sexta-feira, 27 de julho de 2012

Alma

"Alma" é uma espécie de conto natalino sombrio, uma criança passa pela vitrine encantadora de uma loja de bonecas e se sentindo tentada entra e conhece um mundo fantasioso. O mundo infantil é tratado de forma muito peculiar neste curta, misturando elementos de ingenuidade com a sombria e misteriosa loja de bonecas. O curta animado é em 3D e o roteiro contém referências claras ao estilo de Tim Burton, e também lembra bastante o filme "Coraline".
A história é simples, um conto infantil macabro em que o final gera uma sensação de claustrofobia. Observar os olhinhos daquelas bonecas sinistras e imaginar que ali dentro há uma alma presa para toda a eternidade é no mínimo aterrorizante. O encantamento da garotinha pela boneca, a necessidade de ir até ela, e o momento crucial em que a toca e acontece o inesperado é genial. "Alma" é criativo e surpreendente.

Rodrigo Blaas é um animador espanhol, "Alma" é o seu primeiro curta-metragem. Apesar disso ele não deixa nada a desejar. Blaas é veterano da animação. Trabalhou por 10 anos na Pixar e seu nome está presente nos créditos de inúmeros filmes, por exemplo, "Procurando Nemo", "Os  Incríveis", "Carros" e "Wall-E". Não foi só o talento que o levou a conceber o curta, o bom relacionamento que manteve no meio o fez reunir em "Alma" profissionais reconhecidos e experientes. Mas é evidente seu talento e criatividade com apenas um curta de 6 minutos. Ele recebeu vários prêmios, entre eles a vitória no LA Shorts e em outros festivais internacionais, além de ganhar a admiração do mestre Guillermo del Toro.

A atmosfera do curta é impressionante! Assistam!

 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Osama

Antes de qualquer coisa "Osama" (2003) nada tem a ver com o terrorista Bin Laden. Este é o primeiro filme rodado depois da guerra e conta a história de uma menina de 12 anos, sua mãe e um garoto do vilarejo que quase não sobrevivem a uma pacífica passeata organizada por mulheres oprimidas pelo regime Talibã, que termina brutalmente. Após testemunhar um tratamento tão desumano, a mãe se dá conta de seu próprio calvário, enquanto ela e sua filha tentam manter-se vivas. Com a morte do pai e do irmão da jovem, elas têm que encontrar um meio de sobrevivência mantendo isso em segredo do sistema rígido Talibã, que ordena que nenhuma mulher trabalhe ou mesmo saia de casa sem a companhia legítima de um homem.
Mãe e filha tomam conta de pacientes num hospital clandestino, administrado por estrangeiros. Depois de uma invasão do Talibã, o hospital é fechado e a duas ficam sem renda alguma. Desesperada, em busca de qualquer trabalho, a mãe é obrigada a cortar os cabelos da filha e vesti-la como um menino, para que ela possa ganhar algum dinheiro pelo menos para se alimentar. A mãe suplica a um comerciante, dono de uma mercearia que a ajude empregando a menina em sua loja, pois ele havia conhecido seu marido. Ele concorda e tenta protegê-la, agora disfarçada de garoto, a ensina a ser mais convincente. Numa tarde, a polícia religiosa do Talibã obriga todos os homens a irem até a mesquita para orar. A menina, que desconhece a forma como os homens praticam sua fé, comete diversos erros e levanta a suspeita de um dos policiais do Talibã, que está inspecionando o ritual. Ele se aproxima do comerciante depois das orações e o interroga. Ela é tomada de pavor, mas o comerciante consegue dissipar as desconfianças do oficial. No dia seguinte os garotos da vila são levados a uma madrassa, um tipo de escola religiosa, que também serve como centro de treinamento militar do Talibã. Passando a frequentar esta escola, a masculinidade da garota é constantemente posta em discussão.
Um jovem que pede esmolas na primeira cena do filme, sabendo do segredo intercede a seu favor e a protege, endossando a sua verdadeira identidade, declarando que seu nome é Osama. Depois de crescentes suspeitas entre os estudantes e os instrutores do Talibã, a menina é punida por não ser capaz de finalizar uma tarefa e provar a sua masculinidade. No final, suas características físicas a delatam, revelando sua verdadeira identidade. Como resultado de sua mentira imperdoável, ela é levada a julgamento perante a corte do Talibã e sentenciada a casar-se com um velho Mulá. Ao chegar na casa descobre que ele tem outras três esposas e é forçada a juntar-se a elas, em seu miserável mundo.

