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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Ruído Branco (White Noise)

"Ruído Branco" (2022) dirigido por Noah Baumbach (Mistress America - 2015), adaptação da obra-prima de Don DeLillo é um filme ousado que acaba soando estranho e caótico, mas é um estilo de história que agrada um público voraz que não se importa com narrativas difusas e divagações filosóficas acerca do entorno, uma mistura ácida, absurda por vezes, mas que traz um conjunto de ideias maravilhosas para debater após a sessão.
Difícil traçar uma sinopse, pois é uma obra em movimento, pode parecer que não vai para lugar algum, só que ela norteia o assunto e o restante o espectador decide o que fazer com a informação. Jack Gladney (Adam Driver) é um professor universitário de meia-idade especialista em Hitler que se sente frustrado por não saber alemão, ele vive com sua quarta esposa Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos, alguns de casamentos anteriores, é uma família comum que de repente é abalada por um "evento tóxico", uma nuvem de fumaça no horizonte transforma a vida da família que inicialmente se recusa a acreditar na veracidade dos fatos, mas a história não se prende nessa catástrofe, se passa algumas situações engraçadas ou absurdas e logo os vemos novamente vivendo como antes, certamente o paralelo com a pandemia é óbvio e daí pode-se viajar nas ideias, como o negacionismo e o autoengano, e é a partir dessa quebra de normalidade que começamos a perceber o drama existencial de cada um na tela, mas de maneira conturbada e até incômoda, gera ansiedade, pois nem tudo está conectado, são assuntos diferentes que não são aprimorados, tem que isolá-los ou focar naquele que mais te contamine. 
A trama se passa na década de 80 e é extremamente atual todos os pontos exibidos, como o academicismo com sua verborragia e altivez, além da frustração e autodepreciação, o tédio do privilégio, a depressão e a consciência dramática da própria finitude, o encucamento com coisas abstratas que levam à obsessão, o espetáculo do consumismo com o supermercado sendo uma distração com suas paletas de cores, o vício em ansiolíticos, o fetiche em desastres, teorias da conspiração, entre tantas outras.

 "A família é o berço da desinformação do mundo."
 
"Ruído Branco" é provocador, irônico, exagerado, esquisito, mas em alguma questão certamente o filme vai alfinetar o espectador, a espiral que o roteiro faz é uma experiência que atordoa, são situações cotidianas evidenciadas com a lupa do absurdo. 
 
O humor do longa de Baumbach é controverso e vem acompanhado de desespero, a realidade é assustadora e o autoengano faz parte do mecanismo para a sobrevivência das avalanches ocasionadas dia a dia, daí também parte para os vícios, sejam eles dos mais variados para estar num lugar mais confortável.
Filosofia afiada com altas doses de humor por vezes irritante e ridículo e outras sombrio e sarcástico, encarar a realidade e o entorno é um exercício cruel e indigesto, o filme faz isso muito bem e talvez não agrade exatamente por esse motivo, o som que vem dele é desarmônico e bastante desagradável.
*Disponível no catálogo da Netflix!

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