de refugiados no país, cada vez mais restritiva. É ambientado em uma ilha fictícia, onde os códigos que regem a vida dos pescadores da região, principalmente aquele que diz que nunca se deve abandonar alguém no mar, chocam-se com as novas leis impostas pelo governo do continente. Na história, as convicções de uma modesta família de pescadores da Sicília é posta em xeque quando uma leva de imigrantes africanos começa a surgir na praia. A trama, dirigida por Emanuele Crialese é narrada sob o ponto de vista do filho de um dos pescadores. Nino (Giuseppe Fiorello), um jovem alienado das trepidações políticas e sociais de seu país, que costuma acompanhar o avô, (Mimmo Cuticchio) em seu trabalho no mar. Em uma dessas pescarias, o patriarca recolhe alguns náufragos de uma embarcação em perigo, contrariando as ordens da guarda costeira. Entre eles está uma mulher grávida e seu filho pequeno. Além de lhe custar o barco, único ganha-pão, apreendido pela polícia, o ato de humanidade do ancião provoca reações contraditórias dentro da própria família. Complexo, o roteiro de "Terra Firme" estende a questão para fora do núcleo protagonista numa tentativa de explorar os diversos pontos de vista dos italianos sobre a problemática: parte dos habitantes, particularmente os da gerações mais novas, temem que a invasão de refugiados possa atrapalhar os planos daqueles que querem fazer do lugar um destino turístico. A ilha parece funcionar como um microcosmo de uma versão paralela da Itália, que parece não saber lidar com o seu próprio passado.
Os refugiados africanos fazem uma verdadeira jornada até chegar a Itália, onde impera uma lei governamental que proíbe que as pessoas os ajudem, então quando os pescadores vão ao mar e se deparam com eles, simplesmente fingem não vê-los e voltam para trás, deixando-os no mar com o perigo de se afogarem, ou ligam para a polícia que os mandam de volta de onde vieram. Só que muitos pescadores carregam códigos de éticas em que jamais em hipótese alguma se abandona alguém no mar, isso é contra as leis do ser humano. Em um diálogo belíssimo acompanhamos os pensamentos daqueles homens, cuja vida é tão simples, nos fazem pensar o quanto as leis que imperam são repulsivas. Enquanto isso os turistas se esbaldam nos passeios ao fundo do mar, só que correm enorme risco de se depararem com muito mais do que apenas peixes.
"Terra Firme" é um misto muito interessante, tem os nativos, os refugiados e os turistas num cenário de solidariedade e indiferença. Com uma fotografia de encher os olhos e um roteiro sutil, o filme surge com um assunto do qual é muito discutido: a xenofobia.

Todos têm direito a vida e de um lugar para viver. A terra deveria ser compartilhada, deveríamos acolher quem sai de seu país para viver no nosso? A lei da simplicidade deveria reger o mundo, causaria menos danos, pois certas leis existem só para complicar ao invés de ajudar.
O diretor Emanuele Crialese decidiu fazer o filme depois de ler a história de uma africana que foi um dos cinco sobreviventes em um barco lotado que passou 21 dias à deriva no mar sem ajuda antes de chegar a Lampedusa. O diretor disse: "Para mim, a resposta do Estado é totalmente inadequada. Deixar as pessoas morrerem no mar é um sinal de uma grande falta de civilização, para um país que se diz civilizado."
Trazendo à tona um assunto importante de maneira singular e delicada, "Terra Firme" gera discussões, e ao final nos parece que soluções estão longe de acontecer, infelizmente.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Coração de Tinta, de Cornelia Funke

"Alguns livros devem ser degustados, outros são devorados, mas poucos são mastigados, e digeridos totalmente."

A escritora Cornelia Funke nos mostra a história de um pai dedicado e de sua filha numa jornada através de diversos mundos, reais e imaginários. Mortimer "Mo" Folchart e sua filha Meggie, de 12 anos, compartilham uma imensa paixão por livros e suas histórias. Entretanto, ser leitor ávido não é a única característica peculiar de Mo, ele guarda um segredo, um talento fabuloso. Embora Meggie não saiba, seu pai é capaz de dar vida a qualquer personagem dos livros que ele lê em voz alta, trazendo-os para o nosso mundo. Mo restaura livros, dá vida e brilho aos livros já gastos, para que eles possam contar suas histórias por muitas e muitas vezes, daí vem a paixão e o carinho que Meggie nutre pelos livros. Mo nunca lê em voz alta, mas o seu segredo começa a ser revelado a partir de uma visita inesperada. Dedo Empoeirado aparece subitamente na casa de Mo, Meggie o ouve conversar sobre um tal Capricórnio, um cara perigoso que está atrás dele e de um livro. Na manhã seguinte, Mo foge com Meggie sem dar maiores explicações, e é a partir daí que a aventura começa.
Neste momento tem início uma jornada arrepiante, não só pelas narrativas do interior dos livros, mas pela própria história da criação literária. A autora tece de tal forma a trajetória dos personagens, que às vezes fica difícil estabelecer uma fronteira entre o que é real e o que pertence ao universo de ficção. O destino dos habitantes dos livros é debatido como se eles fossem criaturas reais. É a Mo que cabe levar ou não Dedo Empoeirado (que em sua fé no poder do contador de histórias o chama de Língua Encantada), de volta para o seu mundo, mesmo sabendo qual será o desfecho de sua participação na trama. O engolidor de fogo desconhece seu destino, como o próprio ser humano, que ignora o que o aguarda no final de sua jornada.
"Coração de Tinta" é uma série de três livros intitulada "O Mundo de Tinta", sendo o segundo "Sangue de Tinta" e o terceiro "Morte de Tinta", escritos pela alemã Cornelia Funke. "Coração de Tinta" também deu origem a um filme, com Brendan Fraser e Paul Bettany no elenco.
A autora presta uma linda homenagem aos livros, e inclusive utiliza citações bastante conhecidas do público para abir cada capítulo. Em um destes há um trecho de "O Senhor dos Anéis", de J.R.R Tolkien. Todo leitor em algum momento já imaginou se encontrar com o seu personagem favorito, neste livro isso é possível, "Coração de Tinta" proporciona uma viagem ao fantástico, ao lúdico de maneira inteligente e perspicaz, fazendo que a história seja repleta de suspense e reviravoltas.

Os personagens deste livro conversam conosco, fazem parte de nosso mundo, e dificilmente serão esquecidos após o término da leitura. É incrível o poder que alguns escritores têm em criar, de fato é admirável. Diferente das trilogias insossas que existem por aí, esta deve com certeza estar na prateleira dos amantes literários, é um universo do qual vale a pena viajar, aliás o ritual ou hábito da leitura é algo fantástico, a sensação é de que os livros nos possuem, e sem dúvida, "Coração de Tinta" tem essa característica.

"Existe algo mais belo neste mundo do que as letras? Sinais mágicos, vozes dos mortos, peças de mundos maravilhosos. Elas consolam e espantam a solidão. São guardiãs de segredos, arautos da verdade..."