"Osama" dirigido por Siddiq Barmak, tem o objetivo de discutir o papel e a situação em que vivem as mulheres do Oriente Médio, sobretudo, as que vivenciaram o regime Talibã. A sociedade afegã adota como símbolo de diferenciação de poder entre os homens e mulheres a vestimenta; as mulheres cobrem o corpo e rosto com a burca, em respeito na tradição de que seu corpo é sagrado e, portanto, mostrá-lo em público seria profaná-lo. Aos homens afegãos ficam determinados trajes normais e tem como acessório o kipá quando usado em contexto religioso. Em outras palavras, para aquele povo a mulher é um ser inferior em relação ao homem, por esta razão, ela deve ser protegida. Na falta desta proteção se relega a mulher o isolamento, aprisionando-a num corpo social determinado, a companhia infinita do homem.

A menina não vive sua infância e é destinada a uma vida desgraçada por causa do regime Talibã, perdoada pelo juiz, casa-se com um velho e percebe que nunca terá sua dignidade. Observar seus olhos sempre com lágrimas é dilacerante, toda a pobreza que a condena. A imagem dela pulando corda: um sonho perdido, sua infância roubada por um sistema fanático, sem propósito. As mulheres são tratadas como animais, as viúvas condenadas, algumas apedrejadas diante de centenas de pessoas, outras mendigando alimentos para sobreviver. É um retrato cruel desta cultura. Esse longa é poderoso e nos faz sentir pequenos diante dos acontecimentos.
A interpretação da garota é de arrepiar, ela encarnou a personagem divinamente, a delicadeza em seu rosto duro e amedrontado, seu jeito de andar, etc. A perda da inocência é triste e revoltante. A única coisa que elas desejam é o direito de ser mulher, nada mais.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Amanhã (Morgen)

O primeiro longa do romeno Marian Crisan conta a história de Nelu, que mora na fronteira entre a Romênia e a Hungria, ponto de entrada para muitos imigrantes, segurança num supermercado e pescador amador, ele é uma pessoa simples e sem grandes exigências da vida. Tudo isso muda quando um dia lhe aparece um turco que tenta chegar a Alemanha, fugindo da polícia da fronteira. Sem saber o que fazer ou como o ajudar, Nelu dá-lhe de comer, roupas e promete-lhe que no dia a seguir - em alemão, morgen - o tentará levar à fronteira.
A amizade entre Nelu e Behran é silenciosa, pois a língua desconhecida é uma barreira, porém aos poucos isso se torna algo efêmero. Nelu entende a tristeza daquele homem só de olhá-lo. A princípio, Nelu coloca-o no lugar onde fica a comida da casa, uma espécie de porão, lá é frio e escuro, Nelu o ajuda de sua própria maneira, o desenvolvimento da amizade é fenomenal, Behran é um cão fiel, ajuda nas tarefas da casa, dá-lhe todo o dinheiro, e incansavelmente fala, Nelu apenas responde: Amanhã! Engraçado que ele não entende uma única palavra, mas a capacidade de sentir a dor alheia é algo que Nelu, um homem simples, com uma vida monótona, consegue fazer muito bem.
Ele é um ser humano passivo, todos de certa forma mandam nele, na sua casa, no trabalho, e pela autoridade local que insiste em perturbá-lo. A presença de Behran acaba fazendo com que Nelu se rebele e mostre que tem suas convicções e que pode fazer o que deseja. Torna-se um fugitivo, arrisca tudo e leva Behran ao outro lado da fronteira. Do mesmo modo Behran, um homem sempre oprimido, se esquivando, junto de Nelu encontra algo simples, porém eficaz. A alma daquele ser humano demonstrava gratidão, amizade e lealdade por um desconhecido que se arriscou para ajudá-lo.
O filme é calmo, aos poucos vamos compreendendo as atitudes dos personagens, a história e as paisagens se complementam. Sem um pingo de sentimentalismo, mostra o quão a amizade é algo sublime entre dois seres díspares que se entendem à sua maneira. Realmente esse tipo de amizade parece acontecer somente nos filmes, não vejo gratidão nas pessoas, ajudar alguém que não conhecemos e que não tenha vínculos é a maior prova do quanto o ser humano pode ser nobre, é a riqueza interior. As pessoas simples, assim como Nelu geralmente se submetem mais a esse tipo de experiência, e o mais incrível ainda é o outro retribuir com carinho e lealdade naturalmente.

"Morgen" não dá lição de moral sobre amizade, apenas a retrata, o longa está a fim de mostrar os problemas da fronteira desse país, e o faz de forma bem feita, por exemplo, os policiais e o como tratam as pessoas. Eles impedem os sonhos das pessoas e isso é brutal.
O filme tem um grande valor social e político. Se quiser desfrutar de um bom cinema, que traz valores esquecidos, simples, mas de grande importância, este é com certeza uma belíssima escolha!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um Conto Chinês (Un Cuento Chino)

"Um Conto Chinês" (2011) dirigido por Sebastián Borensztein mescla comédia e drama na medida exata, a história é bizarra e conta que em algum lugar da China, uma vaca caiu do céu provocando uma tragédia, matando a noiva de um chinês, que por sinal é muito simpático. A seguir conhecemos Roberto (Ricardo Darín), um sujeito solitário, mau-humorado, veterano da guerra das Malvinas e cheio de manias, uma delas é recortar notícias esquisitas do jornal e colá-las em um álbum de recordação. Mas sua vida muda quando por acaso decide ajudar Jun (Ignácio Huang), que foi jogado de um táxi, depois de ser assaltado, e é a partir dessa situação inusitada que a vida dos dois começam a mudar.
Roberto oferece moradia ao chinês perdido até que encontre seu tio em algum lugar da Argentina, o fato de um não saber a língua do outro só reforça a inteligência do roteiro, que nos conecta aos personagens de maneira natural. Um gesto altruísta dá início a uma dramática e divertida luta de ambos por seus sonhos, enquanto um quer encontrar um parente para começar vida nova, o outro só deseja recuperar a liberdade da velha vida e a tão amada solidão. Mas tem a Mari (Muriel Santa Ana), amiga de Roberto que com sua felicidade e predisposição para amar, de repente pode até ser vista de uma outra maneira. O choque de cultura é gigantesco, o aprendizado se faz difícil através da convivência forçada entre eles, pois Roberto não consegue conviver com outro ser, rabugento, tem suas regras e manias diárias.
É bem verdade que o longa obtém êxito na transferência da sensação de incomunicabilidade, especialmente pela opção de não legendar as falas em mandarim. O humor que surge são de situações que não necessariamente precisam ser engraçadas. É sutil e particular, isso só ressalta a qualidade dos atores. A expressão "um conto chinês" é utilizada pelos argentinos para se referir a uma grande mentira. Contudo a história mostrada no filme é absurdamente real, e é totalmente crível do início ao fim.
Jun pintou uma vaca na parede no final do filme, e Roberto concluiu que o incrível acidente que achava sem sentido, mas que para o chinês foi uma tragédia, não aconteceu por acaso. Então de certa forma, a vaca mudou a vida de Roberto, assim como Jun dizia: "Tudo tem um motivo para acontecer."

"Um Conto Chinês" é uma produção original, o cinema argentino consegue atingir o público com histórias divertidas, mas igualmente inteligentes. É pra aplaudir de pé o cinema do hermanos.
O que encanta neste filme é a comunicação precária entre esses dois personagens tão distintos, entre gestos e expressões faciais somos conduzidos juntos de Roberto a decifrar o que Jun quer expressar e também entender. 
E toda essa bizarrice de vacas caindo do céu foi baseada em fatos reais, o que deixa tudo muito mais curioso e interessante.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Eu Matei a Minha Mãe (J'ai Tué ma Mère)

"Eu Matei Minha Mãe" (2009) dirigido por Xavier Dolan (Amores Imaginários - 2010) conta a história de Hubert (Xavier Dolan), ele não ama a sua mãe, as roupas bregas e pequenos detalhes como a forma que ela come, são motivos para enxergá-la com desprezo. Os mecanismos de manipulação e a culpabilização empregados por ela também não lhe passam despercebidos, e Hubert se vê progressivamente tomado por uma relação de amor e ódio fora de seu controle. Confuso, ele vaga por uma adolescência ao mesmo tempo marginal e típica, repleta de descobertas artísticas, experiências ilícitas, amizades e sexo.
Xavier protagoniza de maneira histérica seu relacionamento com a mãe, a obra é semi-autobiográfica e retrata a dificuldade na comunicação entre mãe e filho. O roteiro não tem nada de especial, tudo gira em cima do mesmo assunto, mas mesmo assim não deixa de ser interessante, pois o que se vê ali, acontece e muito. Os adolescentes veem os pais, principalmente, a figura da mãe como se fosse de outro planeta, no caso de Hubert, as roupas bregas, o modo como a mãe come e age, são alguns dos motivos para ele implicar, mas a mãe também não é uma mulher com grandes qualidades, a maneira que lida com o filho fica evidente que está de saco cheio daquela situação, porém há amor, estranhamente o afeto existe.

O título "Eu Matei Minha Mãe" é uma forma simbólica de explicar que Hubert está naquela fase em que os laços necessitam ser cortados para que a relação dos dois seja mais saudável. Chega um ponto em que as discordâncias de pensamentos e rumos tomados se destoam tanto que o distanciamento psíquico ou físico é a melhor opção. No psíquico seria ampliar o olhar sobre aquele ser que o gerou, a transformando em uma pessoa normal, vista de fora, cortando o laço materno, o cordão umbilical. E isso se torna mais penoso quando a relação é exclusivamente mãe e filho, sem outra figura, seja masculina, ou de irmãos e irmãs. Chantale (Anne Dorval) está cansada, e com o tempo o amor pelo filho foi sendo guardado, pois ele crescia e também se fechava. Na sua imaturidade não contou a mãe sobre sua homossexualidade e se refugiava na casa de seu namorado, cujo ambiente era liberal, mas culpar a mãe que julgou que o filho poderia andar com as próprias pernas e já não sentia necessidade de contar seus pensamentos, ou Hubert que julgou que sua mãe não entenderia seu lado é uma situação difícil. Tudo se transforma em caos devido a falta de diálogo.

O filme retrata um período efervescente, ser adolescente, dono da verdade, rebelde, impetuoso, mas que no fundo ainda carece de cuidados e proteção.
Xavier Dolan é um jovem cineasta brilhante, tem personalidade e originalidade. "Eu Matei Minha Mãe" não é um grande filme, mas dentro da proposta apresentada se torna uma obra primorosa.

"Imagino que, às outras pessoas, odiar a mãe pareça um pecado. É uma hipocrisia. Estou certo de que também odiaram as suas mães. Talvez um segundo ou todo um ano."

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Habemus Papam

Ao fim do pontificado de um antigo Papa, um novo precisa ser escolhido. É nesse momento que o conclave se reunirá numa sala onde ficará trancado, até que a decisão seja tomada. O Papa em questão é interpretado pelo magnífico ator francês Michel Piccolli. Um homem que, eleito Papa, entra em crise e não toma coragem de assumir o cargo. O Papa sofre de uma crise existencial, e em contraponto temos a instituição católica pragmática com um grande problema nas mãos. A situação é inusitada e todos sabem que há um Papa eleito, mas não sabem seu nome, pois na hora que ele deveria saudar o povo na sacada do Vaticano, entra em pânico e recua. Como ele já aceitou o cargo, o pesado protocolo da Igreja Católica cai num impasse.
A imprensa de todo o mundo pressiona para saber o nome do eleito. O porta-voz chama um médico, depois, o psicanalista (interpretado pelo próprio diretor Nanni Moretti). A entrada deste estranho no ninho do Vaticano é o principal deflagrador de situações cômicas, já que o terapeuta é declaradamente ateu no meio de um imenso grupo de cardeais de vários países. Como ninguém conhece o Papa eleito, este decide fugir e refrescar a mente, nesta fuga o Papa frequenta lugares normalmente inacessíveis ao Sumo Pontífice, uma lanchonete simples, uma loja de departamentos, um hotel modesto, um teatro em que uma trupe interpreta "A Gaivota", de Anton Tchecov. O Papa demonstra interesse por ser ator e sabe falar as frases de cor.
No Vaticano, encena-se a vida que não existe, com outro homem no lugar do Papa, pago apenas para balançar cortinas. Os cardeais e demais religiosos sentem-se felizes, reguardados, enquanto têm naquela mera encenação barata uma certeza: o Papa está bem.
Tudo termina quando o Papa é encontrado no teatro. E ao fim, o inesperado, definitivamente o cargo era demais para aquele homem, não que sua fé não fosse suficiente, mas era pesado demais, em seu discurso na janela do Vaticano, para uma infinidade de pessoas, ele recusa e sinceramente nega o papado.
O longa é uma sátira em cima do catolicismo e seu grande ritual: a eleição de um Papa. Neste filme, nenhum dos personagens desejam o papado, eles sussurram o tempo todo: "Por favor Deus, eu não". Não deixa de ser interessante, mostrando um homem visto quase como divino, apenas como um alguém com suas crises e medos.

Sempre enxerguei os cardeais lá no Vaticano como uma máfia, em suas coisas escusas e mergulhados em seus segredos, sempre achei a igreja católica hipócrita e nos olhos dessas pessoas uma falsa bondade. Tudo encenação. Não é à toa que o Papa fujão queria ser ator, a sua grande frustração da juventude. 
A figura do psicanalista dá um tom leve e irônico ao filme, mas em nenhum momento ele desrespeita a igreja. A história sobre o Papa que nega seu posto é hilária. Moretti é um gênio, seu humor é inteligente e os atores estão maravilhosos. Uma obra super interessante que retrata um pouco deste ritual que mexe com a instituição católica e ainda mostra o medo de um ser humano ao enfrentar uma missão que ele acredita não ser para si.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Príncipe do Deserto (Black Gold)

"O Príncipe do Deserto" (2011) pode aparentar ser uma fábula fantasiosa devido ao título, mas não é bem assim, o título original "Black Gold" dá a deixa de uma história de ideologias e tradições. Não deixe esse filme passar despercebido.
Retratando a descoberta do petróleo em um tempo longínquo (o petróleo foi descoberto no Oriente Médio, área que mais contém o recurso disparadamente até hoje). Após terminar uma grande guerra, cuja Nassib (Antônio Banderas) acabou ganhando, ele aceita ficar com os filhos de Ammar (Mark Strong), até que a maioridade seja atingida a fim de selar um acordo de paz para que a ordem seja mantida. A única condição imposta foi que a terra chamada de "faixa amarela" entre os dois reinos não pertencentes a ninguém, continuasse daquela forma sem donos. O acordo então é selado. Anos se vão e o rei Nassib se vê em meio a uma epidemia de cólera e falta d'água, mas aí surge uma promessa de riqueza através do petróleo, só que este está na terra de ninguém, ou seja, justo na "faixa amarela".
Nassib aceitou que extraíssem petróleo, e daí começou a instabilidade com Ammar novamente. A briga entre eles é interessante, pois Nassib quer enriquecer seu povo, trazer alternativas mais modernas para a região, já Ammar se apega a suas tradições, dizendo que o dinheiro só traz desgraça e ambição ao ser humano. A religião islâmica é mostrada com respeito e de forma muito bonita, ao contrário do que vemos sempre, com seus fanatismos e fundamentalismos. Há um debate entre o novo e o velho, o que diz o Corão pode ser interpretado de diversas maneiras. Pode se enxergar a guerra, como também a paz, depende dos olhos e do coração de quem o lê.
Auda (Tahar Rahim) é o filho mais novo de Ammar deixado quando criança a Nassib como acordo. Inteligente, observador, sempre mergulhado em seus livros, se tornará um homem que liderará o futuro desta história. Suas mudanças em relação ao que acontece são bem naturais, revelando que há um líder dentro de si. Há também romance em meio a tudo isso, mas em nenhum momento torna o filme piegas ou melodramático. Antônio Banderas segura bem o seu personagem, ele é um revolucionário, tem ideias para o bem-estar de seu povo e com o lucro do petróleo consegue muitos benefícios, mas não se priva de comprar coisas para si. Não há vilões nesta história, apenas pontos de vista diferentes, não há o certo e o errado. Ammar interpretado pelo talentoso Mark Strong enfatiza o poder da tradição de seu povo, e cria bastante empatia, cheguei a concordar com vários aspectos citados por ele em algumas partes, sobre o capitalismo, o consumismo e toda a ambição criada pelo dinheiro.

"O Príncipe do Deserto" é um ótimo entretenimento e nos manda uma mensagem sobre lealdade, princípios, progresso, fé, e a tradição de um povo sempre visto como vilão.
"Se Alá não quisesse a prosperidade de nosso povo, porque então colocaria petróleo na nossa terra", esse é um dos questionamentos que Auda faz ao pai e ao povo que é contra as mudanças. Jean-Jacques Annaud nos traz um filme épico não convencional.
As mudanças depois da descoberta do "Ouro Negro", e os dogmas versus prosperidade, tudo isso contribui para ser um filme único, e também hipnotizante pela sua beleza paisagística, é incrível como o deserto pode ser fascinante e ao mesmo tempo tão cruel.